terça-feira, 15 de novembro de 2011

[resenha quase sentimental] É preciso ter sorte quando se está em guerra


Minha geração rendeu muita gente boa. Quando falo em 'minha geração' estou considerando aqueles caras uns cinco anos mais novos ou mais velhos do que eu, que são meus amigos e estão por aí tirando onda há mais ou menos uma década. São as figuras com as quais, em um determinado e crucial momento, a convivência foi um elemento central na definição do tipo de maluco que a gente seria dali pra frente.

Desse bolo, saíram bons jornalistas, poetas, cineastas (no caso, pelo menos um), pesquisadores, professores, artistas plásticos e músicos, entre outros inúteis. E minha geração rendeu um bom ficcionista, o melhor entre eles, Pablo Capistrano.

legenda autoexplicativa
e desnecessária: capa do livro 
Pablo reafirma esse meu sentimento (porque feeling é meio gay ou publicitário demais – o que dá praticamente no mesmo) em seu mais recente livro, 'É preciso ter sorte quando se está em guerra', lançado esse ano pelos Jovens Escribas.

São três contos bastante acima da média da ficção que vem sendo publicada em Natal recentemente. Li, quase numa paulada só, nesse fim de semana.

No livro, Pablo aprofunda a relação com a literatura fantástica que havia ficado evidente em seu romance de estreia, Pequenas Catástrofes, e faz uma pequena viagem sentimental aos anos 90, a época em que éramos jovens, mas nem tão inocentes assim.

O conto de abertura, 'A Escada de Jacó', retoma um tema clássico da literatura do gênero, o doppelgänger, o duplo, que está por aí assombrando escritores há um bom tempo. No enredo, um norte-rio-grandense descobre um 'antípoda' seu, mais famoso e bem sucedido, morando no Rio Grande do Sul.

Dá pra lembrar, por exemplo, de Allan Poe e de Borges – quem melhor soube desenvolver esse tropos. Talvez por isso, por discorrer sobre um tema já recorrente, seja a história que menos funcionou para mim.

Uma narrativa interessante, mas que peca em alguns momentos como, logo no início, na reação exagerada do protagonista ao fato singular que desencadeia a trama. Em outros, dá pra sentir a mãozinha do autor forçando a barra para instaurar o sentimento do fantástico, aquele estranhamento que perturba a realidade ficcional, sem, no entanto, escangotar para o fantasioso, como ensina o tio Todorov.

Esse mergulho no fantástico está bem melhor resolvido em 'O Sutra do Girassol'. O caleidoscópio de referências usadas por Pablo se mostra mais eficaz na narrativa sobre Ariel, um boêmio cuja vida é alterada por um evento cósmico inusitado que o atinge durante uma mijada.

Vê-se ali alguns temas caros a Lovecraft, apesar do estilo mais espontâneo e coloquial adotado por Pablo – o que nos remete também às histórias de Vonnegut, até pelo humor que permeia a narrativa. Há tempo ainda pra uma escorregadela kafkiana e uma alusão sem-vergonha a este resenhista que será devidamente vingada no momento apropriado.

E aí chegamos à Grande História deste livro de Pablo. Em 'Saudades do Amor', o relato sobre uma antiga paixão de um amigo, Rudá, serve de pretexto pra o narrador dar um breve e intenso mergulho na década de 1990.

Não sei quanto a vocês, mas eu estava lá. Digo, nos anos 90. E apesar da mística e do saudosismo que envolvem quaisquer lembranças referentes aos anos de juventude de alguém, ser um adolescente, ou começar a se despedir da adolescência naquela Natal era uma experiência plena de som, fúria e tédio.

Quer dizer, tinha todos aqueles livros, as bebedeiras, as festas sensacionais em que dificilmente se comia alguém, os programas de índio a la 'yanomâmi tur' e a tentativa diária e muitas vezes frustrada em romper a pasmaceira que cobria a cidade feito a bruma de fumaça deixada pelas fogueiras de São João.

E tinha o Nirvana. Puta merda, como aquele cara podia entender tão bem a insuportabilidade tropical da nossa cidade mesmo vivendo em Seattle, onde chove 300 dias por ano? Não sei. Mas funcionava que era uma beleza.

Pablo foi substituído por um gaúcho gordinho
Pablo coloca tudo isso em sua história e ainda sobra espaço para uma sutil e fascinante irrupção do fantástico que apenas reforça o encantamento juvenil dos personagens com seu próprio tempo.

Como um descarado discípulo beatnik, Pablo mistura boa ficção com lembranças mais ou menos reais e é irresistível, pelo menos para quem esteve lá – como eu, o exercício de identificar locais, situações e amigos que emergem no conto.

A droga que Rudá e seus amigos tomaram no cais da Rua Chile (LSD? Tetrapharmakon? Madeleines?) me fez pensar em quantos de nós ainda nos falamos pelo menos uma vez por ano, num encontro fortuito; quantos piraram e nunca mais foram vistos; quantos morreram; quantos viraram crentes e fingem olhar alguma vitrine ao nos cruzarmos no corredor de um shopping.

Ao mesmo tempo – que besteira – tudo aquilo já passou, é finito, ficou pra trás, ca-bum. E talvez nem tenha sido uma história assim tão interessante. No final, só o que restou mesmo foi muita gente boa por aí, e um bom ficcionista, o melhor dentre nós, para nos enganar numa tarde de domingo contando histórias mais ou menos reais de quando éramos jovens e nem tão inocentes assim.

***

P.S.: Havia prometido esta resenha pra ontem, mas nesse feriadão a internet e o universo conspiraram – o que nunca ocorre a meu favor.

Um comentário:

Orf disse...

Bueno, se vc avaliza, vou ler.
confio no seu bestunto crítico.