sábado, 5 de novembro de 2011

[Resenha] A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás


Às vezes basta um livro para entalhar o caráter de um povo. Calma, que não vou falar aqui nem da Bíblia, nem do Corão, seus fundamentalistas de uma figa. Essa máxima veio-me à cachola depois de adquirir ‘A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás’, de Leandro Gomes de Barros, adaptado para os quadrinhos por Klévisson Viana e Eduardo Azevedo (Editora Tupynanquim, 48 págs., R$ 20).

(O álbum foi uma das coisas boas que trouxe da Feira de Livros e Quadrinhos de Natal, comprado com recursos próprios no estande da editora mossoroense Queima-Bucha, do poeta e gente boa Gustavo Luz.)

Capa do álbum
‘A Batalha...’ é o texto fundador da literatura de cordel, publicado por Barros nos últimos anos do século 19 (não sou especialista, por isso procure a data exata em outro canto).

Neste poema épico, formado por 100 estrofes de 10 versos em sétimas, o cordelista recria um episódio da ‘História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França’, este por sua vez uma tradução portuguesa de uma canção de gesta francesa do longínquo século XII.

Em seu ‘Seridó Século XIX – Fazendas e Livros’, publicado em 1987 em parceria com o padre João Medeiros Filho, Oswaldo Lamartine de Faria já citava ‘A História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França’ entre os livros que habitavam os baús dos velhos coronéis daqueles chãos sertanejos, em companhia, talvez, de um exemplar de Vida dos Santos ou do Lunário Perpétuo.

É interessante notar como três ou quatro livros, num mundo largamente iletrado e engatinhando rumo à ‘civilização’, puderam marcar o imaginário nordestino, tornando-se num dos seus elementos constitutivos mais evidentes. Se o registro por escrito das canções de gesta nos legaram o cordel, sua presença oral na cultura ibérica, e por conseguinte no sertão brasileiro, nos renderam um vasto romanceiro, como lembra Câmara Cascudo em 'Flor de Romances Trágicos'. Certamente vem daí o impulso sertanejo em glorificar e idealizar figuras guerreiras como a dos cangaceiros, por exemplo.

(Aqui um breve adendo de um mestrando paranóico, vendo relações em tudo que lhe surge à frente. Erick Felinto, falando sobre o imaginário tecnológico da cibercultura, alerta para o cuidado em se identificar como esse imaginário contamina os textos teóricos sobre a cibercultura, atrapalhando a construção de uma visão crítica sobre o fenômeno. Não seria também 'culpa' do imaginário que, por tanto tempo, insistissem os estudiosos sobre o Nordeste em uma mal explicada estrutura social medieval só superada a partir da industrialização tardia no século 20? Eis a pulga, eis a orelha.)

Quadrinização transmite
a grandeza épica do texto
Daí a importância dessa adaptação aos quadrinhos de Klévisson e Azevedo. Adaptação em termos, uma vez que o texto integral foi preservado, sem no entanto, nenhum prejuízo à narrativa visual construída pela dupla. O que não é de estranhar, uma vez que Klévisson é fera tanto na arte sequencial quanto na do cordel.

O álbum narra o célebre confronto entre o cavaleiro cristão Oliveiros (Oliver, na canção de gesta francesa) com o mouro Ferrabrás, filho do Almirante Balão (no caso, o Emir Balan). Após invadir, com seus exércitos, os domínios do rei Carlos Magno, Ferrabrás se acerca do palácio do monarca, já idoso, e desafia para um duelo qualquer um de seus valorosos Pares de França, os 12 cavaleiros de sua elite guerreira.

O problema é que, além da fama de guerreiro sanguinolento de Ferrabrás não ser lá um grande incentivo, os cavaleiros encontram-se esgotados por uma batalha recente e se recusam a encarar a fera. Convocado pelo próprio Carlos Magno, Roldão (talvez uma corruptela de Roland?), o mais bravo dos 12 pares, se nega a entrar em combate e termina por se desentender com seu rei e seus companheiros.

Oliveiros, acamado devido a um grave ferimento, ao saber da confusão, envergonha-se com a postura dos demais cavaleiros e, mesmo sem condições, se apresenta para a batalha. O restante da história narra os pormenores do combate, que você só não sabe como termina caso nunca tenha assistido a qualquer folguedo popular em que os brincantes se dividem em cordões azul e encarnado.

Vale registrar o apurado rigor visual na reconstituição de vestuário e adereços, uma característica dos trabalhos anteriores de Klévisson voltados para o cangaço, mas agora direcionado para o mundo medievo. Além disso, a adaptação é rica na heráldica e simbologia que tanto impregna, por exemplo, as obras do movimento armorial brasileiro, parecendo-me um rico e feliz encontro entre a cultura popular sertaneja e a tão mal falada (por parte dos armorialistas) cultura de massa (no caso, os quadrinhos).

Assim, Klévisson e Azevedo imbuem o texto de Barros de uma agilidade narrativa que antes, nas feiras livres e avarandados de fazenda, só poderia ser imaginada, mas que não deixa de encantar àqueles hoje tão acostumados a mundo pleno de imagens para onde se vire o rosto. Daí o mais do que justo apoio governamental para que a obra saísse do prelo.

Alguns quadros são ricos na simbologia
sertaneja apropriada pelo movimento armorial 
Com seu quê de fanzine, pela forma artesanal como eram criados, os cordéis sofrem de dois problemas recorrentes. Um deles é a questão da autoria. Leandro Gomes de Barros, por exemplo, foi largamente 'pirateado' por outros autores.

Em 'No Reino da Poesia Sertaneja', coletânea de seus cordéis organizada por Irani Medeiros e publicada em 2002 pela Editora Idéia, há um interessante fac-símile de uma página de advertência criada pelo próprio poeta com os seguintes dizeres:

'AVISO IMPORTANTE – Aos meus caros leitores do Brasil – Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas – aviso que desta data em diante todos os meus folhetos completos trarão o meu retrato. Faço este aviso afim de prevenir aos incautos que teem sido enganados na sua bôa fé por vendedores de folhetos menos sérios que teem alterado e publicados meus livros, cometendo assim um crime vergonhoso. Leandro Gomes de Barros – Recife, 9 de 7 de 1917'

(Imagina aí se Barros vivesse nos dias de hoje, com os 'chupões' de posts espalhados pela web...)

Assim, essas várias reimpressões indébitas e não-autorizadas por vezes terminavam alterando o texto original, o que poderia ensejar um interessante estudo na área de textologia (mas eu mesmo é que não vou fazê-lo). Eis aí o segundo problema: a questão da identificação e permanência da versão original do texto através do tempo.

Falei nisso porque, cotejando o texto utilizado na adaptação de Klévisson e Azevedo com o publicado na coletânea de Medeiros, encontrei algumas incongruências. Isso só pode se explicar pela disparidade entre as fontes originais usadas por cada um dos autores. Vou enumerar só duas porque faltou coragem de ler os textos em paralelo até o final – se achar ruim, me processe.

A primeira localizei quando Ferrabrás esbraveja às portas do castelo de Carlos Magno. Além da pontuação diferente na estrofe, os versos na coletânea de Irani Medeiros estão assim:

'Se não tem dó dos guerreiros, / De uma vez mande Oliveiros, / Guy de Borgonha e Roldão!'

Já a adaptação de Klévisson e Azevedo traz assim:

'Se não tens dó dos cavaleiros, / De uma vez mande Oliveiros, / Gui de Borgonha e Roldão.'

Como se observa, além da mudança da terceira pessoa para a segunda, no primeiro verso, o uso de 'cavaleiros' no lugar de 'guerreiros' acaba por quebrar o pé do verso, acrescentando-lhe uma sílaba a mais.

Mais à frente, no episódio da recusa de Roldão em enfrentar Ferrabrás, possesso com a atitude do cavaleiro, Carlos Magno atira-lhe um objeto no rosto, despertando a fúria do seu subordinado. Acompanhe a versão registrada por Medeiros:

'Roldão, quando olhou, que viu / O sangue dele descer, / Não pôde mais se conter - / Se armou com tal furor, / Que não foi ao imperador / Por Ricarte se intervir.'

Agora o texto da adaptação aos quadrinhos:

'Roldão quando olhou que viu / O sangue dele descer, / Não pôde mais se conter; / Se armou com tal furor, / Que não foi ao imperador / Por alguém se 'interver'.'

Aqui, mais uma vez desconsiderando-se as alterações na pontuação, percebe-se o sumiço do cavaleiro Ricarte do verso (o que não compromete a narrativa, uma vez que é a única participação da personagem) e, principalmente, o erro proposital na grafia de 'intervir' no último verso, com intuito de manter a rima. É bom lembrar que esse recurso é comum na literatura de cordel, mas que, na versão registrada por Irani Medeiros, prefere-se perder a rima e manter-se a correção ortográfica.

Em relação ao excelente trabalho artístico dos autores, apenas uma ressalva. Mais adiante, perto do desfecho da peleja, talvez pelo calor da batalha, os autores deixaram escapar um erro de continuidade. Quando Oliveiros já está pedindo água de tanto que a luta rende (não sei dizer a página, pois o álbum não traz a numeração, nem vou contar pra dar uma de caxias), no quadro inicial da página, o vistoso bigodinho do cavaleiro simplesmente some, para reaparecer no quadro seguinte. Além disso, uma falha na diagramação findou por repetir o texto do último verso fora do balão, na altura do peito do personagem.

Obviamente, essas observações não comprometem nem desqualificam o excelente trabalho dos autores. Quando comprei o álbum, inventei de dar uma folheada em casa e foi impossível conseguir largá-lo antes do final.

Afinal de contas, é uma história que está entalhada no caráter de um povo e no meu também.

Um comentário:

................................ disse...

Excelente resenha, que nos convida e incita a ler o álbum. Gostaria de vê-la na próxima edição da revista Imaginário!
Henrique M.