quinta-feira, 29 de março de 2012

Memoirs of green


Desempacotando uns guardados – e a vida da gente vai a cada dia se perdendo em caixas e caixas que vão sendo empilhadas, às vezes em algum quarto quente e úmido e às vezes na memória mesmo – encontrei uma dessas sacolinhas de loja cheias de uns papéis velhos e amarelados.

Lá dentro, vários blocos de anotações, vindos das diferentes redações onde trabalhei, fotos agora antigas e fitas que jamais degravarei, uma vez que meu gravador também estava ali, do lado, despedaçado Deus sabe como.

Parei um pouco de (tentar) organizar as estantes e fui rever aqueles papéis que vinham de lugares como o Novo Jornal, o Nominuto.com e o Diário de Natal. Tinha também anotações esparsas de alguns frilas, ideias de reportagens que nunca rolaram, planos que não sobreviveram àquela semana que os viu nascer. Coisas de dois, quatro e até seis anos passados.

Eu e Oswaldo Lamartine. Notem, ao fundo,
o poeta Volonté enxugando um uisquinho
Achei uma foto que gosto muito, tirada pelo amigo Clóvis Tinôco. Foi de quando Abimael lançou O Sertão de Nunca Mais, com o discurso de posse de Oswaldo Lamartine de Faria na Academia Norte-Riograndense de Letras e a saudação ao acadêmico escrita por Vicente Serejo.

Na época, acho que 2005, não sei ao certo, não conhecia Oswaldo Lamartine pessoalmente, só de ouvi falar e pelos livros. A fragilidade daquele homem, que precisava preservar sua saúde com um lenço em volta do pescoço por causa do ar condicionado do shopping, era meio que comovente. Só depois, nas oportunidades que tive de conversar com ele, pude perceber que havia também algo de força naqueles ossos.



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Dois anos depois, fui à Câmara Municipal de Natal para cobrir a entrega do título de cidadão natalense a Ariano Suassuna. Lá, encontrei, claro, Carlos Newton Junior, fiel escudeiro do escritor paraibano, e também o grande, imenso Deífilo Gurgel.

Ele ia ler, na tribuna, uma homenagem a Ariano, para marcar a ocasião. Mas sabe como são os poetas... Se lembro bem da nossa conversa, no dia anterior, num lampejo, Deífilo decidiu que leria um poema. E aí passou o dia trabalhando o texto para apresentá-lo a Ariano. Momentos antes da cerimônia, conseguimos acesso à ante-sala onde estavam Ariano, Carlos Newton e Deífilo e conversamos um pouco com eles. Foi quando Deífilo falou do poema.

O poema de Deífilo. Clique para ampliar - eu ia transcrever
mas tem uma palavrinha na segunda estrofe
que não consigo entender, então não quis correr
o risco de adulterar as palavras do poeta
Como adorava colocar penduricalho nas matérias, pedi na hora uma cópia do poema. Mas não tinha nenhuma xerox na sala. Foi quando Carlos Newton ou Deífilo (gosto de pensar que foi Deífilo, daria um charme a mais à narrativa, mas realmente não consigo reconhecer de quem é a letra)* se voluntariou a escrever, no meu bloquinho, o tal poema (muito lindo por sinal).

Deífilo, para mim, era uma espécie de Cecília Meireles da literatura potiguar, pelo resgate anacrônico que promoveu do soneto quando o chique era ser moderno. Essa forma poética também é praticada com maestria por Suassuna. Então, a homenagem de Deífilo era um casamento de Tomé com Bebé. Tudo a ver.

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Tinha também umas fotos de Elino Julião. Mas Elino é outra história, que fica para outro dia.

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Abimael queria que a Ponte tivesse o nome
de Manoel Dantas. Para mim, tudo devia ter
o nome de Manoel Dantas.
Por último, achei uma curiosidade. Na época da construção da ponte Forte-Redinha (a que deu certo, ou seja, a segunda), a intelectualidade da cidade entrou em polvorosa para arrumar um nome para a dita cuja.

Abimael Silva, que perde o amigo, mas não perde o pitaco, batucava qualquer coisa na sua Olivetti quando cheguei no Sebo Vermelho. Aí já jogou a convocatória: ‘Alex, ta indo pro Diário? Leva isso aqui para Moisés publicar lá’. Obviamente, fiquei encarregado de digitar o artigo quando cheguei na redação... E não é que o original, no qual o judeu defendia o nome de Manoel Dantas para a ponte, não tava aqui guardado também? (Aliás, acho Manoel Dantas um nome do caralho praquela ponte, mas Newton Navarro também tá valendo.)

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Saudadezinha besta.

* Olha que legal. Lívio Oliveira, que teve uma participação fantasmagórica no episódio do título para Ariano Suassuna, mandou e-mail relembrando que, na verdade, foi ele quem escreveu em bloquinho o poema de Deífilo Gurgel. Passando por aqui pelo blog, mandou e-mail resolvendo este pequeno mistério memorioso. 

O horror! O horror! - crônica do apocalipse de rubengnunes


Meu amigo Ruben G. Nunes, o Rubão, mandou pra sua lista de contatos esta crônica sobre uma nova droga surgida na Europa em que faz interessantes reflexões sobre a vida contemporânea. O texto me trouxe à mente alguns aspectos da pesquisa sobre cyberpunk e cibercultura que venho fazendo, em especial as ideias do pesquisador Erick Felinto sobre o gnosticismo presente em temas como a realidade virtual e o ciborgue. 


Rubão, quando fala no 'horrorismo do prazer' também ecoa muito do que Baudrillard escreveu nos anos 80 e 90 sobre o terrorismo e a hiperrealidade. It's all conected, dude.


Vamos ao texto de Rubão. 


P.S.: As imagens às quais o autor se refere são graficamente muito violentas para que eu possa reproduzi-las aqui sem me sentir mal comigo mesmo. Mas fiquem à vontade para pesquisá-las no google, seus sádicos de araque.

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Meu amigo Fidja-Maestro, envia as fotos abaixo com notícias sobre uma nova e terrível droga russa: o Krokodil (crocodilo).

Devastadora: arrebenta os "canos" do maluco viciado, gangrena tudo, e vai corroendo toda a carne até chegar ao osso. Como uma abocanhada de crocodilo.

Fidja-velho, do ponto de vista pessoal e social essa droga russa não é só degradação e terrorismo. É também um horrorismo do prazer.

Leva a um êxtase, ou um "barato", com pavorosas marcas de autodestruição. A coisa é rapidinha. Em pouco tempo, o bixogrilo vira um descarnado vivo. Como um zumbi. Verdadeiro suicídio cotidiano.

As carnes, veias, nervos, músculos, vão apodrecendo. Mas, o "barato" é tão forte que o vício fica fora de controle. Tanto que leva a um estado mórbido de "tô nem aí". O êxtase do krokodil supera o instinto de sobrevivência.

Quer dizer: o viciado fica num tal "espírito" de total desprendimento de sua materialidade carnal, que não "tá nem ai" para a perda progressiva de seu corpo gangrenando,  por via química.

"Tô nem aí, m'ermão".
É como a filosofia da vaca ou do cavalo: sempre cagando e andando.
O que importa é o "barato espiritual". A viagem.

Mas, não é justamente essa desvalorização da carne em favor do espírito, que as religiões, em geral, tanto pregam - só que por via da fé doutrinária?

Vício e religião, cada um busca um tipo próprio de transcendência. Ambos visam a libertação da "prisão da carne", por vias diferentes. Não é isso uma ironia?

Qual o papel da Razão nesse horror?
Pelas fotos abaixo a gente tira que todo processo pra sintetizar o krokodill é um processo químico cheio de etapas racionais.
É um processo de Razão aplicada.
Como foi também um processo da Razão todo o plano nazista de extermínio.
O horror da Razão.

Tá ai uma inexplicável atividade desumana da Razão.
A Razão que é o campo próprio do trabalho da Filosofia.
Cujo trabalho busca, em geral, a Verdade Universal e Absoluta.
Busca Causas Primeiras e Ultimas.
Busca o sentido lógico de nossas vidinhas.
Santa Ingênua Enclausurada Filosofia!

Todo esse trabalho filosofeiro tem acumulado, nos séculos, rumas e rumas de teses, tesinhas e tesões de muito boa cêpa. De profundas teorias geniais. Tudo devidamente arquivado nas academias, entre traças e aranhas.

Mas, a grande maioria dessas teorias filosofeiras são tão profundas e tão teoricamente geniais, que são impraticáveis na superfície da VidaViva.

Ficam lá, no GrandeManicômio da Mundo das idéias, fora do tempo.
Teses que se sucedem trocando entre si figurinhas teóricas forever.
Enquanto cá fora a fila anda.

Voltemos à Razão drogada com krokodil.
O que há com essa Razão que se auto-extermina, como um crocodilo devorando a si mesmo?
Uma Razão enlouquecida?

Os viciados no krokodil russo olham suas carnes apodrecendo até o osso.
Como num filme de horror, tudo ao vivo, a cores e em close.
Esguichando sangue.
Mesmo assim, seguem o prazer do vício arrancado de seu próprio sofrimento.
Um Bem arrancado do Mal?

Os viciados vêm e sentem o Bem e o Mal em si mesmos.
Há, pois, uma referência entre o Bem e o Mal.
Uma referência perversa.

O que há com essa Razão drogada?
Perdeu, a Razão, o contrôle sobre si mesma?
A Vontade-de-Vida que nos move, tornou-se Vontade-de-Morte?

Por outro lado, muitos desses viciados creem num Deus, têm religião.
Mas que deus, ou deuses, permite isso? Que deus(es) há neles?
Há ou não há deus(es)?

Fidja-velho, do ponto de vista transcendental, i.é de entidades divinas criadoras, como encarar esses fenômenos de uma Razão suicida drogada num contexto de puro horror de prazer e morte de si?

Cadê um lenitivo religioso, menos doutrinário, mais compreensivo, que suspenda o Homem desses abismos?

Haverá na Razão Humana espécie de reflexo de uma Razão Cósmica Enlouquecida?
Ou, reflexos de MultiRazões Cósmicas, com infinitos graus  de loucura?

Mas, afinal, quem criou a cruel possibilidade química dessas drogas existirem?
O próprio Homem?
Ou o(s) deus(es)?

Ou, algumas dessas Razões Divinas perderam o contrôle total do que criaram ou arquitetaram?
Ou, há também na economia da esfera infinita, desgaste, enguiço, cansaço, desregulagem, das Onipotencias das Entidades Divinas? Se há tamofú, velho!

Num multiverso (in)finito, infinitas são as possibilidades e realidades...

Fidja-amigo, que certezas há?
Ou a certeza do não-sentido é também um sentido imperceptível?
Por que em alguns de nós há essas inquietudes crônicas e em outros não?
Por que esse apaixonamento pela eterna estrada do mistério?...

um abraço e BoaEnergia!
rubengnunes
desfilósofo&traficante de sonhos
botecodo(in)finito, 26/3/12, Natal, RN

terça-feira, 20 de março de 2012

Sobre o Caso Andréia


Natal está mobilizada – ou pelo menos, a imprensa natalense está -, por estes dias, pelo julgamento do que se convencionou chamar de ‘Caso Andreia’, uma macabra historia policial sobre um oficial das Forças Armadas que matou a esposa e ocultou o cadáver dela no quintal da casa dos pais há cerca de cinco anos.

Este caso daria um interessante estudo sobre como os veículos se pautam, ou se deixam pautar, uns pelos outros e também sobre o impacto do jornalismo de internet na imprensa natalense. E, sobre esse assunto em particular, tenho um pequeno depoimento.

No ano em que aconteceu a merda, eu trabalhava no Nominuto.com, um portal de notícias, como gostava de chamar nosso diretor e chefe, Diógenes Dantas, um jornalista se aventurando na turbulenta função de empresário da comunicação.

Natal já tivera antes um site voltado para conteúdo jornalístico, o Cabugi.com, ou .net, não lembro ao certo. Sei que funcionou ali por volta de 1999-2000, porque foi quando entrei na universidade e alguns amigos, como Aristeu Araújo, fizeram parte da primeira leva de estagiários do empreendimento. A questão é que, naquela época, a internet ainda estava engatinhando na cidade e a coisa não andou muito bem.

Pois bem, pula aí uns seis anos e, quando surgiu o Nominuto.com, foi uma loucura, principalmente nas outras redações. O fetiche pelo imediatismo que é o cerne da atividade jornalística fez com que o site virasse um frisson entre os profissionais. Isso porque o troço era realmente muito ligeiro para publicar o que vinha acontecendo na cidade, principalmente frente aos veículos impressos – e anos-luz mais ágil que os sites dos jornalões da cidade também.

Lembro muito bem como começou o ‘caso Andreia’. Era um feriado e estávamos num ingrato plantão de um dia bem morto. Eu fazia cultura, então tava cascaviando festas e shows (valia até enterro) pra movimentar a timeline do portal. Nosso repórter de polícia (outra novidade do portal foi resgatar uma editoria específica para o tema, prática que havia sido abolida pelos outros veículos quando os leitores começaram a se resumir às classes A e B) era Fred Carvalho e também tava num dia péssimo para ele – e ótimo para a humanidade, em contrapartida.

Fred sempre foi, aos meus olhos, uma espécie de fenômeno da natureza: era a prova contumaz de que um bom repórter não precisa necessariamente ser também um intelectual (e isso não é nenhum demérito, eu só achava aquilo muito esquisito). Mas, como dizem os hypes de hoje, aquele dia foi foda.

Daí, sai da sua sala Diógenes com aquela cara de que vai dar um esporro em alguém. Tudo parado. E vai pra cima de Fred. Ao perceber que a coisa tá feia, Diógenes pegou um jornal do dia (não lembro se uma Tribuna do Norte ou Jornal de Hoje) e apelou: “Não tem nada aqui que dê pra gente desdobrar, achar outro ponto de vista, correr atrás, não?”

“Diógenes, tudo que tem aí a gente já deu. E a ronda não tem nada”, respondeu o gordo. (O diálogo é puramente ficcional, você não vai querer fidelidade ao fato a uma altura dessa do campeonato, né?)

“E isso aqui?”, e apontou para uma notinha, pouco mais de cinco linhas, sobre o desaparecimento de uma dona de casa em Cidade Verde. “A gente não deu isso aqui. Vamos atrás.”

Bom, meio a contragosto, o Fred foi lá e fez uma matéria que não acrescentava muito além do que já se sabia. Mas, Diógenes não ficou satisfeito. Insistiu para que fossem publicadas mais matérias, que fôssemos à casa da mulher pra falar com a família. “Tem algo de estranho nessa história”, insistia. E o Fred, de início a contragosto, fez a parte dele. Acabou, pelas tantas, localizando a família da moça em outro estado. E começaram, se não me engano, a levantar suspeitas sobre a versão apresentada pelo marido.

Nisso, o feriado já tinha passado e o fim de semana que veio logo depois também. Na segunda-feira, acho que ainda publicamos alguma coisa sobre o assunto. Na terça, era o pandemônio. Todos os jornais da cidade, com muito, pouco ou algum destaque, entraram de cabeça na cobertura. E aí, já viu. Saiu no impresso, todas as tevês correm atrás.

O resto todo mundo que trabalhava em redação na época sabe como foi. Mas para mim, do episódio todo, ficou a lembrança de um faro para uma notícia que todo mundo tinha ignorado, por parte do meu ex-chefe, e da perseverança de um colega que, mesmo sem acreditar na pauta, arrancou dela o que podia, até que tudo se tornasse um circo midiático como poucos que pude acompanhar durante meu período em veículos de comunicação.

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Não quero, com esse texto, desmerecer o esforço de apuração de outros colegas que participaram da cobertura do caso -  que certamente levantaram informações inéditas e importantes, cada qual em seu veículo.

quarta-feira, 7 de março de 2012

quinem eu


othoniel menezes

para tudo que o negócio agora é sério.

Laélio Ferreira disponibilizou na rede a obra completa de seu pai, um dos mais importantes poetas nascidos, criados e sacaneados no Rio Grande do Norte. Othoniel Menezes, que já havia recebido do filho uma luxuosa e completa edição de sua obra, também pode ter sua poesia acessada livremente pela internet, basta ir lá na página, ler em versão flip, baixar ou o que lhe aprouver.

O bacana é que, nessas épocas de copyleft, Othoniel foi uma espécie de precursor, uma vez que nunca buscou ganhar prata com sua obra (apesar de merecer todos os louros por ela - o que lhe foi negado por muito tempo). Muito justo que a família, agora, faça a mesma coisa, garantindo acesso livre a este verdadeiro patrimônio da cultura potiguar.

Ah, o endereço: http://othonielmenezes.com.br.

Biutiful.

uma odisseia na blogosfera

entonces, chegamos a 2003 visualizações deste blog bissexto e mal atualizado, sem lenço, nem documento - e sem linha editorial aparente.

São cinco meses em atividade inconstante, o que nos rende uma média de 400 visitas por mês. Pra quem esperava 25% disso, tá ótimo.

eis então nosso top 5 de postagens mais visitadas:

[resenha quase sentimental] É preciso ter sorte quando se está em guerra - sobre o último livro de Pablo Capistrano. 
- [Resenha] A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás - sobre a HQ de Klévisson Viana. 
[ensaio] o mito do eterno retorno: tempo e espaço como formas do cotidiano nas tirinhas de jornal - sobre minhas pesquisas em HQs. 
Raul Seixas: o início, o fim, o meio - sobre o filme do Walter Carvalho.
- Bandido bom - um poemeto vagabundo, que na verdade é só uma redação de vestibular mal feita. 


Parece que o pessoa gosta mesmo quando a gente publica resenhas. Fica a dica pro redator destas mal traçadas. 


Boa parte desse tráfego veio da divulgação destes textos no blog Substantivo Plural. Um abraço então pro velhinho Tácito Costa. 


E um beijo na bunda de vocês.