quarta-feira, 18 de maio de 2016

Cine & Medicina - Bicho de Sete Cabeças

Este texto aqui é apenas uma breve reflexão sobre o filme Bicho de Sete Cabeças (Brasil, 2001, dirigido por Laís Bodanzky), como parte das atividades do projeto de extensão Cine & Medicina, do Centro de Ciências Médicas.

Primeiro, uma escolha muito feliz do projeto, uma vez que é uma das raras produções nacionais a tratar do tema dos antigos hospitais psiquiátricos, além de ter sido um filme de bastante sucesso à época do lançamento, em 2001 – foi responsável por projetar a carreira de Rodrigo Santoro, até então apenas um dos rapazes de Malhação.

Bicho de Sete Cabeças deve muito à linguagem de videoclipes, que apenas se popularizou no Brasil em meados dos anos 1990 (nos EUA, foi na década anterior), e isso se deve principalmente por dois motivos: o filme é narrado pelo ponto de vista de um jovem (Neto, personagem de Rodrigo Santoro) e pelo fato de a narrativa se apoiar bastante no uso da música como fio condutor (a trilha mistura temas compostos por André Abujamra e canções de Arnaldo Antunes).

Além disso, os videoclipes são caracterizados por uma montagem frenética, de planos de curta duração e o uso de efeitos visuais – esses traços se acentuam no filme para mostrar os momentos de crise mental do protagonista, por exemplo.

Outra forma de representar os conflitos internos de Neto é naquilo que se chama de “desenho de som”. A edição de som, que envolve a valorização de ruídos externos, como os barulhos ambientes, aliados a flashbacks sonoros e efeitos musicais, aparece constantemente para que identifiquemos esses momentos como equivalentes às confusões mentais do personagem.

Um lance que gosto muito no filme é ausência de final feliz: o último plano não nos oferece sequer uma conciliação no conflito entre Neto e seu pai, que deflagra a história. Sentados na calçada, os dois se encontram dilacerados e o pai certamente está arrependido, mas não há demonstrações de carinho entre eles, o distanciamento permanece.

Por fim, queria deixar uma crítica. O filme é claramente ambientado nos anos 1990 (Neto anda de skate, se diverte pixando muros e vai a uma festa de hip hop), por isso, o episódio que deflagra o internamento do personagem me parece anacrônico. Isso porque a história se baseia no romance ‘Canto dos Malditos’, em que Austregésilo Carrano narra sua própria experiência de ter sido internado à força pela família em 1974 por causa do consumo de maconha. Não me parece factível que tal coisa pudesse ocorrer no final dos anos 1990; posso até estar enganado, mas como alguém que estava entrando na vida adulta na época do lançamento do filme, não me lembro de ter visto ou ouvido falar em algo parecido durante minha adolescência.

É isso.

p.s.: O autor, Carrano, morreu em 2008. E, se não me engano, acho que ele é aquele coroa que tenta assediar Neto na piscina quando ele viaja com um amigo para passar o fim de semana em Santos.

p.s.2: A carta que Neto entrega ao pai, na verdade, é a letra da canção 'Judiaria', de Lupicínio Rodrigues, que também foi gravada por Arnaldo Antunes.