quinta-feira, 12 de julho de 2012

kháyyám

1

Todos sabem
que meus lábios nunca
murmuraram uma oração.

Não procurei nunca
dissimular os meus pecados.

Ignoro se existem realmente
uma Justiça e uma
Misericórdia.

Mas, se existem, não
desespero delas: fui sempre
um homem sincero.

***

2

Que vale mais?

Fazer exame da consciência
sentado na taverna,
ou prosternado na mesquita?

Não me interessa saber
se tenho um Senhor
e o destino que me reserva.

***

5

Procura ser
feliz ainda hoje,
pois não sabes o que te reserva
o dia de amanhã.

Toma uma urna cheia de
vinho, senta-te ao clarão do
luar e monologa: "Talvez
amanhã a lua me procure
em vão."

***

7

O Corão,
chamado livro supremo,
pode ser lido de vez em
quando; mas ninguém se
deleita na sua leitura,
sempre que o lê.

Na taça cheia de vinho está
gravado um texto, de tão
adorável sabedoria, que a
coca, à falta dos olhos,
lê sempre com delícia.

***

13

Deixemo-nos
de palavras vãs.

Levanta-te e dá-me
um pouco de vinho.

Esta noite tua boca é a mais
bela rosa do mundo e basta
para todos os meus desejos.

Dá-me vinho.

Que ele seja corado como as
tuas faces, e o meu remorso
será leve como as tuas tranças.

***

17

Os dias
passam rápidos
como as águas do rio
ou o vento do deserto.

Dois, há, em particular,
que me são indiferentes:
o que passou ontem,
o que virá amanhã.

***

19

Kháyyám!

Tecendo a tenda da sabedoria
caíste na fogueira do Dor
e ficaste reduzido a cinzas.

O anjo Azrael cortou as
cordas da tenda e a Morte
vendeu-a por uma canção.

***

22

Na primavera,
gosto de sentar-me
à orla de um campo florido.

Bebo o vinho que me
oferece uma linda rapariga e
não cuido de minha salvação.

Se tal pensamento me
ocupasse, eu valeria menos
que um pobre cão.

***

23

O imenso
mundo: um grão de
areia perdido no espaço.

Toda a ciência
dos homens: palavras.

Os povos, os animais e as
flores dos sete climas:
sombras.

O resultado de tua
meditação: nada.

***

36

Velho mundo
que atravessa
a galope o cavalo branco
e negro do Dia e da Noite,
és o palácio triste onde
cem Djemchids sonharam com
a glória e cem Bahrâms
sonharam com o amor, e todos
despertaram chorando.

***

63

Não temo
a Morte: prefiro
esse fato inelutável ao
outro que me foi imposto
no dia do meu nascimento.

Que é a vida?

Um bem que me confiaram
se me consultar e que
restituirei com indiferença.

***

75

Um tal
odor de vinho
emanará do meu túmulo, que
embriagará os viandantes.

Uma serenidade tal
pairará sobre a minha
sepultura, que os amantes não
poderão afastar-se dela.

***

87

Escuta um
grande segredo:
quando a primeira aurora
iluminou o mundo, Adão já
era uma criatura dolorosa,
que pedia a noite,
que ansiava pela morte.

***

94

Eis a verdade
única: - somos
os peões da misteriosa
partida de xadrez, jogada
por Deus, que nos desloca,
nos pára, nos põe mais
adiante, e depois nos recolhe
um a um à caixa do Nada.

***

96

Os sábios
não te ensinaram
coisa alguma, mas a carícia
dos longos cílios de uma
mulher poderá revelar-te
a felicidade.

Não esqueças que os teus
dias estão contados e que
serás em breve
a presa da terra.

Compra o vinho e, recolhido
ao teu canto, busca
nele o consolo.

***

105

A abóbada
celeste sob a qual
vivemos é comparável a uma
lanterna mágica,
de que o sol é a lâmpada.

E nós somos as figurinhas
que se movem.

***

116

O vinho tem
a cor das rosas.

O vinho não é talvez
o sangue das vinhas,
mas dos rosais.

Esta taça talvez não seja
de cristal, mas do próprio
azul do céu coagulado.

A noite é talvez
a pálpebra do dia.

***

136

Senhor!

Armaste mil ciladas
invisíveis no caminho
que seguimos, e disseste:
"Desgraçado o que não as evitar."

Tu vês tudo.

Tu sabes tudo.

Nada acontece sem a tua
permissão. Seremos, pois,
responsáveis
por nossos pecados?

Farás um crime
da minha revolta?

***

144

Só vês
as aparências
das coisas e dos seres.

Sabes que és ignorante, mas
não queres renunciar ao amor.

Lembra-te de que Deus fez
o amor como fez certas
plantas venenosas.

***

148

Recebi o
golpe que esperava.

Abandonou-me a
bem-amada.

Quando eu a possuía,
era-me tão fácil desprezar o
amor e exaltar todas
as renúncias!...

Junto de tua amada,
Kháyyám, como estavas só!

Sabes?

Ela se foi para que tu
possas refugiar-te nela...

***

Uma cruza de Bukowski com
algum outro cabeção
capaz de resolver equações
juntando uma hipérbole
e um círculo
Trechos do Rubáiyát, de Omar Kháyyám (1040 - 1125, ou 1048-1131 pela wikipedia), na tradução de Otávio Tarquínio de Sousa (Livraria José Olympio Editora, 1979, 15ª edição).

***

Para meu pai, Carlão.