quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Arqueologias

Cascaviando no meu computador, achei uns backups de textos antigos; coisa de 10, 11 anos atrás, que julgava perdidos há tempos. A maioria era de matérias que escrevi para o Diário de Natal (RIP) – e apaguei quase tudo.

Engraçado notar como pouco mudou no estilo dos textos jornalísticos que produzi desde então. Sinal de que parei no tempo ou de que a técnica é só uma mesmo? Não sei.

Quer dizer: mudou sim. Como tenho escrito cada vez menos matérias e, quando me atrevo no jornalismo, é mais para artigos ou reportagens, tenho tornado minha presença mais direta no texto (como por exemplo agora, escrevendo na primeira pessoa).

Mas, voltando. Muita coisa foi pro lixo porque eu começava a escrever em casa, para terminar na redação, então tinha muito texto pela metade. Decidi guardar alguns, por valor sentimental, como uma cobertura do Festival DoSol e outra do Mada; minha primeira matéria com Elino Julião; um tal festival PIPOCA, também do DoSol; um texto muito engraçado que escrevi em parceria com Carlos Magno Araújo sobre a infância de José Mauro de Vasconcelos (não tive tempo de fazer o texto final, encarrilhei as informações e Magno custurou o resto); entrevistas com Jorge Mautner, Toninho Vaz, Banda de Pífanos de Caruaru. Retalhos de memórias.

Vários projetos de livros que não saíram do canto; um poema de Gilmara Benevides ‘Babirush’ e um dos velho Francis. Um artigo acadêmico horroroso para me ver livre da disciplina de Comunicação e Semiótica. Roteiros nunca filmados (a maioria de documentários e um pra disciplina de Tânia Mendes). Um trabalho de Helena pra sétima série.

Imagino quanta coisa não ficou no velho computador que Flavia levou quando foi embora com as crianças... Será que um dia poderemos reconstituir nosso passado listando os arquivos em nossos hard drives?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dimenor

Era uma vez um garoto. Seu nome era Francisco. Francisco Bento. Mas todo mundo na bocada só o conhecia por Chico. Ele era famoso por bater carteiras no Centro. Também tinha um fraco por relógios e pulseiras. Até que um dia, por descuido, se deixou encurralar por uma pequena multidão. Chico apanhou muito antes que a polícia chegasse para levá-lo.

- Idade?

- Tô com 17.

- Tem vergonha na cara não, moleque?

- Tenho não, sinhô. Tenho fome.

***

Era uma vez uma garota. Seu nome era Mafalda. Após assaltar uma farmácia em Nova Parnamirim, ela, que fugia a pé, foi logo alcançada pelos policiais. Quando viu as armas apontadas em sua direção, nem pensou em puxar o 38 que trazia consigo.

- Idade?

- 14.

- E isso aqui no seu ombro, é uma cicatriz?

- É, sim, senhor.

- Foi o quê?

- É marca de bala, senhor.

- Bala perdida?

- Não. Bala achada mesmo.

***

Era uma vez três garotos. Huguinho, Zezinho e Luizinho tocavam o terror na Ocidental de Baixo. O primeiro tinha 15 anos, os outros, 14. Só andavam juntos e pareciam até ser da mesma família. Naquele quarteirão,  ninguém podia vender bagulho. Só eles. Quando a polícia estourou a boca, Luizinho levou um tirambaço na cara e por ali mesmo ficou. Os outros dois foram algemados na mala do camburão.

- Eu te disse que crack era coisa de otário, num disse?

- É, mas eu curto.

- Senhor, diz pra ele: crack não é coisa de otário?

- É sim, moleque.

- Tá vendo? Eu disse a tu: o negócio é cheirar pó, mané.

***

Era uma vez um garoto. Era uma vez uma garota.

Era uma vez.

Era uma vez.

Era uma vez.