sexta-feira, 28 de abril de 2017

I love you, Caicó

Existe o centro de João Pessoa e existe o epicentro de João Pessoa. Muita gente confunde. Um fica nos arredores da lagoa. O outro fica no Mofado’s Bar. Apenas no Mofado, por exemplo e obséquio, você poderia conhecer alguém como Mateus, o argentino que viveu por três semanas em Caicó.

Mateus saiu dos pampas acreditando em peace, love and malabares – e resolveu ser artista de rua. Um plano de vida que inclui cair na estrada e perigas ver. Nesse rolé troncho, foi bater em Caicó.

Os fracos não têm vez em Caicó. Lá, dois em cada um habitante abre mão de ser normal. Muito normal em termos de Seridó. Caicó só não tem muito treino com doido que fica no sinal jogando coisa pra cima. Até Mateus chegar.

Artista de rua depende do povo. Em Caicó, tem doido pra tudo. Mateus foi um sucesso.  O lance de Mateus é simples, coragem às vezes fala mais alto que habilidade, apesar de um bom artista contar com doses generosas das duas. Caicó, ele percebeu logo, tinha um ponto dos sonhos: a BR 427, que vem de  Jardim do Seridó em direção a Pombal, unindo os dois Seridós. Carro pra lá e pra cá. Virado na porra.

E Mateus lá, no sinal, jogando os malabares pro alto. Ganhou uma grana boa, logo de saída. Foi no mercado central, do lado, e comprou o que quis: biscoito, iogurte, queijo (“caro pra caralho”, segundo ele, mas certamente manteiga ou coalho). Trocou umas moedas e veio o primeiro susto. Em vez dos dezesseis contos em espécie, recebeu uma “nota”, como ele me disse, ou o famoso recibo, um papel assinado pelo dono da cantina atestando o valor.  De posse do documento, Mateus alugou um quarto em Caicó, esse legítimo paraíso pós-capitalista.

Porém, vida de artista não é moleza, vide a do autor destas linhas, que nada receberá por elas. Então nosso herói resolveu procurar um canto para armar sua barraca. Foi quando ele descobriu a ilha de Sant’Ana. Pra quem não sabe, a Ilha de Sant’Ana é um Xangri-lá, um Hy-Brasil, observando Caicó da altura dos séculos e pensando: “Que diabo é dez?”

Foi lá onde Mateus armou sua barraca, num dos palcos que vira e mexe agitam o animado São João da cidade ou a festa da padroeira. Mas quando eu digo no palco, era no palco mesmo. Em cima, protegido de chuva e vento ruim. A intimidade era tanta que Mateus sabia onde ficavam os disjuntores que controlavam as luzes da estrutura, e as desligava quando era hora de ir pra cama.

De manhã sempre tinha uma escola levando a meninada pra conhecer o pedaço e as professoras ofereciam um mamão ou um cuscuz. Mas cuscuz do que mamão, tá ligado. Um suquinho de fruta e uns cigarrinhos de artista também que ninguém é de aço inox. Mateus até foi convidado para se apresentar numa delas.

De todas as cidades potiguares, Caicó foi a melhor (apesar de eu ter achado ele meio sem critérios, porque me disse que gostou muito de Mossoró também). Mateus amou Caicó. Mas também o bicho é cagado, vejam só: num dos dias, em frente ao farol, o tempo fechou. Mateus tava lá, fazendo sua arte no sinal, quando começou a chover. Encantado com aquilo tudo, o motorista fez o que qualquer faria diante de um mago: baixou o vidro e mandou aquela nota de vinte reais. That’s Caicó.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Cine & Medicina - Bicho de Sete Cabeças

Este texto aqui é apenas uma breve reflexão sobre o filme Bicho de Sete Cabeças (Brasil, 2001, dirigido por Laís Bodanzky), como parte das atividades do projeto de extensão Cine & Medicina, do Centro de Ciências Médicas.

Primeiro, uma escolha muito feliz do projeto, uma vez que é uma das raras produções nacionais a tratar do tema dos antigos hospitais psiquiátricos, além de ter sido um filme de bastante sucesso à época do lançamento, em 2001 – foi responsável por projetar a carreira de Rodrigo Santoro, até então apenas um dos rapazes de Malhação.

Bicho de Sete Cabeças deve muito à linguagem de videoclipes, que apenas se popularizou no Brasil em meados dos anos 1990 (nos EUA, foi na década anterior), e isso se deve principalmente por dois motivos: o filme é narrado pelo ponto de vista de um jovem (Neto, personagem de Rodrigo Santoro) e pelo fato de a narrativa se apoiar bastante no uso da música como fio condutor (a trilha mistura temas compostos por André Abujamra e canções de Arnaldo Antunes).

Além disso, os videoclipes são caracterizados por uma montagem frenética, de planos de curta duração e o uso de efeitos visuais – esses traços se acentuam no filme para mostrar os momentos de crise mental do protagonista, por exemplo.

Outra forma de representar os conflitos internos de Neto é naquilo que se chama de “desenho de som”. A edição de som, que envolve a valorização de ruídos externos, como os barulhos ambientes, aliados a flashbacks sonoros e efeitos musicais, aparece constantemente para que identifiquemos esses momentos como equivalentes às confusões mentais do personagem.

Um lance que gosto muito no filme é ausência de final feliz: o último plano não nos oferece sequer uma conciliação no conflito entre Neto e seu pai, que deflagra a história. Sentados na calçada, os dois se encontram dilacerados e o pai certamente está arrependido, mas não há demonstrações de carinho entre eles, o distanciamento permanece.

Por fim, queria deixar uma crítica. O filme é claramente ambientado nos anos 1990 (Neto anda de skate, se diverte pixando muros e vai a uma festa de hip hop), por isso, o episódio que deflagra o internamento do personagem me parece anacrônico. Isso porque a história se baseia no romance ‘Canto dos Malditos’, em que Austregésilo Carrano narra sua própria experiência de ter sido internado à força pela família em 1974 por causa do consumo de maconha. Não me parece factível que tal coisa pudesse ocorrer no final dos anos 1990; posso até estar enganado, mas como alguém que estava entrando na vida adulta na época do lançamento do filme, não me lembro de ter visto ou ouvido falar em algo parecido durante minha adolescência.

É isso.

p.s.: O autor, Carrano, morreu em 2008. E, se não me engano, acho que ele é aquele coroa que tenta assediar Neto na piscina quando ele viaja com um amigo para passar o fim de semana em Santos.

p.s.2: A carta que Neto entrega ao pai, na verdade, é a letra da canção 'Judiaria', de Lupicínio Rodrigues, que também foi gravada por Arnaldo Antunes.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Arqueologias

Cascaviando no meu computador, achei uns backups de textos antigos; coisa de 10, 11 anos atrás, que julgava perdidos há tempos. A maioria era de matérias que escrevi para o Diário de Natal (RIP) – e apaguei quase tudo.

Engraçado notar como pouco mudou no estilo dos textos jornalísticos que produzi desde então. Sinal de que parei no tempo ou de que a técnica é só uma mesmo? Não sei.

Quer dizer: mudou sim. Como tenho escrito cada vez menos matérias e, quando me atrevo no jornalismo, é mais para artigos ou reportagens, tenho tornado minha presença mais direta no texto (como por exemplo agora, escrevendo na primeira pessoa).

Mas, voltando. Muita coisa foi pro lixo porque eu começava a escrever em casa, para terminar na redação, então tinha muito texto pela metade. Decidi guardar alguns, por valor sentimental, como uma cobertura do Festival DoSol e outra do Mada; minha primeira matéria com Elino Julião; um tal festival PIPOCA, também do DoSol; um texto muito engraçado que escrevi em parceria com Carlos Magno Araújo sobre a infância de José Mauro de Vasconcelos (não tive tempo de fazer o texto final, encarrilhei as informações e Magno custurou o resto); entrevistas com Jorge Mautner, Toninho Vaz, Banda de Pífanos de Caruaru. Retalhos de memórias.

Vários projetos de livros que não saíram do canto; um poema de Gilmara Benevides ‘Babirush’ e um dos velho Francis. Um artigo acadêmico horroroso para me ver livre da disciplina de Comunicação e Semiótica. Roteiros nunca filmados (a maioria de documentários e um pra disciplina de Tânia Mendes). Um trabalho de Helena pra sétima série.

Imagino quanta coisa não ficou no velho computador que Flavia levou quando foi embora com as crianças... Será que um dia poderemos reconstituir nosso passado listando os arquivos em nossos hard drives?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dimenor

Era uma vez um garoto. Seu nome era Francisco. Francisco Bento. Mas todo mundo na bocada só o conhecia por Chico. Ele era famoso por bater carteiras no Centro. Também tinha um fraco por relógios e pulseiras. Até que um dia, por descuido, se deixou encurralar por uma pequena multidão. Chico apanhou muito antes que a polícia chegasse para levá-lo.

- Idade?

- Tô com 17.

- Tem vergonha na cara não, moleque?

- Tenho não, sinhô. Tenho fome.

***

Era uma vez uma garota. Seu nome era Mafalda. Após assaltar uma farmácia em Nova Parnamirim, ela, que fugia a pé, foi logo alcançada pelos policiais. Quando viu as armas apontadas em sua direção, nem pensou em puxar o 38 que trazia consigo.

- Idade?

- 14.

- E isso aqui no seu ombro, é uma cicatriz?

- É, sim, senhor.

- Foi o quê?

- É marca de bala, senhor.

- Bala perdida?

- Não. Bala achada mesmo.

***

Era uma vez três garotos. Huguinho, Zezinho e Luizinho tocavam o terror na Ocidental de Baixo. O primeiro tinha 15 anos, os outros, 14. Só andavam juntos e pareciam até ser da mesma família. Naquele quarteirão,  ninguém podia vender bagulho. Só eles. Quando a polícia estourou a boca, Luizinho levou um tirambaço na cara e por ali mesmo ficou. Os outros dois foram algemados na mala do camburão.

- Eu te disse que crack era coisa de otário, num disse?

- É, mas eu curto.

- Senhor, diz pra ele: crack não é coisa de otário?

- É sim, moleque.

- Tá vendo? Eu disse a tu: o negócio é cheirar pó, mané.

***

Era uma vez um garoto. Era uma vez uma garota.

Era uma vez.

Era uma vez.

Era uma vez.

domingo, 27 de julho de 2014

Tungstênio

Ler ‘Tungstênio’, álbum do carioca Marcello Quintanilha, é receber uma senhora aula de narrativa para os quadrinhos, que só não é gratuita porque você precisa comprar o livro. Nas 184 páginas de história, acompanhamos uma ciranda frenética, que se espraia pelo espaço e pelo tempo, na qual se envolvem vários personagens durante uma simples ocorrência policial em Salvador, Bahia.

Durante um dia de sol na capital soteropolitana, um sargento reformado, seu Ney, e um pequeno traficante de drogas, Caju, flagram uma dupla usando explosivos para pescar, de olho na facilidade da manobra para conseguir o pescado. Pressionado por seu Ney, Caju é levado a chamar Richard, um policial do qual é informante, para dar um fim à atividade dos pescadores. Richard, por sua vez, é casado com Keira, mas o relacionamento deles está por um fio.

Basta esse fiapo de história, guiada por quatro pessoas comuns, envolvidas com os pequenos problemas cotidianos de cada um, para Quintanilha construir uma HQ envolvente, frenética, impossível de se largar a leitura.

Há de ressaltar que Quintanilha é tanto desenhista quanto roteirista de seus álbuns, dominando os dois ofícios como poucos. Artista versátil, como se pode ver ao comparar seus diferentes trabalhos, em ‘Tungstênio’ ele aposta num traço naturalista, rico em detalhes, com preenchimentos em tons de cinza, que se apoia num tracejado grosseiro para ressaltar volumes e sombras.

Além disso, a reprodução meticulosa do cenário arquitetônico de Salvador e o apuro na composição corporal e fisionômica dos personagens conferem uma tom realista que reforça a atmosfera de ‘vida real’ de suas histórias. Quintanilha não tem vergonha em explorar as possibilidades gráficas da linguagem dos quadrinhos: a expressividade das onomatopeias e dos balões se integra aos desenhos de tal forma que os sons em ‘Tungstênio’ são quase táteis. Um bom exemplo é quando os personagens discutem entre si, ou quando o autor retrata as explosões provocadas pelos pescadores.

Seus quadros não se conformam com as facilidades do plano médio, porém a variedade de enquadramentos dificilmente está ali para demonstrar algum virtuosismo: há uma relação direta com o ritmo e as necessidades da narrativa. Um dos vários momentos em que isso ocorre no álbum é no conflito entre Ney e Caju que provoca a entrada de Richard na história.

Aí, temos o Quintanilha roteirista: uma história aparentemente tão banal envolve pessoas cheias de motivações e dramas que uma expressão facial, um plano-detalhe, ajudam a revelar. Outra boa sacada é fragmentar o desenvolvimento da narrativa, mesclando passado, presente e futuro, tempo narrativo e tempo psicológico, para, aos poucos, ir desnudando o que move cada um dos personagens. A própria capa do álbum meio que já antecipa para o leitor o desenvolvimento simultâneo de várias tramas. A hesitação de Keira entre deixar o marido ou ir ao seu encontro ilustra bem essa situação. Certamente, o leitor mais desatento precisará de mais de uma leitura para perceber essas nuances (eu precisei).

Outro trunfo de Tungstênio está no texto, divididos em duas modalidades. Primeiro, temos os balões, com os diálogos dos personagens. Quintanilha busca, ao máximo, se aproximar do registro oral contemporâneo, da fala das ruas. Repetições, gírias, frases recheadas de elipses e interrupções, vale tudo para alcançar uma ‘naturalidade’ nos diálogos, um ritmo próximo ao de uma conversação. É uma aposta arriscada, que pode empobrecer o discurso construído, ou dificultar o entendimento do leitor, mas o autor evita essas armadilhas muito bem.

Num outro aspecto, temos as legendas, que habitualmente nos quadrinhos contemporâneos trazem a voz do narrador. Em Tungstênio, esse narrador não propriamente conduz ou apresenta os fatos, ele se instala na cabeça dos personagens, conversa com eles – e, muitas vezes, torna-se os personagens, assume a voz deles, fazendo com seja difícil para o leitor saber ao certo quem está presente naquele momento. Essa ‘polifonia’, como dizia Bakhtin, não é uma alquimia simples, apesar de Quintanilha nos fazer achar que sim.
Como disse um certo autor (cujo nome não vou lembrar), não existem histórias ruins, existem escritores ruins (ou algo parecido). Marcello Quintanilha, definitivamente, não é um escritor ruim.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

magic and loss

“When the going gets weird, the weird turn pro.” – Hunter S. Thompson


A essa altura do championship você já deve saber que Lou Reed morreu. Caput. Finito. E se nem imagina quem diabos é Lou Reed, o que diabos estará fazendo aqui? Com todo mundo falando sobre a importância do cara para a história do rock’n’roll, sobrou muito pouco a dizer. Então, vou escrever sobre o que Reed representou para mim (afinal, este é meu blog, ora bolas, e tudo aqui gira em torno de meu umbigo).

As influências más dos signos do zodíaco me levaram a crer que, mesmo morando em Natal, uma ilha ensolarada cercada por bandas de forró e axé por todos os lados, o grande lance era curtir um rockzinho antigo.

Sou uma cria do começo dos anos 90 – aqueles primeiros anos de adolescência que meio que definem como a criatura será pelas próximas décadas, até que alguma epifania ou morte súbita altere os rumos do cosmos... Então, nada de música alegrinha (tá bom, tinha o Out of Time do REM com o chicletinho do Shine Happy People, mas logo depois, acho que para compensar, os caras lançaram Automatic for The People). O álbum da minha geração foi o Nevermind, daí você tira o climão qual era...

Modos que descobrir Velvet Underground e Lou Reed foi como desenterrar o Australopithecus que dava sentido à cadeia evolutiva que vinha desde o Joy Division até, sei lá, Belle & Sebastian.

Lia uma Veja (era um lobisomem reacionário), quando me chamou atenção uma matéria sobre o lançamento do disco último disco de uma lenda do rock que eu mal conhecia. O cara era Lou Reed e o disco, Magic and Loss. A obra inteira falava sobre a morte de dois amigos, um dos quais, o compositor Doc Pomus, encarou um câncer bem barra e teve aquela morte lenta e melancólica que às vezes acompanha quem dançou numa dessas. Mas, pô, eu tinha o quê?, 13 anos, a morte era algo distante e sem sentido (hoje é só sem sentido) e mais distante ainda era a chance de encontrar esse disco em alguma loja daqui de Natal e ter dinheiro para tal empreitada.

No ano seguinte, já estudando na ETFRN, conheci um cara chamado Renzo Torrecuso (que na época era Terraguzo, mas explicar essa falsidade ideológica é uma longa história). Renzo é filho de Madê Weiner, artista plástica, boa-praça, que não tinha problema em emprestar as fitas-cassete originais (que nem disco e CD, com encarte e tudo; existiu isso, juro). E sabe quais ela me passou (parece que trouxe de Londres), na boa? O Magic and Loss e Walk on the Wild Side – The Best of Lou Reed.

Alguns meses depois, conheci uns caras esquisitões, Everton Dantas e Aristeu Araújo, com uns papos sobre música, poesia, e outras coisas estranhas. Só dei trela quando Arista sacou um cassete (sempre eles!) com o disco The Velvet Underground & Nico, o primeirão. Cascaviando os vinis de meu pai, que aos poucos ele abandonava num projeto suicida de trocar tudo por CDs, findei achando uma pequena obra-prima, para muitos a últimas do homem, o álbum New York.

Quer dizer, em menos de um ano, eu passara de um completo idiota desinformado, para um completo idiota que sacava uma coisa ou duas. E, cara, afirmo sem medo: esses discos mudaram minha vida. Se foi para melhor ou pior, foda-se.

Agora, os discos.

Vindo de lá pra cá, The Velvet Underground & Nico era uma pedrada no quengo, só parecida com a que recebi ao ouvir a Divina Comédia ou Ando meio Desligado pela primeira vez. Cada faixa é um clássico, difícil dizer a melhor. Tinha ali uma química entre a poética do Reed, um lance urbano, meio Jim Carroll e Bob Dylan, sua concepção pré-punk da música (“três acordes e já estamos perto demais do jazz”, ou algo assim, ele disse), com o experimentalismo avant-garde de John Cale e a voz estranhamente gélida e cálida de Nico.



Olha a capinha vagal
O The Best, por sua vez, é meio cafajeste. Quer dizer, Reed tinha saído da gravadora RCA, num fim de relacionamento que acabou rendendo o revolucionário e inaudível Metal Machine Music, e os caras, para aproveitar a raspa do tacho, lançaram esse The Best, reunindo o melhor que Reed havia lançado até 77. Ou seja: pra um ouvinte de hoje, faltam aí uns 35 anos de carreira. Mas a seleção é um primor. Estão representados os álbuns solos (fundamentais) Lou Reed, Berlin, Transformer, Sally Can’t Dance e Rock’n’Roll Animal e umas pérolas como Coney Island Baby e o ladão-B Nowhere at all. Em suma, as faixas nas quais o cara definiu seu papel na história do rock após o fim do Velvet (como se fosse pouco).

New York, de 1989, foi uma despedida em alto estilo numa década meio negra pr’essa galera que veio dos anos 60/70. Reed não foi exceção. Depois de umas patinadas feias, o disco, uma ode à cidade onde nasceu, viveu e morreu, é a coisa-mais-linda-desse-mundo-de-deus. Tá tudo ali: o rock básico e bem executado, a pegada dylanesca, as letras em formato de crônicas urbanas.


E, por fim, o Magic and Loss. Um disco triste, pesado, profundo e qualquer outro adjetivo fúnebre e macambúzio que você conseguir evocar. Mas, também, um disco que fala sobre a vida – até porque faz parte. É como se fosse uma missa para quem partiu. Cada música tem um subtítulo sobre o ‘estado de espírito’, ou o mistério da via-crúcis que ele – e o defunto – passaram. Começa com a doença; o sofrimento numa cama de hospital; a desesperança com o tratamento; a morte; cremação; a missa; enterro; o luto; negação; a superação. Todos os passos, dolorosamente cantados.

É o disco perfeito pra entender que Reed já tava de boa com a vida – e com a morte. Daí que não dá pra ficar com peninha porque o bicho morreu. Foram 71 anos. Tá de bom tamanho até pra quem é vegetariano e faz pilates, imagina pro Reed.

Ouvindo What’s good, tá logo no refrão:

What's good?
(Life's good)
But not fair at all


Já em Power and Glory, ele começa com metáforas bíblicas até descer ao mundano e doloroso:

I was visited by the power and the glory
I was visited by a majestic hymn
Great bolts of lightning lighting up the sky
electricity flowing through my veins

E então:

I saw a great man turn into a little child
the cancer reduce him to dust
His voice growing weak as he fought for his life
with a bravery few men know

I saw isotopes introduced into his lungs
trying to stop the cancerous spread
And it made me think of "Leda And The Swan"
and gold being made from lead

Só pra Little Jimmy Scott soltar, em sua voz andrógina:

(I wanted all of it, all of it, all of it)
All of it
(Not just some of it, all of it, all of it)
All of it


A narrativa da morte de Pomus/Rita em Magician é um belo momento da poética de Reed:

Doctor you're no magician
and I am no believer
I need more than faith can give me now

I want to believe in miracles
not just belief in numbers
I need some magic to take me away

I want some magic to sweep me away
I want some magic to sweep me away
Visit on this starlit night
replace the stars the moon the light, the sun's gone
Fly me through this storm
and wake up in the calm


É interessante notar como Reed mistura imagens eruditas e a vida prosaica nova-iorquina, uma marca de suas letras. Como em Sword of Damocles:

Now I have seen lots of people die
from car crashes or drugs
Last night on 33rd st.
I saw a kid get hit by a bus
But this drawn out torture over which part of you lives
is very hard to take
To cure you they must kill you
the Sword of Damocles above your head



Sem falar que poucos discos podem encerrar-se com uma música como Magic and Loss - The Summation, dizendo algo como:

They say no one person can do it all
but you want to in your head
But you can't be Shakespeare and you can't be Joyce
so what is left instead


 p.s.: Muitos anos depois, entrei numas de comprar vinis, mas nunca tive uma radiola. Um deles foi o Songs for Drella, que passei adiante num jogo com Alexis Peixoto que envolveu também um Kick Out the Jams, do MC5. Não repitam isso em casa, crianças.

Songs for Drella mostra que a parceria de Cale e Reed envelheceu como uísque em barril de carvalho. Os dois cantando em memória de Andy Warhol é de lascar o cano.


p.s.2: A citação do Thompson não é só pra vocês pensarem que eu sou um maluco que encaixa o Doutor em tudo que faço. Ele fez na literatura o que Reed mostrou em suas canções: não existiu porra de paz e amor. Tava todo mundo doidão de ácido pra sacar isso.

p.s.3: Gosto de Lulu. Fodam-se as disposições em contrário.


p.s.4: Muita gente de mais tarimba falou sobre a trajetória de Reed no rock. Recomendo a leitura dos artigos do Forastieri, do Barcinsky, do Braulio Tavares e do Alexandre Honório (pra ficar na brodagem).

p.s.5: Qualquer dia desses conto a história de minha primeira (e única) audição de Metal Machine Music. Mas vocês só podem divulgar depois que eu e meus descendentes estivermos mortos, enterrados e esquecidos. A pessoa mais indicada no mundo para tentar explicar este álbum para você chama-se Lester Bangs.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma descrição de Melville

Goneril era jovem, graciosa e ereta - aliás, ereta demais para uma mulher; a pele era naturalmente rosada e seria encantadora se não fosse por uma certa qualidade rígida e crestada, como cerâmica levada ao forno e esmaltada. Os cabelos eram de um castanho escuro e brilhante, mas usados em cachos curtos envolvendo a cabeça. A conformação de seu corpo de índia não deixava de ter efeitos prejudiciais no busto, ao passo que a boca seria bonita se não fosse por indícios de um bigode. No total, sua aparência, auxiliada pelos recursos da toalete, era tal que a distância alguém poderia achá-la bem bonita, embora num estilo de beleza algo árido e peculiar.


O Vigarista: Seus Truques, p. 67

***

Melville é um dos meus autores prediletos. Moby Dick e Bartleby estão no meu top 10 de melhores textos em prosa já lidos - e Billy Budd fica ali numa primeira suplência da lista. Mas esse livro acima, que adquiri de meu amigo Astier Basílio, é uma das obras mais esquisitas que encarei até agora. Um barco desce o Mississipi. Nele, uma extensa fauna humana sobe e desce nas cidades ribeirinhas e, entre eles, os mais diferentes tipos de vigaristas (no original, confidence men) que se revezam de golpe em golpe a extrair quaisquer quantias possíveis dos mais incautos. Tudo no texto é regido pela desfaçatez, pela ironia, pela dissimulação. 

Esse trecho acima foi, para mim, exemplar. Um dos trapaceiros conta uma história sobre outro personagem do navio. E decide nomear a esposa dele como a vilã shakespeariana. Na primeira frase, uma sucinta descrição da personagem a define  como um clichê romântico "era jovem, graciosa e ereta", para em seguida desconstruir totalmente essa imagem, entregando-nos uma personagem que, destes atributos não parece ter muita coisa. E assim se comporta o livro inteiro. Pelo menos até a altura desta leitura.