quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dimenor

Era uma vez um garoto. Seu nome era Francisco. Francisco Bento. Mas todo mundo na bocada só o conhecia por Chico. Ele era famoso por bater carteiras no Centro. Também tinha um fraco por relógios e pulseiras. Até que um dia, por descuido, se deixou encurralar por uma pequena multidão. Chico apanhou muito antes que a polícia chegasse para levá-lo.

- Idade?

- Tô com 17.

- Tem vergonha na cara não, moleque?

- Tenho não, sinhô. Tenho fome.

***

Era uma vez uma garota. Seu nome era Mafalda. Após assaltar uma farmácia em Nova Parnamirim, ela, que fugia a pé, foi logo alcançada pelos policiais. Quando viu as armas apontadas em sua direção, nem pensou em puxar o 38 que trazia consigo.

- Idade?

- 14.

- E isso aqui no seu ombro, é uma cicatriz?

- É, sim, senhor.

- Foi o quê?

- É marca de bala, senhor.

- Bala perdida?

- Não. Bala achada mesmo.

***

Era uma vez três garotos. Huguinho, Zezinho e Luizinho tocavam o terror na Ocidental de Baixo. O primeiro tinha 15 anos, os outros, 14. Só andavam juntos e pareciam até ser da mesma família. Naquele quarteirão,  ninguém podia vender bagulho. Só eles. Quando a polícia estourou a boca, Luizinho levou um tirambaço na cara e por ali mesmo ficou. Os outros dois foram algemados na mala do camburão.

- Eu te disse que crack era coisa de otário, num disse?

- É, mas eu curto.

- Senhor, diz pra ele: crack não é coisa de otário?

- É sim, moleque.

- Tá vendo? Eu disse a tu: o negócio é cheirar pó, mané.

***

Era uma vez um garoto. Era uma vez uma garota.

Era uma vez.

Era uma vez.

Era uma vez.