quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

waits


alguém?

Bom, o ano acabou, mas ainda tenho que entregar um conto de encomenda. Para tanto, preciso de uns 3 amigos que possam servir de beta readers, para avaliar o danado.

Quem for íntimo o suficiente deve ter aí meu e-mail na sua lista de contatos. Entra em contato que envio nesse fim de semana.

Desde já, agradeço.

robertovski


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Falsa croniqueta para disfarçar a angústia


Bêbado só faz merda.

A noite seguia animada em volta da mesa de bilhar. Os tacos pareciam guiar os jogadores ao redor do jogo – e não o contrário. Sobre a mesa, pratos engordurados com restos de macaxeira e a graxa do bode dividiam espaço com o cinzeiro quase tão grande quanto um prato, lotado de bitucas de cigarro. A única coisa meticulosamente organizada no recinto eram as filas de garrafas vazias encostadas na parede.

Conversaram sobre tudo e mais um pouco: o último filme que tinham visto, umas fofocas sobre os amigos, um livro que falava sobre a Ribeira de antigamente, a incrível atração que todo adolescente metido a doidão tem pelo The Doors, lugares para visitar em viagens que nunca fariam. Envolvidos pelo papo, nem notaram quando o Cadu foi embora sem deixar nem um puto para a conta, ou quando a Nina e o Gilberto escaparam para dar uma no banheiro e quase foram tocados para fora do bar pelo garçom.

Da conversa passaram aos beijos como se fosse a etapa mais natural a ser cumprida. Ele sentia prazer em passar a mão sobre o joelho dela enquanto aspirava o perfume de seu cangote. Ela gostava de abraçá-lo pelas costas, alisando seu peito, a cada vez que ele se virava para pegar uma cerveja.

À medida que avançava a madrugada, diminuía o número de carros em alta velocidade avistados pela janela do primeiro andar onde ficava a espelunca. O número de mesas ocupadas, entretanto, crescia lentamente, com os demais bares da cidade encerrando a jornada. O álcool já batia pesado nas mentes, nas pestanas e nas línguas de todos, embargando palavras, interrompendo sentenças, promovendo cochilos.

Por volta das três da manhã, um velho disco do Pink Floyd tocava uma canção sobre duas almas perdidas num aquário. Ele virou-se rapidamente para os lados, para conferir se tinha mais alguém prestando atenção, fitou os olhos pontiagudos dela e disparou: ‘Te amo’. Ela continuou mirando-o com aqueles olhos capazes de afundar um transatlântico e sorriu.

Ele se levantou para pegar mais uma cerveja no balcão. Quando voltou, ela não estava mais lá. Tinha partido rumo ao primeiro ônibus da manhã ou a um táxi. O que passasse primeiro.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Raul Seixas: o início, o fim, o meio


Raul é Elvis. Raul é Cash. Raul é Plant. Raul é Garcia. Raul é Roberto & Erasmo. Raul é Pop. Raul é Lennon. Raul é Dylan. Raul é Lee Lewis. Raul é Richard. Raul é Allin. Raul é Reed.

Raul é foda.

***

O filme começa com Braulio Tavares recitando aqueles versos iniciais do Uivo de Allen Ginsberg: ‘Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura’. Depois, as motos de Fonda e Hopper em Easy Rider se confundem com o triciclo envenenado de um cover de Raul atravessando a caatinga nordestina.

Walter Carvalho, seu lindo.

Quer dizer: tem coisa mais Raul Seixas que isso? Porque, me perdoe a baianada do Tropicalismo, se teve alguém que praticou a antropofagia oswaldiana com propriedade, esse foi Raul. Inspirado no rock dos anos 50, Seixas construiu uma versão brasileiríssima e original do ritmo, primeiro com uma banda de jovem guarda, Raulzito e Seus Panteras, e depois numa carreira solo cujo sucesso inexplicável, aos olhos das gravadoras, forçou os caras da majors a terem de aturá-lo.

Ele surge depois, na película, durante um show nos anos 70, já como a persona que hipnotizou multidões, magro, cabeludo, a barbicha característica, alucinado, rabiscando o símbolo da sociedade alternativa no ventre, numa sequência que, pela fotografia e cenário, poderia muito bem ter sido documentada por D. A. Pennebaker. Eis o mito.

***

Haveria mais alguma coisa por baixo disso? Talvez sim, talvez não. Raul teve uma vida breve e intensa, mas muito desse tempo pareceu ter sido voltado para o cultivo de sua persona artística. Assim, mesmo que apareçam trocentas pessoas no filme falando sobre ele (e estão lá todos que tinham algo de relevante a dizer: familiares, amigos, parceiros de trabalho, fãs, colegas de infância) não dá para separar o Raul do palco do de verdade, se é que este último existia.

Carvalho parece entender bem isso ao refazer a trajetória do músico. Da infância ao fim melancólico à base de vodka e outras biritas, fica evidente que todos os passos de Raul o guiaram, conscientemente ou não, ao mundo da fama. Foi sua glória e ruína.

***

A contracultura dos anos 60/70 foi um fenômeno de massa. Raul entendeu isso como poucos e, a exemplo dos beatniks norte-americanos, soube usar a televisão como plataforma visual pra sua música.

Daí a riqueza de registros que rendeu, somados a quase uma centena de entrevistas, as mais de 400 horas de material que serviram como base para o filme. É na edição desse material que Walter Carvalho mostra sua maturidade como realizador – e coloca no chinelo seu irmão mais velho, Vladimir, sempre tido como o documentarista da família. A maneira como a vida pessoal de Raul se alterna com sua trajetória artística até ficarem indissociáveis à medida que o filme avança prova isso.

Outros exemplos da criatividade de Carvalho são a já citada sequência inicial, a fortuita intromissão de uma mosca durante a entrevista com o mago-chato Paulo Coelho, a briga de galos na troca da parceria com o bruxo pelo Cláudio Roberto, o envolvimento de Raul com Sociedade Alternativa e o misticismo. Um filme para ser revisto como dever de casa.

***

Essa onda do Raul me encheu a cabeça com aquele papo de Nietzsche sobre a estetização da vida. Ainda bem que Edônio e Clara, que estavam comigo na sessão, tiveram a mesma impressão. Raul Seixas não construiu uma obra: sua própria vida era arte. Cláudio Roberto fala, no filme, que o ser humano não precisa demais nada além de comer e sonhar.

Raul levou isso até as derradeiras conseqüências. Diabético, alcoólatra, inchado e permanentemente bêbado, em seu último ano de vida fez nada menos que 50 shows ao lado de Marcelo Nova, praticamente um por semana, mesmo sem as mínimas condições físicas para isso. Subiu ao palco seis dias antes de morrer.

A primeira vez que vi Raul Seixas foi em 89, pela tevê, quando ele e Nova se apresentaram no Faustão, que precisou interromper a apresentação no meio quando sacou que ele nem conseguia falar direito. Tinha 10 anos quando ele morreu, por isso não cheguei a curtir nenhum show dele ao vivo. Mas as imagens e os depoimentos sobre seus últimos dias me lembraram instantaneamente duas experiências marcantes, com outros dois artistas excepcionais: Itamar Assumpção e Lula Côrtes.

Curiosamente, vi esses dois se apresentarem no ano em que morreriam, ambos por câncer. Assumpção, em Natal, na última canção rolou no palco abraçado ao microfone numa interpretação tragicômica de uma canção que não lembro qual era. Côrtes, acompanhado pelos jovens da banda Má Companhia, chutou o pau da barraca em João Pessoa na maior demonstração de espírito rocker movido a uísque caubói que já presenciei.

Como eles, Raul Seixas preferiu queimar a vela até o final do pavio.

***

Há uma questão relativa à identidade que o filme raspa rapidamente, mas que por si só daria outro documentário.

Não há como negar que Raul Seixas foi um artista originalíssimo, que construiu uma estrada vicinal na música brasileira trilhada por muitos poucos. Além disso, havia toda uma imagem meticulosamente trabalhada que o tornou inconfundível – mas não inimitável.

Sim, porque se tem um pau que mais existe no mundo é o de fãs que não se contentam em cultuar as músicas e as idéias de Raul Seixas (eu, por exemplo, sou um deles), mas que precisam, também, ser o próprio Raul Seixas, se vestir como ele, assumir a persona do 'maluco beleza'.

No filme, surgem imagens da Marcha Anual para Raul Seixas, me parece que em São Paulo, e é, sem tirar nem pôr, uma versão vitaminada do Tributo a Raul Seixas promovido há 2 décadas por Erinho Seixas lá em Ceará-Mirim. Estão lá as boinas de Che, as jaquetas de couro, as garrafas de vinho barato e os centenas de Rauls imiscuídos na multidão.

Uma contradição interessante de ser investigada.

***

Raul não devia ter existido. Seu sucesso não devia ter durado. Seu legado deveria ter sido esquecido. Ainda assim, nem o DDT conseguiu exterminá-lo.

­Raul é foda.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bandido bom


Mate um ministro. Pode ser da Previdência.
Mate a senhorinha que joga papel na via pública.
Mate um empresário fraudador do Sistema Único de Saúde.
Mate um motorista bêbado. Se for menor de idade, melhor.
Mate um ex-governador. Ou uma ex-governadora.
Mate um parente lobbysta.
Mate um deputado federal.
Mate um jornalista. E um dono de jornal. Aliás, comece por este último.
Mate um médico que vende cirurgias no hospital público.
Mate um juiz negociador de sentenças.
Mate um vereador. De preferência antes da revisão do Plano Diretor.
Mate um ministro do Supremo.
Mate um viado. Qualquer um.
Mate um motorista de ônibus que recusou parada a um idoso.
Mate um policial que pede o 'do café' numa blitz.
Organize uma filinha e fuzile uma família oligarca centenária. Não deixe um.
Mate um lojista sonegador de impostos.
Mate uma prefeita ligada às causas ambientais.
Mate um prefeito ligado à causa própria.
Mate um industrial que frauda o banco de horas extras dos funcionários.
Mate um desembargador. De preferência, presidente do Tribunal de Justiça.
Mate um dono de posto de gasolina.
Mate um jovem que exibe seu paredão de som na orla.
Mate o maconheiro, o traficante, seu cachorro, a mulher e o amante.
Mate aquele cara do contrato para o transporte escolar na zona rural.
Mate um aspone pego na BR com a mala cheia de grana.
Mate uma dondoca estacionada em fila dupla na Afonso Pena.
Mate um promotor que reclama da alta dos combustíveis, assim que ele descer da Hilux.
Mate um engenheiro que assina o projeto sem ler.
Mate um perito da companhia de seguros.
Mate qualquer advogado aparentando boa índole. L e n t a m e n t e.
Mate, um a um, os integrantes da comissão de licitação.
E aquele ali, um poeta?
Acerte bem no meio da testa.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

horácio costa

Achei covardia reproduzir apenas o prólogo de Saramago ao livro de Horácio Costa e não dar nenhuma palhinha do poema que motivou o texto. Um poema, digamos, à altura de sua apresentação. 'O menino e o travesseiro' traz um texto só, meio narrativo, meio contemplativo - e denso por inteiro. Não é um poema muito extenso, mas dá para destacar uns trechos sem o prejuízo do todo.

***

No trânsito entre nome e objeto,
vivendo sua imprecisão,
a coisa é sempre única:
inaugural, fora da língua,
trapiche que invade a noite,
a sensação persiste em sua unicidade.
Não se move, sequer os olhos,
o menino que à paisagem só desfruta
e por completo a pode habitar.

***

Em nossa infância da percepção,
colamos sentidos como antefaces
ao que não tem sentido;
se nos seduz o inevitável,
percorremos mundo sem pensar nos pés:
vive o caminho o homem
e nas praias todas mergulha,
está sem estar no páramo
cuja acolhida estima
e a morte quando vier
encontrá-lo irá a algum lugar.

***

O caminho de ida
nunca é igual se o repetimos;
quando o fazemos, sem dar-nos conta
erguemos o intermitente véu
que cobre a efígie da velhice
e antes é o pânico à repetição
que o desafio da vez primeira
o que alimenta com suas enzimas
a magra dieta da gregariedade,
mesmo que privemos com os espinhos
ou que um pregador nos ameace
com zelo excessivo e dedo em riste;
por isso, e só por isso, Bartolomeu
o mar não voltou mais a ver
e retém as pálpebras fechadas
as cores que bordam a Serra:
as epífitas, as bromeliáceas,
as suculentas, os verdes vários,
os musgos, as samambaias
que alfombram os monolitos
por onde escorrem as cascatas
e suam as nuvens.

***

Agora, o melhor de tudo (ao menos, para mim): comprei esse livro numa queima no Hiper Bompreço, por R$ 6,90. Show de bola.

saramago

"Abordar um texto poético, qualquer que seja o grau de profundidade ou amplitude da leitura, pressupõe, e ouso dizer que pressuporá sempre, certa incomodidade de espírito, como se uma consciência paralela observasse com ironia a inanidade relativa de um trabalho de desocultação que, estando obrigado a organizar, no complexo sistema capilar do poema, um itinerário contínuo e uma velocidade coerente, se obriga ao mesmo tempo a abandonar as mil e uma probabilidades oferecidas pelos outros itinerários, apesar de estar de antemão ciente de que só depois de os ter percorrido a todos, a esses e àquele que de facto escolheu, é que acederia ao significado último do texto, se o há, podendo suceder, por outro lado, que a leitura alegadamente totalizadora assim obtida viesse a servir, tão-somente, para impor portanto a necessidade de uma nova leitura. Todos carpimos a sorte de Sísifo, condenado a empurrar, pela montanha acima, uma sempiterna pedra que sempiternamente rolará para o vale, mas talvez o castigo do desafortunado homem seja saber que não virá a tocar, sequer, em uma só de quantas pedras, inúmeras, ao redor, esperam o esforço que as arrancaria à mobilidade.

"Não perguntamos ao sonhador por que está sonhando, não requeremos do pensador as razões do seu pensar, mas de um e outro quereríamos conhecer aonde os levaram, ou levaram eles, o sonho e o pensamento, aquela pequena constelação de brevidades a que costumamos chamar, por necessária, se bem que insatisfeita, comodidade, conclusões. Porém, ao poeta - sonho e pensamento reunidos - não se lhe há de exigir que nos venha explicar os motivos, desvendar os caminhos e assinalar os propósitos. O poeta, à medida que avança, apaga os rastros que foi deixando, cria atrás de si, entre os dois horizontes, um deserto, razão por que o leitor terá de traçar e abrir, no terreno assim alisado, uma rota sua, pessoal, que no entanto jamais se justaporá, jamais coincidirá com a do poeta, única e finalmente indevassável. Por sua vez, o poeta, tendo varrido os sinais que, durante um momento, marcaram não só o carreiro por onde veio, mas também as hesitações, as pausas, as medições da altura do sol, não saberia dizer-nos por que caminho chegou aonde agora se encontra, parado no meio do poema ou já no fim dele. Nem o leitor pode repetir o percurso do poeta, nem o poeta poderá reconstituir o percurso do poema: o leitor interrogará o poema feito, o poeta não pode senão renunciar a saber como o fez."

***

Esse é o trecho inicial do prólogo escrito por José Saramago para o poema 'O menino e o travesseiro', de Horácio Costa, publicado pela Geração Editorial. Achei tão totalmente demais que precisava compartilhá-lo aqui com vocês.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Musicartum

O cartunista, designer e a-porra-toda Brum, um dos figuras mais bacanas com quem já tive a oportunidade de trabalhar, criou um projeto interessantíssimo.

O Musicartum é, basicamente, uma ilustração baseada em uma canção. Mas o pulo do gato do Brum foi justamente gravar o making of da criação do desenho (pelo menos a parte digital da coisa) e encaixar o time lapse na duração da música que inspira o cartum.

Como além de não ser burro, ainda é esperto pra caramba, o sujeito abriu o projeto com uma música sensacional de Sá, Rodrix e Guarabira, o clássico 'Mestre Jonas'.

Brum avisou que vai imprimir os cartuns (formato 60cm x 45cm) e, quem quiser, pode encomendar a sua cópia. Eu, como acho Jonas um dos livros mais invocados das Escrituras (parede e meia com o de Jó) e sou fã de Moby Dick, já encomendei o meu.