terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma descrição de Melville

Goneril era jovem, graciosa e ereta - aliás, ereta demais para uma mulher; a pele era naturalmente rosada e seria encantadora se não fosse por uma certa qualidade rígida e crestada, como cerâmica levada ao forno e esmaltada. Os cabelos eram de um castanho escuro e brilhante, mas usados em cachos curtos envolvendo a cabeça. A conformação de seu corpo de índia não deixava de ter efeitos prejudiciais no busto, ao passo que a boca seria bonita se não fosse por indícios de um bigode. No total, sua aparência, auxiliada pelos recursos da toalete, era tal que a distância alguém poderia achá-la bem bonita, embora num estilo de beleza algo árido e peculiar.


O Vigarista: Seus Truques, p. 67

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Melville é um dos meus autores prediletos. Moby Dick e Bartleby estão no meu top 10 de melhores textos em prosa já lidos - e Billy Budd fica ali numa primeira suplência da lista. Mas esse livro acima, que adquiri de meu amigo Astier Basílio, é uma das obras mais esquisitas que encarei até agora. Um barco desce o Mississipi. Nele, uma extensa fauna humana sobe e desce nas cidades ribeirinhas e, entre eles, os mais diferentes tipos de vigaristas (no original, confidence men) que se revezam de golpe em golpe a extrair quaisquer quantias possíveis dos mais incautos. Tudo no texto é regido pela desfaçatez, pela ironia, pela dissimulação. 

Esse trecho acima foi, para mim, exemplar. Um dos trapaceiros conta uma história sobre outro personagem do navio. E decide nomear a esposa dele como a vilã shakespeariana. Na primeira frase, uma sucinta descrição da personagem a define  como um clichê romântico "era jovem, graciosa e ereta", para em seguida desconstruir totalmente essa imagem, entregando-nos uma personagem que, destes atributos não parece ter muita coisa. E assim se comporta o livro inteiro. Pelo menos até a altura desta leitura.