terça-feira, 8 de novembro de 2011

o tempo e as HQs

O grande desafio no semestre passado foi 'descartesianizar' o pensamento para mergulhar nas teorias do cotidiano pelo trampolim da fenomenologia. A cada aula do professor Wellington Pereira, tinha a impressão que alguém da turma ia surtar (se bem que Alessandro, meu colega anarco-marxista-bakhtiniano, chegou bem pertinho) à medida que a gente ia se aproximando da tal pós-modernidade.

(De minha parte, como o 'caractere' pós-moderno do cyberpunk era ponto passivo entre as fontes, tava tudo tranquilo.)

Uma das leituras bacanas foi a de Bachelard. Moacy Cirne já havia despertado minha atenção para a obra desse pensador derna a época de 'Quadrinhos: Sedução e Paixão' (para mim, disparado, o melhor livro do mestre).

Como exercício, fiz esse pequenino ensaio a partir de algumas ideias presentes no capítulo de abertura de 'A Intuição do Instante'. Obviamente, apoiado sobre os ombros de Cirne.


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O instante bachelardiano e os quadrinhos

Para se entender o instante, ‘unidade ontológica’ de percepção do tempo proposta pelo historiador francês Gaston Roupnel e desenvolvida filosoficamente por Gaston Bachelard em A intuição do Instante, pode-se utilizar a metáfora dos quadrinhos e sua linguagem.
No primeiro capítulo da obra, Bachelard busca conceituar o instante e o contrapõe ao conceito de duração desenvolvido por Henri Bergson. A duração, em Bergson, pressupõe um tempo absoluto, um todo, cuja natureza seria definida pela duração – um sentido de permanência do passado, no qual o instante seria uma espécie de cristalização ou ápice da duração, “um corte artificial que ajuda o pensamento do geômetra”, nas palavras de Bachelard. Nesse sentido, passado e futuro compõem uma única forma, um bloco no qual o presente seria dado pela ação da inteligência sobre a vida.
Bachelard propõe inverter a lógica bergsoniana e defende que a unidade primordial do tempo é o instante, sendo a duração uma soma destes: “a duração é feita de instantes sem duração, como a reta é feita de pontos sem dimensão”. Neste sentido, o tempo é descontínuo e sua duração é uma construção da memória a partir de instantes significativos.
A sensação de duração que temos, ao contrário de figurar como uma prova sensível e intuitiva da realidade da duração, se dá porque entre os instantes significativos, ou atos conscientes de ruptura, nos deparamos com uma infinidade de instantes vazios de significados, nulos – essa nulidade, esses ‘encadeamentos de nada’, constituem a natureza da duração sensível.
Assim, Bachelard propõe enquadrar o pensamento de Bergson como uma filosofia da ação (que se estende no tempo, mas na qual seria impossível definir seu ponto de partida ou final); enquanto o pensamento de Roupnel seria uma filosofia do ato (marcado pela irrupção do instante na descontinuidade temporal).
Uma maneira de visualizar esse conceito bachelardiano pode ser pela metáfora do quadrinho. Ao desenhar uma história em quadrinhos, o artista se propõe a cristalizar, no interior do requadro [1], um momento-chave da narrativa, rico em expressividade e em significado, mas ‘congelado’ no tempo. A continuidade narrativa é garantida pelo encadeamento entre os quadros, no qual o quadro seguinte cristaliza outra situação posterior no tempo.
O corte gráfico [2] é, nos quadrinhos, um espaço de significação reservado ao leitor. Ao vermos um quadro colocado ao lado de outro, seguindo o sentido de leitura a que estamos habituados, conferimos continuidade a eles, e completamos, na imaginação, os fatos ocorridos entre o momento anterior e o seguinte.
O que o desenhista faz, então, ao criar o requadro e seu conteúdo, é capturar o instante significativo, o momento de expressividade ideal, o ato de ruptura que impulsiona a narrativa, tal como propõe Bachelard. Por sua vez, o corte gráfico representaria o encadeamento de instantes nulos, que produzem a falsa sensação de duração.
Ampliando essa relação, temos na página da revista, em seu conjunto de quadrinhos, a representação de uma duração bachelardiana – ou seja a reunião de instantes transgressores que compõem a memória do passado irremediavelmente destruído.
Transpondo a metáfora para o conceito de tempo em Bergson, chegamos a um quadrinho improvável, mas desafiador de ser imaginado, no qual a página seria uma mancha gráfica contínua, sem requadros e cortes gráficos, em que os personagens escorreriam por situações e cenários encadeados indistintamente. Porém, como representá-los em seu antes e depois narrativo, uma vez que o traço deveria dar conta dos deslocamentos espácio-temporais dos personagens numa cinemática que não contemplaria sucessão de posições, mas continuidade?



[1] A borda do quadrinho
[2] O espaço em branco, a hachura existente entre um quadro e outro numa HQ.

Um comentário:

MARCELO SOARES disse...

Interessante visão sobre o tempo nos quadrinhos.