domingo, 18 de dezembro de 2011

Raul Seixas: o início, o fim, o meio


Raul é Elvis. Raul é Cash. Raul é Plant. Raul é Garcia. Raul é Roberto & Erasmo. Raul é Pop. Raul é Lennon. Raul é Dylan. Raul é Lee Lewis. Raul é Richard. Raul é Allin. Raul é Reed.

Raul é foda.

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O filme começa com Braulio Tavares recitando aqueles versos iniciais do Uivo de Allen Ginsberg: ‘Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura’. Depois, as motos de Fonda e Hopper em Easy Rider se confundem com o triciclo envenenado de um cover de Raul atravessando a caatinga nordestina.

Walter Carvalho, seu lindo.

Quer dizer: tem coisa mais Raul Seixas que isso? Porque, me perdoe a baianada do Tropicalismo, se teve alguém que praticou a antropofagia oswaldiana com propriedade, esse foi Raul. Inspirado no rock dos anos 50, Seixas construiu uma versão brasileiríssima e original do ritmo, primeiro com uma banda de jovem guarda, Raulzito e Seus Panteras, e depois numa carreira solo cujo sucesso inexplicável, aos olhos das gravadoras, forçou os caras da majors a terem de aturá-lo.

Ele surge depois, na película, durante um show nos anos 70, já como a persona que hipnotizou multidões, magro, cabeludo, a barbicha característica, alucinado, rabiscando o símbolo da sociedade alternativa no ventre, numa sequência que, pela fotografia e cenário, poderia muito bem ter sido documentada por D. A. Pennebaker. Eis o mito.

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Haveria mais alguma coisa por baixo disso? Talvez sim, talvez não. Raul teve uma vida breve e intensa, mas muito desse tempo pareceu ter sido voltado para o cultivo de sua persona artística. Assim, mesmo que apareçam trocentas pessoas no filme falando sobre ele (e estão lá todos que tinham algo de relevante a dizer: familiares, amigos, parceiros de trabalho, fãs, colegas de infância) não dá para separar o Raul do palco do de verdade, se é que este último existia.

Carvalho parece entender bem isso ao refazer a trajetória do músico. Da infância ao fim melancólico à base de vodka e outras biritas, fica evidente que todos os passos de Raul o guiaram, conscientemente ou não, ao mundo da fama. Foi sua glória e ruína.

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A contracultura dos anos 60/70 foi um fenômeno de massa. Raul entendeu isso como poucos e, a exemplo dos beatniks norte-americanos, soube usar a televisão como plataforma visual pra sua música.

Daí a riqueza de registros que rendeu, somados a quase uma centena de entrevistas, as mais de 400 horas de material que serviram como base para o filme. É na edição desse material que Walter Carvalho mostra sua maturidade como realizador – e coloca no chinelo seu irmão mais velho, Vladimir, sempre tido como o documentarista da família. A maneira como a vida pessoal de Raul se alterna com sua trajetória artística até ficarem indissociáveis à medida que o filme avança prova isso.

Outros exemplos da criatividade de Carvalho são a já citada sequência inicial, a fortuita intromissão de uma mosca durante a entrevista com o mago-chato Paulo Coelho, a briga de galos na troca da parceria com o bruxo pelo Cláudio Roberto, o envolvimento de Raul com Sociedade Alternativa e o misticismo. Um filme para ser revisto como dever de casa.

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Essa onda do Raul me encheu a cabeça com aquele papo de Nietzsche sobre a estetização da vida. Ainda bem que Edônio e Clara, que estavam comigo na sessão, tiveram a mesma impressão. Raul Seixas não construiu uma obra: sua própria vida era arte. Cláudio Roberto fala, no filme, que o ser humano não precisa demais nada além de comer e sonhar.

Raul levou isso até as derradeiras conseqüências. Diabético, alcoólatra, inchado e permanentemente bêbado, em seu último ano de vida fez nada menos que 50 shows ao lado de Marcelo Nova, praticamente um por semana, mesmo sem as mínimas condições físicas para isso. Subiu ao palco seis dias antes de morrer.

A primeira vez que vi Raul Seixas foi em 89, pela tevê, quando ele e Nova se apresentaram no Faustão, que precisou interromper a apresentação no meio quando sacou que ele nem conseguia falar direito. Tinha 10 anos quando ele morreu, por isso não cheguei a curtir nenhum show dele ao vivo. Mas as imagens e os depoimentos sobre seus últimos dias me lembraram instantaneamente duas experiências marcantes, com outros dois artistas excepcionais: Itamar Assumpção e Lula Côrtes.

Curiosamente, vi esses dois se apresentarem no ano em que morreriam, ambos por câncer. Assumpção, em Natal, na última canção rolou no palco abraçado ao microfone numa interpretação tragicômica de uma canção que não lembro qual era. Côrtes, acompanhado pelos jovens da banda Má Companhia, chutou o pau da barraca em João Pessoa na maior demonstração de espírito rocker movido a uísque caubói que já presenciei.

Como eles, Raul Seixas preferiu queimar a vela até o final do pavio.

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Há uma questão relativa à identidade que o filme raspa rapidamente, mas que por si só daria outro documentário.

Não há como negar que Raul Seixas foi um artista originalíssimo, que construiu uma estrada vicinal na música brasileira trilhada por muitos poucos. Além disso, havia toda uma imagem meticulosamente trabalhada que o tornou inconfundível – mas não inimitável.

Sim, porque se tem um pau que mais existe no mundo é o de fãs que não se contentam em cultuar as músicas e as idéias de Raul Seixas (eu, por exemplo, sou um deles), mas que precisam, também, ser o próprio Raul Seixas, se vestir como ele, assumir a persona do 'maluco beleza'.

No filme, surgem imagens da Marcha Anual para Raul Seixas, me parece que em São Paulo, e é, sem tirar nem pôr, uma versão vitaminada do Tributo a Raul Seixas promovido há 2 décadas por Erinho Seixas lá em Ceará-Mirim. Estão lá as boinas de Che, as jaquetas de couro, as garrafas de vinho barato e os centenas de Rauls imiscuídos na multidão.

Uma contradição interessante de ser investigada.

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Raul não devia ter existido. Seu sucesso não devia ter durado. Seu legado deveria ter sido esquecido. Ainda assim, nem o DDT conseguiu exterminá-lo.

­Raul é foda.


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