Matheson era aquele tipo de autor do qual se ouve mais falar do que se lê. Na verdade, me parece que hoje em dia esse é um tipo bem comum. Mas, para ser mais honesto com o cara, pode-se dizer que ele era um autor mais visto do que lido.
Como muitos dos seus necrológios frisaram, ele roteirizou o clássico ‘O Incrível Homem que Encolheu’, uma ficção científica com evidentes ecos swiftianos, que resgatava a clássica questão do ‘homem como medida do mundo’ numa sociedade assombrada pela Guerra Fria. Além disso, Matheson foi responsável pelo roteiro daqueles que até hoje são considerados alguns dos melhores episódios da antológica série Twilight Zone, veiculada no Brasil com o sensacional título de ‘Além da Imaginação’ – sem falar no episódio ‘O Inimigo Interior’, da primeira fase de Jornada nas Estrelas, tido por muitos como o ponto alto da série clássica.
Caso fosse brasileiro, antes mesmo de um gigante da ficção científica, Matheson certamente seria um estouro de vendas da literatura kardecista, cabeça a cabeça com Chico Xavier, devido a duas obras – posteriormente também transformadas em película – ‘Em Algum Lugar do Passado’ e ‘Amor Além da Vida’. Dois romances bem xaropes: o primeiro sobre viagem astral/temporal, estrelado pelo (melhor) Superman Christopher Reeve; o outro, uma espécie de refilmagem da novela ‘A Viagem’ com Robin Williams num rolé por diferentes planos astrais em busca da esposa suicida.
'Em Algum Lugar do Passado', aliás, foi um estouro de bilheteria da minha adolescência, a gente vivia passando na locadora e fazendo sessões lá em casa. Chororô garantido das menininhas.
Além destas, a história pela qual Matheson certamente será lembrado é ‘Eu Sou a Lenda’. Curiosamente, não vi nenhuma das três filmagens, nem a com Vincent Price, de 1964, a com Charlton Heston, de 1971, ou a com Will Smith, de 2007.
O sucesso de Matheson no cinema e na tevê ajudou o público brasileiro a ter acesso à obra escrita dele, uma vez que nosso mercado editorial sempre ofereceu pouco espaço para a ficção científica. Mesmo sendo um dos grandes nomes do gênero, por exemplo, poucas histórias além das levadas às telas nos chegaram impressas – e ainda assim, muitas edições estão fora das prateleiras há um bom tempo.
Por isso, qual não foi minha surpresa quando, numa viagem de trabalho a Mossoró, após uma rápida visita a um sebinho do centro e sob os efeitos de uma ressaca pantagruélica, encontrei um exemplar surrado de ‘Eu Sou a Lenda’, da coleção Mestres do Horror e da Fantasia, da editora Francisco Alves, lançado em 1981. Foi como entrar inadvertidamente na Atlântida, em Xangri-lá, ou em São Saruê, e dar de cara com o Graal, o Velocino de Ouro, a Lâmpada Mágica, a figurinha de Rivelino do álbum da Copa de 70.
‘Eu Sou a Lenda’ é daquelas histórias cuja reputação a precede. Publicado em 1954, o livro acompanha o cotidiano do cientista Robert Neville, um suposto último sobrevivente da raça humana num mundo devastado por uma praga que transforma todos os infectados em zumbis. Enquanto passa os dias rodando por uma metrópole abandonada em busca de equipamentos e víveres e matando as criaturas adormecidas que encontra, Neville passa noites de medo e suspense isolado em sua casa-bunker, cercado pelas criaturas despertas, que tentam destruí-lo.
Graças a uma elaborada estratégia de sobrevivência, retratada com minúcias por Matheson, ‘Eu Sou a Lenda’ dialoga assim com o Crusoe de Dafoe, ecoando num gênero tido como popularesco, a ficção científica, um romance fundador da modernidade. Tal qual o náufrago célebre, Neville busca, através de um individualismo estoico, reafirmar sua civilidade em meio ao caos e à selvageria.
Matheson com seus vampiros bestiais também lança as bases da metáfora do zumbi contemporâneo, a criatura-rebanho remotamente humana, reduzida às necessidades elementares (ou, na visão apurada e posterior de George Romero, ao consumo desenfreado simbolizado pelo canibalismo), que se tornou paradigma da cultura pop atual.
Por fim, ‘Eu Sou a Lenda’ é um dos primeiros textos a promover um fortuito encontro de dois gêneros ligados à ficção especulativa, o horror e a ficção científica, ao buscar encaixar uma causa racional para a epidemia, justificando ‘pseudocientificamente’ não apenas a infecção vampírica, como os ‘sintomas’ do mal, como a aversão a espelhos, alho, etc. Esse diálogo seria fundamental para oxigenar o gênero e anteceder expressões como o New Weird, surgido na década passada.
O final, anticlimático, bem diferente da patuscada promovida por Smith (não vi o filme, mas sei como termina) questiona, como qualquer grande obra que se preze, não apenas qual o lugar do homem no mundo, mas o que realmente é o homem e o que é o monstro, o outro, o desviante, quando se perde qualquer noção de semelhança e alteridade.
Quem sou eu
- Alex de Souza
- Jornalista e pesquisador de histórias em quadrinhos, dividido entre Natal e João Pessoa por tempo indeterminado.
6.26.2013
Quando Richard Matheson salvou minha vida
Jornalista e pesquisador de histórias em quadrinhos, dividido entre Natal e João Pessoa por tempo indeterminado.
1.23.2013
Dois zines
O fanzine não morreu, nem virou outro bicho – ele apenas vai ali, dá um tempo, e volta. E quando volta, que maravilha!
Por estes dias, num espaço de mais ou menos um mês, pude conferir o lançamento de dois zines que atestam a longevidade – e a vontade de viver – desse tipo de publicação. Antes só um aviso: vão rolar uns comentários a seguir bem no estilo street fighting man, sem compromissos. Para leituras mais cabeçudas sobre fanzines, recomendo você procurar o livro do Henrique, o do Edgard e o organizado pela Cellina.
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| Capa do zine "tr3sdoi2", editado pelo Alfredo Albuquerque |
Primeiro, os quadrinhos. Tão lá Guga Schultze e Lor, cada um com uma tirinha e um cartum. Lor tem uma pegada meio Laerte de sindicato – e, por favor, ser comparado ao Laerte não é demérito para ninguém. Já Schultze surpreende nos cartuns sobre Beatles e Luiz Gonzaga, com um traço grotesco e sujo deveras interessante. E tem ainda um artigo do Moebius sobre desenhos eróticos que dispensa comentários.
As poesias de Luciane Gasperis me chamaram pouca atenção, fora os versos finais de 'sincronicidade':
agora no meu campo de visão somente 16 bonecas
para serem decapitadas: uma a cada 30 minutos de
espera. é possível que sobrem algumas se tudo
correr bem. Que sorte.
Já a prosa está bem em campo com os contos 'muito lindo o carinha' de Letícia Palmeira e 'estranhos em terra estranha', de Alfredo Albuquerque.
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| Sintam o drama do apuro gráfico do "tr3sdoi2" |
O que chama a atenção na iniciativa de Albuquerque é que a tecnologias digitais não precisam necessariamente ser o inimigo vindo do estrangeiro que matou nosso amigo, o fanzine. O apuro técnico do Tr3sdoi2, com seu projetinho gráfico bem definido e agradável de ler e manusear, aponta como o computador pode quebrar aquele galho para quem quiser montar sua própria publicação – nesse caso, ajuda pra caralho manjar desse lance de design para impressos, como o Albuquerque mostra em seu trabalho. Aliás o diálogo com o mundo digital começa já na seleção dos textos. Um mamão lava a outra.
***
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| Capa do 'Com Carinho': simplesmente foda o detalhe do arame da encadernação |
Pelo menos é o que querem nos fazer crer Beto Leite e Ramon Ribeiro, filhotes desgarrados da revista Catorze com o zine Com Carinho, lançado durante a Virada Cultural Internacional da Rua Chile, no ano passado.
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| Projeto gráfico tosco-conceitual, na ida e na volta |
É um plano maquiavélico, explicitado na página de abertura:
“Você faz uma busca por rabiscos guardados em gavetas e cadernos velhos da faculdade. Você junta aquilo tudo. Faz uma bola de papel amassado. Perto da barata morta. A bola cai no chão. Você levanta chateado. Apanha aquela tralha. A barata. E com ela na palma da mão, o estalo. Aquela vontade de fazer um fanzine. A vontade que nunca some. Que vai e vem. Como os mendigos da rua, a prostituta da esquina e o urubu no céu. Que se aproxima e pousa na janela do quarto.”Mas essa vontade louca não é só tempestade e ímpeto: todo o desleixo, o papel meticulosamente amassado e rasgado a mão, os desenhos mal acabados de colorido borrado fazem de 'Com Carinho' um zine-conceito, cuja própria manufatura dialoga com sua proposta poética marginal, falsamente naïf.
Os textos, todos eles, levam a sério a intenção ‘visceral’ de seus autores: é no corpo que tudo se resolve, seja o sexo, a fome, a violência ou, quem sabe, o tédio aquilo que move os personagens.
Um achado.
Jornalista e pesquisador de histórias em quadrinhos, dividido entre Natal e João Pessoa por tempo indeterminado.
12.21.2012
lábias que beijei
Poema da boca
(inútil chamá-lo de outro nome
este será sempre o poema da boca)
para uma breve boca
o rascunho do desejo
rabisca a boca inacabada
a língua, trêmula, sonha
com outra língua, impossível
e essa tua boca tão próxima,
disponível
ah, inacessível boca
inexpugnáveis lábios
intransponíveis dentes
sólidas salivas
(tão pouca boca para tanto desejo)
o desejo, humilhado,
se dá por vencido
lábios ansiosos delimitam a carnificina
que se anuncia:
abertura inicial, orifício sem data, cavidade superior,
cabo das tormentas, escarpa lisa, istmo do panamá, ventos
elísios, terra do fogo, fenda úmida, caminhos para as índias,
cumes elevados, estreito de gibraltar, nascente pra dentro,
carne inútil, sombra furiosa, sulco erótico, secreção labial,
cratera rubra, rio sem margem, escavação lingüística,
passagem de nível, vulcão de vapores, rachadura cósmica,
buraco das araras, caverna mágica, península contrária,
geleira intransponível, curativo falante, nuvem de carnes,
abismo colossal, pico de luz, planta carnívora, furacão, vale
encharcado, vereda úmida, falha geológica na cordilheira da
face, falsa falésia, pétala carnuda, vulva superior
boca proibida, cara lambida,
poema destrambelhado, ladeira abaixo
(eu quero é me afogar nesse
pântano de cuspes)
tua boca me deve um beijo,
a boca ri, marota
a boca ri, safada
(o poema da boca se fecha em si mesmo)
***
esse poema é de nicolas behr, mas, na falta de um mimeógrafo, agora é da gente também.
Jornalista e pesquisador de histórias em quadrinhos, dividido entre Natal e João Pessoa por tempo indeterminado.
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