quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dimenor

Era uma vez um garoto. Seu nome era Francisco. Francisco Bento. Mas todo mundo na bocada só o conhecia por Chico. Ele era famoso por bater carteiras no Centro. Também tinha um fraco por relógios e pulseiras. Até que um dia, por descuido, se deixou encurralar por uma pequena multidão. Chico apanhou muito antes que a polícia chegasse para levá-lo.

- Idade?

- Tô com 17.

- Tem vergonha na cara não, moleque?

- Tenho não, sinhô. Tenho fome.

***

Era uma vez uma garota. Seu nome era Mafalda. Após assaltar uma farmácia em Nova Parnamirim, ela, que fugia a pé, foi logo alcançada pelos policiais. Quando viu as armas apontadas em sua direção, nem pensou em puxar o 38 que trazia consigo.

- Idade?

- 14.

- E isso aqui no seu ombro, é uma cicatriz?

- É, sim, senhor.

- Foi o quê?

- É marca de bala, senhor.

- Bala perdida?

- Não. Bala achada mesmo.

***

Era uma vez três garotos. Huguinho, Zezinho e Luizinho tocavam o terror na Ocidental de Baixo. O primeiro tinha 15 anos, os outros, 14. Só andavam juntos e pareciam até ser da mesma família. Naquele quarteirão,  ninguém podia vender bagulho. Só eles. Quando a polícia estourou a boca, Luizinho levou um tirambaço na cara e por ali mesmo ficou. Os outros dois foram algemados na mala do camburão.

- Eu te disse que crack era coisa de otário, num disse?

- É, mas eu curto.

- Senhor, diz pra ele: crack não é coisa de otário?

- É sim, moleque.

- Tá vendo? Eu disse a tu: o negócio é cheirar pó, mané.

***

Era uma vez um garoto. Era uma vez uma garota.

Era uma vez.

Era uma vez.

Era uma vez.

domingo, 27 de julho de 2014

Tungstênio

Ler ‘Tungstênio’, álbum do carioca Marcello Quintanilha, é receber uma senhora aula de narrativa para os quadrinhos, que só não é gratuita porque você precisa comprar o livro. Nas 184 páginas de história, acompanhamos uma ciranda frenética, que se espraia pelo espaço e pelo tempo, na qual se envolvem vários personagens durante uma simples ocorrência policial em Salvador, Bahia.

Durante um dia de sol na capital soteropolitana, um sargento reformado, seu Ney, e um pequeno traficante de drogas, Caju, flagram uma dupla usando explosivos para pescar, de olho na facilidade da manobra para conseguir o pescado. Pressionado por seu Ney, Caju é levado a chamar Richard, um policial do qual é informante, para dar um fim à atividade dos pescadores. Richard, por sua vez, é casado com Keira, mas o relacionamento deles está por um fio.

Basta esse fiapo de história, guiada por quatro pessoas comuns, envolvidas com os pequenos problemas cotidianos de cada um, para Quintanilha construir uma HQ envolvente, frenética, impossível de se largar a leitura.

Há de ressaltar que Quintanilha é tanto desenhista quanto roteirista de seus álbuns, dominando os dois ofícios como poucos. Artista versátil, como se pode ver ao comparar seus diferentes trabalhos, em ‘Tungstênio’ ele aposta num traço naturalista, rico em detalhes, com preenchimentos em tons de cinza, que se apoia num tracejado grosseiro para ressaltar volumes e sombras.

Além disso, a reprodução meticulosa do cenário arquitetônico de Salvador e o apuro na composição corporal e fisionômica dos personagens conferem uma tom realista que reforça a atmosfera de ‘vida real’ de suas histórias. Quintanilha não tem vergonha em explorar as possibilidades gráficas da linguagem dos quadrinhos: a expressividade das onomatopeias e dos balões se integra aos desenhos de tal forma que os sons em ‘Tungstênio’ são quase táteis. Um bom exemplo é quando os personagens discutem entre si, ou quando o autor retrata as explosões provocadas pelos pescadores.

Seus quadros não se conformam com as facilidades do plano médio, porém a variedade de enquadramentos dificilmente está ali para demonstrar algum virtuosismo: há uma relação direta com o ritmo e as necessidades da narrativa. Um dos vários momentos em que isso ocorre no álbum é no conflito entre Ney e Caju que provoca a entrada de Richard na história.

Aí, temos o Quintanilha roteirista: uma história aparentemente tão banal envolve pessoas cheias de motivações e dramas que uma expressão facial, um plano-detalhe, ajudam a revelar. Outra boa sacada é fragmentar o desenvolvimento da narrativa, mesclando passado, presente e futuro, tempo narrativo e tempo psicológico, para, aos poucos, ir desnudando o que move cada um dos personagens. A própria capa do álbum meio que já antecipa para o leitor o desenvolvimento simultâneo de várias tramas. A hesitação de Keira entre deixar o marido ou ir ao seu encontro ilustra bem essa situação. Certamente, o leitor mais desatento precisará de mais de uma leitura para perceber essas nuances (eu precisei).

Outro trunfo de Tungstênio está no texto, divididos em duas modalidades. Primeiro, temos os balões, com os diálogos dos personagens. Quintanilha busca, ao máximo, se aproximar do registro oral contemporâneo, da fala das ruas. Repetições, gírias, frases recheadas de elipses e interrupções, vale tudo para alcançar uma ‘naturalidade’ nos diálogos, um ritmo próximo ao de uma conversação. É uma aposta arriscada, que pode empobrecer o discurso construído, ou dificultar o entendimento do leitor, mas o autor evita essas armadilhas muito bem.

Num outro aspecto, temos as legendas, que habitualmente nos quadrinhos contemporâneos trazem a voz do narrador. Em Tungstênio, esse narrador não propriamente conduz ou apresenta os fatos, ele se instala na cabeça dos personagens, conversa com eles – e, muitas vezes, torna-se os personagens, assume a voz deles, fazendo com seja difícil para o leitor saber ao certo quem está presente naquele momento. Essa ‘polifonia’, como dizia Bakhtin, não é uma alquimia simples, apesar de Quintanilha nos fazer achar que sim.
Como disse um certo autor (cujo nome não vou lembrar), não existem histórias ruins, existem escritores ruins (ou algo parecido). Marcello Quintanilha, definitivamente, não é um escritor ruim.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

magic and loss

“When the going gets weird, the weird turn pro.” – Hunter S. Thompson


A essa altura do championship você já deve saber que Lou Reed morreu. Caput. Finito. E se nem imagina quem diabos é Lou Reed, o que diabos estará fazendo aqui? Com todo mundo falando sobre a importância do cara para a história do rock’n’roll, sobrou muito pouco a dizer. Então, vou escrever sobre o que Reed representou para mim (afinal, este é meu blog, ora bolas, e tudo aqui gira em torno de meu umbigo).

As influências más dos signos do zodíaco me levaram a crer que, mesmo morando em Natal, uma ilha ensolarada cercada por bandas de forró e axé por todos os lados, o grande lance era curtir um rockzinho antigo.

Sou uma cria do começo dos anos 90 – aqueles primeiros anos de adolescência que meio que definem como a criatura será pelas próximas décadas, até que alguma epifania ou morte súbita altere os rumos do cosmos... Então, nada de música alegrinha (tá bom, tinha o Out of Time do REM com o chicletinho do Shine Happy People, mas logo depois, acho que para compensar, os caras lançaram Automatic for The People). O álbum da minha geração foi o Nevermind, daí você tira o climão qual era...

Modos que descobrir Velvet Underground e Lou Reed foi como desenterrar o Australopithecus que dava sentido à cadeia evolutiva que vinha desde o Joy Division até, sei lá, Belle & Sebastian.

Lia uma Veja (era um lobisomem reacionário), quando me chamou atenção uma matéria sobre o lançamento do disco último disco de uma lenda do rock que eu mal conhecia. O cara era Lou Reed e o disco, Magic and Loss. A obra inteira falava sobre a morte de dois amigos, um dos quais, o compositor Doc Pomus, encarou um câncer bem barra e teve aquela morte lenta e melancólica que às vezes acompanha quem dançou numa dessas. Mas, pô, eu tinha o quê?, 13 anos, a morte era algo distante e sem sentido (hoje é só sem sentido) e mais distante ainda era a chance de encontrar esse disco em alguma loja daqui de Natal e ter dinheiro para tal empreitada.

No ano seguinte, já estudando na ETFRN, conheci um cara chamado Renzo Torrecuso (que na época era Terraguzo, mas explicar essa falsidade ideológica é uma longa história). Renzo é filho de Madê Weiner, artista plástica, boa-praça, que não tinha problema em emprestar as fitas-cassete originais (que nem disco e CD, com encarte e tudo; existiu isso, juro). E sabe quais ela me passou (parece que trouxe de Londres), na boa? O Magic and Loss e Walk on the Wild Side – The Best of Lou Reed.

Alguns meses depois, conheci uns caras esquisitões, Everton Dantas e Aristeu Araújo, com uns papos sobre música, poesia, e outras coisas estranhas. Só dei trela quando Arista sacou um cassete (sempre eles!) com o disco The Velvet Underground & Nico, o primeirão. Cascaviando os vinis de meu pai, que aos poucos ele abandonava num projeto suicida de trocar tudo por CDs, findei achando uma pequena obra-prima, para muitos a últimas do homem, o álbum New York.

Quer dizer, em menos de um ano, eu passara de um completo idiota desinformado, para um completo idiota que sacava uma coisa ou duas. E, cara, afirmo sem medo: esses discos mudaram minha vida. Se foi para melhor ou pior, foda-se.

Agora, os discos.

Vindo de lá pra cá, The Velvet Underground & Nico era uma pedrada no quengo, só parecida com a que recebi ao ouvir a Divina Comédia ou Ando meio Desligado pela primeira vez. Cada faixa é um clássico, difícil dizer a melhor. Tinha ali uma química entre a poética do Reed, um lance urbano, meio Jim Carroll e Bob Dylan, sua concepção pré-punk da música (“três acordes e já estamos perto demais do jazz”, ou algo assim, ele disse), com o experimentalismo avant-garde de John Cale e a voz estranhamente gélida e cálida de Nico.



Olha a capinha vagal
O The Best, por sua vez, é meio cafajeste. Quer dizer, Reed tinha saído da gravadora RCA, num fim de relacionamento que acabou rendendo o revolucionário e inaudível Metal Machine Music, e os caras, para aproveitar a raspa do tacho, lançaram esse The Best, reunindo o melhor que Reed havia lançado até 77. Ou seja: pra um ouvinte de hoje, faltam aí uns 35 anos de carreira. Mas a seleção é um primor. Estão representados os álbuns solos (fundamentais) Lou Reed, Berlin, Transformer, Sally Can’t Dance e Rock’n’Roll Animal e umas pérolas como Coney Island Baby e o ladão-B Nowhere at all. Em suma, as faixas nas quais o cara definiu seu papel na história do rock após o fim do Velvet (como se fosse pouco).

New York, de 1989, foi uma despedida em alto estilo numa década meio negra pr’essa galera que veio dos anos 60/70. Reed não foi exceção. Depois de umas patinadas feias, o disco, uma ode à cidade onde nasceu, viveu e morreu, é a coisa-mais-linda-desse-mundo-de-deus. Tá tudo ali: o rock básico e bem executado, a pegada dylanesca, as letras em formato de crônicas urbanas.


E, por fim, o Magic and Loss. Um disco triste, pesado, profundo e qualquer outro adjetivo fúnebre e macambúzio que você conseguir evocar. Mas, também, um disco que fala sobre a vida – até porque faz parte. É como se fosse uma missa para quem partiu. Cada música tem um subtítulo sobre o ‘estado de espírito’, ou o mistério da via-crúcis que ele – e o defunto – passaram. Começa com a doença; o sofrimento numa cama de hospital; a desesperança com o tratamento; a morte; cremação; a missa; enterro; o luto; negação; a superação. Todos os passos, dolorosamente cantados.

É o disco perfeito pra entender que Reed já tava de boa com a vida – e com a morte. Daí que não dá pra ficar com peninha porque o bicho morreu. Foram 71 anos. Tá de bom tamanho até pra quem é vegetariano e faz pilates, imagina pro Reed.

Ouvindo What’s good, tá logo no refrão:

What's good?
(Life's good)
But not fair at all


Já em Power and Glory, ele começa com metáforas bíblicas até descer ao mundano e doloroso:

I was visited by the power and the glory
I was visited by a majestic hymn
Great bolts of lightning lighting up the sky
electricity flowing through my veins

E então:

I saw a great man turn into a little child
the cancer reduce him to dust
His voice growing weak as he fought for his life
with a bravery few men know

I saw isotopes introduced into his lungs
trying to stop the cancerous spread
And it made me think of "Leda And The Swan"
and gold being made from lead

Só pra Little Jimmy Scott soltar, em sua voz andrógina:

(I wanted all of it, all of it, all of it)
All of it
(Not just some of it, all of it, all of it)
All of it


A narrativa da morte de Pomus/Rita em Magician é um belo momento da poética de Reed:

Doctor you're no magician
and I am no believer
I need more than faith can give me now

I want to believe in miracles
not just belief in numbers
I need some magic to take me away

I want some magic to sweep me away
I want some magic to sweep me away
Visit on this starlit night
replace the stars the moon the light, the sun's gone
Fly me through this storm
and wake up in the calm


É interessante notar como Reed mistura imagens eruditas e a vida prosaica nova-iorquina, uma marca de suas letras. Como em Sword of Damocles:

Now I have seen lots of people die
from car crashes or drugs
Last night on 33rd st.
I saw a kid get hit by a bus
But this drawn out torture over which part of you lives
is very hard to take
To cure you they must kill you
the Sword of Damocles above your head



Sem falar que poucos discos podem encerrar-se com uma música como Magic and Loss - The Summation, dizendo algo como:

They say no one person can do it all
but you want to in your head
But you can't be Shakespeare and you can't be Joyce
so what is left instead


 p.s.: Muitos anos depois, entrei numas de comprar vinis, mas nunca tive uma radiola. Um deles foi o Songs for Drella, que passei adiante num jogo com Alexis Peixoto que envolveu também um Kick Out the Jams, do MC5. Não repitam isso em casa, crianças.

Songs for Drella mostra que a parceria de Cale e Reed envelheceu como uísque em barril de carvalho. Os dois cantando em memória de Andy Warhol é de lascar o cano.


p.s.2: A citação do Thompson não é só pra vocês pensarem que eu sou um maluco que encaixa o Doutor em tudo que faço. Ele fez na literatura o que Reed mostrou em suas canções: não existiu porra de paz e amor. Tava todo mundo doidão de ácido pra sacar isso.

p.s.3: Gosto de Lulu. Fodam-se as disposições em contrário.


p.s.4: Muita gente de mais tarimba falou sobre a trajetória de Reed no rock. Recomendo a leitura dos artigos do Forastieri, do Barcinsky, do Braulio Tavares e do Alexandre Honório (pra ficar na brodagem).

p.s.5: Qualquer dia desses conto a história de minha primeira (e única) audição de Metal Machine Music. Mas vocês só podem divulgar depois que eu e meus descendentes estivermos mortos, enterrados e esquecidos. A pessoa mais indicada no mundo para tentar explicar este álbum para você chama-se Lester Bangs.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma descrição de Melville

Goneril era jovem, graciosa e ereta - aliás, ereta demais para uma mulher; a pele era naturalmente rosada e seria encantadora se não fosse por uma certa qualidade rígida e crestada, como cerâmica levada ao forno e esmaltada. Os cabelos eram de um castanho escuro e brilhante, mas usados em cachos curtos envolvendo a cabeça. A conformação de seu corpo de índia não deixava de ter efeitos prejudiciais no busto, ao passo que a boca seria bonita se não fosse por indícios de um bigode. No total, sua aparência, auxiliada pelos recursos da toalete, era tal que a distância alguém poderia achá-la bem bonita, embora num estilo de beleza algo árido e peculiar.


O Vigarista: Seus Truques, p. 67

***

Melville é um dos meus autores prediletos. Moby Dick e Bartleby estão no meu top 10 de melhores textos em prosa já lidos - e Billy Budd fica ali numa primeira suplência da lista. Mas esse livro acima, que adquiri de meu amigo Astier Basílio, é uma das obras mais esquisitas que encarei até agora. Um barco desce o Mississipi. Nele, uma extensa fauna humana sobe e desce nas cidades ribeirinhas e, entre eles, os mais diferentes tipos de vigaristas (no original, confidence men) que se revezam de golpe em golpe a extrair quaisquer quantias possíveis dos mais incautos. Tudo no texto é regido pela desfaçatez, pela ironia, pela dissimulação. 

Esse trecho acima foi, para mim, exemplar. Um dos trapaceiros conta uma história sobre outro personagem do navio. E decide nomear a esposa dele como a vilã shakespeariana. Na primeira frase, uma sucinta descrição da personagem a define  como um clichê romântico "era jovem, graciosa e ereta", para em seguida desconstruir totalmente essa imagem, entregando-nos uma personagem que, destes atributos não parece ter muita coisa. E assim se comporta o livro inteiro. Pelo menos até a altura desta leitura. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Quando Richard Matheson salvou minha vida

Matheson era aquele tipo de autor do qual se ouve mais falar do que se lê. Na verdade, me parece que hoje em dia esse é um tipo bem comum. Mas, para ser mais honesto com o cara, pode-se dizer que ele era um autor mais visto do que lido.

Como muitos dos seus necrológios frisaram, ele roteirizou o clássico ‘O Incrível Homem que Encolheu’, uma ficção científica com evidentes ecos swiftianos, que resgatava a clássica questão do ‘homem como medida do mundo’ numa sociedade assombrada pela Guerra Fria. Além disso, Matheson foi responsável pelo roteiro daqueles que até hoje são considerados alguns dos melhores episódios da antológica série Twilight Zone, veiculada no Brasil com o sensacional título de ‘Além da Imaginação’ – sem falar no episódio ‘O Inimigo Interior’, da primeira fase de Jornada nas Estrelas, tido por muitos como o ponto alto da série clássica.

Caso fosse brasileiro, antes mesmo de um gigante da ficção científica, Matheson certamente seria um estouro de vendas da literatura kardecista, cabeça a cabeça com Chico Xavier, devido a duas obras – posteriormente também transformadas em película – ‘Em Algum Lugar do Passado’ e ‘Amor Além da Vida’. Dois romances bem xaropes: o primeiro sobre viagem astral/temporal, estrelado pelo (melhor) Superman Christopher Reeve; o outro, uma espécie de refilmagem da novela ‘A Viagem’ com Robin Williams num rolé por diferentes planos astrais em busca da esposa suicida.

'Em Algum Lugar do Passado', aliás, foi um estouro de bilheteria da minha adolescência, a gente vivia passando na locadora e fazendo sessões lá em casa. Chororô garantido das menininhas.

Além destas, a história pela qual Matheson certamente será lembrado é ‘Eu Sou a Lenda’. Curiosamente, não vi nenhuma das três filmagens, nem a com Vincent Price, de 1964, a com Charlton Heston, de 1971, ou a com Will Smith, de 2007.

O sucesso de Matheson no cinema e na tevê ajudou o público brasileiro a ter acesso à obra escrita dele, uma vez que nosso mercado editorial sempre ofereceu pouco espaço para a ficção científica. Mesmo sendo um dos grandes nomes do gênero, por exemplo, poucas histórias além das levadas às telas nos chegaram impressas – e ainda assim, muitas edições estão fora das prateleiras há um bom tempo.

Por isso, qual não foi minha surpresa quando, numa viagem de trabalho a Mossoró, após uma rápida visita a um sebinho do centro e sob os efeitos de uma ressaca pantagruélica, encontrei um exemplar surrado de ‘Eu Sou a Lenda’, da coleção Mestres do Horror e da Fantasia, da editora Francisco Alves, lançado em 1981. Foi como entrar inadvertidamente na Atlântida, em Xangri-lá, ou em São Saruê, e dar de cara com o Graal, o Velocino de Ouro, a Lâmpada Mágica, a figurinha de Rivelino do álbum da Copa de 70.

‘Eu Sou a Lenda’ é daquelas histórias cuja reputação a precede. Publicado em 1954, o livro acompanha o cotidiano do cientista Robert Neville, um suposto último sobrevivente da raça humana num mundo devastado por uma praga que transforma todos os infectados em zumbis. Enquanto passa os dias rodando por uma metrópole abandonada em busca de equipamentos e víveres e matando as criaturas adormecidas que encontra, Neville passa noites de medo e suspense isolado em sua casa-bunker, cercado pelas criaturas despertas, que tentam destruí-lo.

Graças a uma elaborada estratégia de sobrevivência, retratada com minúcias por Matheson, ‘Eu Sou a Lenda’ dialoga assim com o Crusoe de Dafoe, ecoando num gênero tido como popularesco, a ficção científica, um romance fundador da modernidade. Tal qual o náufrago célebre, Neville busca, através de um individualismo estoico, reafirmar sua civilidade em meio ao caos e à selvageria.

Matheson com seus vampiros bestiais também lança as bases da metáfora do zumbi contemporâneo, a criatura-rebanho remotamente humana, reduzida às necessidades elementares (ou, na visão apurada e posterior de George Romero, ao consumo desenfreado simbolizado pelo canibalismo), que se tornou paradigma da cultura pop atual.

Por fim, ‘Eu Sou a Lenda’ é um dos primeiros textos a promover um fortuito encontro de dois gêneros ligados à ficção especulativa, o horror e a ficção científica, ao buscar encaixar uma causa racional para a epidemia, justificando ‘pseudocientificamente’ não apenas a infecção vampírica, como os ‘sintomas’ do mal, como a aversão a espelhos, alho, etc. Esse diálogo seria fundamental para oxigenar o gênero e anteceder expressões como o New Weird, surgido na década passada.

O final, anticlimático, bem diferente da patuscada promovida por Smith (não vi o filme, mas sei como termina) questiona, como qualquer grande obra que se preze, não apenas qual o lugar do homem no mundo, mas o que realmente é o homem e o que é o monstro, o outro, o desviante, quando se perde qualquer noção de semelhança e alteridade.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Dois zines


O fanzine não morreu, nem virou outro bicho – ele apenas vai ali, dá um tempo, e volta. E quando volta, que maravilha!

Por estes dias, num espaço de mais ou menos um mês, pude conferir o lançamento de dois zines que atestam a longevidade – e a vontade de viver – desse tipo de publicação. Antes só um aviso: vão rolar uns comentários a seguir bem no estilo street fighting man, sem compromissos. Para leituras mais cabeçudas sobre fanzines, recomendo você procurar o livro do Henrique, o do Edgard e o organizado pela Cellina.

Capa do zine "tr3sdoi2", editado
pelo Alfredo Albuquerque
O 'Tr3sdoi2 – literatura, HQ, design, humor', do Alfredo Albuquerque, foi lançado lá em João Pessoa, durante a 1ª Convenção Paraibana de Quadrinhos. A viagem do Alfredo foi navegar pela internet, procurando coisas bacanas, reuniu tudo, juntou textos dele também (que ninguém é de ferro),  imprimiu e mandou bronca. E ficou massa.

Primeiro, os quadrinhos. Tão lá Guga Schultze e Lor, cada um com uma tirinha e um cartum. Lor tem uma pegada meio Laerte de sindicato – e, por favor, ser comparado ao Laerte não é demérito para ninguém. Já Schultze surpreende nos cartuns sobre Beatles e Luiz Gonzaga, com um traço grotesco e sujo deveras interessante. E tem ainda um artigo do Moebius sobre desenhos eróticos que dispensa comentários.

As poesias de Luciane Gasperis me chamaram pouca atenção, fora os versos finais de 'sincronicidade':

agora no meu campo de visão somente 16 bonecas
para serem decapitadas: uma a cada 30 minutos de
espera. é possível que sobrem algumas se tudo
correr bem. Que sorte.

Já a prosa está bem em campo com os contos 'muito lindo o carinha' de Letícia Palmeira e 'estranhos em terra estranha', de Alfredo Albuquerque.

Sintam o drama do apuro gráfico do "tr3sdoi2"
Aliás, que conto o do Alfredo. Uma história de canibalismo com uma pegada bem 'Os Livros de Sangue', do Clive Barker, umas duas ou três construções que eu não usaria, mas no final um resultado bem acima da média.

O que chama a atenção na iniciativa de Albuquerque é que a tecnologias digitais não precisam necessariamente ser o inimigo vindo do estrangeiro que matou nosso amigo, o fanzine. O apuro técnico do Tr3sdoi2, com seu projetinho gráfico bem definido e agradável de ler e manusear, aponta como o computador pode quebrar aquele galho para quem quiser montar sua própria publicação – nesse caso, ajuda pra caralho manjar desse lance de design para impressos, como o Albuquerque mostra em seu trabalho. Aliás o diálogo com o mundo digital começa já na seleção dos textos. Um mamão lava a outra.

***

Capa do 'Com Carinho': simplesmente foda
o detalhe do arame da encadernação
Que me perdoem Abimael Silva e Carlos Fialho, mas o principal lançamento editorial potiguar de 2012 partiu de dois moleques punheteiros sem grana pra comprar um grampeador.


Pelo menos é o que querem nos fazer crer Beto Leite e Ramon Ribeiro, filhotes desgarrados da revista Catorze com o zine Com Carinho, lançado durante a Virada Cultural Internacional da Rua Chile, no ano passado.

Projeto gráfico tosco-conceitual, na ida e na volta
Tudo em Com Carinho é tosco: do papelão grosso à tipografia dos créditos, passando pelos desenhos e a encadernação feita com pedaços de arame entortados na base do alicate. Mas não se engane: há uma certa sofisticação à Joãozinho Trinta por trás de tanto descuido.

É um plano maquiavélico, explicitado na página de abertura:

“Você faz uma busca por rabiscos guardados em gavetas e cadernos velhos da faculdade. Você junta aquilo tudo. Faz uma bola de papel amassado. Perto da barata morta. A bola cai no chão. Você levanta chateado. Apanha aquela tralha. A barata. E com ela na palma da mão, o estalo. Aquela vontade de fazer um fanzine. A vontade que nunca some. Que vai e vem. Como os mendigos da rua, a prostituta da esquina e o urubu no céu. Que se aproxima e pousa na janela do quarto.”

Mas essa vontade louca não é só tempestade e ímpeto: todo o desleixo, o papel meticulosamente amassado e rasgado a mão, os desenhos mal acabados de colorido borrado fazem de 'Com Carinho' um zine-conceito, cuja própria manufatura dialoga com sua proposta poética marginal, falsamente naïf.

Os textos, todos eles, levam a sério a intenção ‘visceral’ de seus autores: é no corpo que tudo se resolve, seja o sexo, a fome, a violência ou, quem sabe, o tédio aquilo que move os personagens.

Um achado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

lábias que beijei


Poema da boca
(inútil chamá-lo de outro nome
este será sempre o poema da boca)

para uma breve boca

o rascunho do desejo
rabisca a boca inacabada

a língua, trêmula, sonha
com outra língua, impossível

e essa tua boca tão próxima,
disponível

ah, inacessível boca
inexpugnáveis lábios
intransponíveis dentes
sólidas salivas

(tão pouca boca para tanto desejo)

o desejo, humilhado,
se dá por vencido

lábios ansiosos delimitam a carnificina
que se anuncia:
abertura inicial, orifício sem data, cavidade superior,
cabo das tormentas, escarpa lisa, istmo do panamá, ventos
elísios, terra do fogo, fenda úmida, caminhos para as índias,
cumes elevados, estreito de gibraltar, nascente pra dentro,
carne inútil, sombra furiosa, sulco erótico, secreção labial,
cratera rubra, rio sem margem, escavação lingüística,
passagem de nível, vulcão de vapores, rachadura cósmica,
buraco das araras, caverna mágica, península contrária,
geleira intransponível, curativo falante, nuvem de carnes,
abismo colossal, pico de luz, planta carnívora, furacão, vale
encharcado, vereda úmida, falha geológica na cordilheira da
face, falsa falésia, pétala carnuda, vulva superior

boca proibida, cara lambida,
poema destrambelhado, ladeira abaixo

(eu quero é me afogar nesse
pântano de cuspes)

tua boca me deve um beijo,
a boca ri, marota
a boca ri, safada

(o poema da boca se fecha em si mesmo)

***

esse poema é de nicolas behr, mas, na falta de um mimeógrafo, agora é da gente também. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

pagode indie

apenas ouçam esse tributo ao Raça Negra (!!!) gravado por bandas do cenário independente do rock brasileiro.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

As mênades


Conto publicado numa Palumbo aí, não lembro qual. 

***

O álcool diluía em suas veias quantidades generosas de metanfetaminas, antidepressivos, estimulantes, psicoativos, alucinógenos e o que mais enfeitasse prateleiras de farmácia com uma tarja preta sensual. Dava para sentir o sangue circulando, como se brincasse de tobogã, milhares de minúsculas agulhas de gelo trespassando o corpo rumo à superfície da pele. Pode parecer estranho, mas era uma sensação gostosa.

A porta tremia a cada batida da música e a vidraça da janela zumbia levemente. Mesmo com a festa rolando no outro cômodo, o som quase não entrava no quarto. Parecia vir de muito longe. Ou ela nem tinha mais certeza do que ouvia. Se já esteve tão chapada, foi em outra vida. Seus pensamentos, no entanto, eram claros como há muito tempo. Ela sabia o que deveria fazer agora.

***

O tédio tirou Alice de casa ao entardecer. Primeiro passou pelos botecos conhecidos, à procura de uma paquera. Uns rapazes bonitos chamaram a atenção, mas a conversa era uma merda. Pediu para ir ao banheiro, pagou a conta no balcão e saiu sem se despedir.

— Que se foda. Vou descer pra Ribeira — resmungou. Quem sabe não descobriria alguma nova espelunca?

O bairro boêmio se resumia a um emaranhado de ruas estreitas e mal iluminadas com becos ainda mais estreitos e escuros que abrigavam bordéis e boates fuleiras. Os prédios, em sua maioria datados dos anos 1950, foram erguidos sobre os escombros de casas comerciais centenárias. Algumas fachadas, decadentes e moribundas, ainda exibiam traços carcomidos de art noveau, contrastando com aqueles horríveis caixotes de tijolo nu. Aqui e acolá, um cachorro, um mendigo, traficantes em suas bicicletas e peões querendo empenhar os últimos trocados numa trepada ligeira ou num porre de cachaça.

Alice passou por um carrinho de cachorro-quente onde, na calçada, o dono disputava uma partida de xadrez e com um cliente. Mas o que realmente chamou a atenção dela foi a moça que acompanhava o jogo. Seus dreadlocks loiros caíam por cima da careca raspada nas laterais da cabeça. Era bela o suficiente para Alice ficar por ali, pedir um rango e, quem sabe, trocar uma ideia.

— Você não é daqui, né? Se fosse, a gente já tinha se encontrado por aí.

— Não, não sou. Estou visitando uns amigos e vim curtir uma festa.

A moça em jeans apertados sorriu e, por um momento, Alice imaginou como seria mergulhar naquele olhar.

— Na Ribeira? Tem certeza? Não vi muito movimento hoje.

— Ou talvez não tenha procurado direito.

Trocaram olhares maliciosos. Ela não via problemas em curtir com outras garotas. Geralmente era mais divertido do que parar num motel barato com algum bêbado dorminhoco. A moça parece que sacou.

— Meu nome é Silene. Escuta, sei que a gente nem se conhece direito, mas duvido que você tenha saído de casa hoje para encontrar conhecidos. Não quer ir comigo até lá? — o sorriso dela derreteria gelo suficiente para elevar o nível dos mares em meio metro. Alice topou na hora.

Atravessaram um beco cheio de entulhos, fedendo a merda e mijo, para alcançar uma viela próxima ao rio. A região portuária do bairro era ainda mais decadente. Mesmo conhecendo  o pedaço, Alice estranhou aquele caminho. Silene parecia seguir para os cabarés. Eram lugares pequenos, lotados de putas velhas e bêbadas escanchadas sobre cadeiras de plástico, sorvendo doses de campari ao som de bregas antigos.

Chegaram a um prédio estreito de três andares. Nunca havia reparado no lugar antes. Silene tocou a campainha. Um segurança abriu uma portinhola e uma música abafada escorreu em busca de liberdade. Olhou para Silene, grunhiu algo e deixou-as entrar.

No primeiro andar tocava um som industrial que deixaria o Ministry parecendo Balão Mágico. O ambiente era quente e envolvido numa névoa que tanto podia ser de cigarros ou gelo seco. Estava lotado, mas Alice não conhecia aquela gente. Uma luz estroboscópica piscava num ritmo epiléptico. Dirigiram-se ao balcão, onde um barman performático distribuía drinques.

Logo, Silene dançava bem próximo a ela e começou a se esfregar nas suas pernas, enquanto os rostos se roçavam de leve. O hálito dela era perfumado e doce. Alice não lembrava de tê-la visto comendo no cachorro-quente. “Porra, devo estar com um bafo de cebola daqueles”, pensou.

Silene parecia brilhar em sua dança. Encostou o rosto em seu ouvido e sussurrou: “Você precisa se soltar mais. Estamos aqui hoje para isso.” E tascou-lhe um beijo na boca. Ok, pensou, se é assim, vamos nos soltar. Retribuiu os afagos da maneira mais lasciva que conhecia. Por um bom tempo, trocaram carícias, enquanto os braços serpenteavam pela nuca, costas, quadris, seios. Outros drinques, vários deles, vieram.

— Venha — Silene tomou-a pela mão. — Chegou a hora de irmos além.

Subiram as escadas para um corredor que levava a vários quartos sem porta. Neles, almofadas e colchões encostados nas paredes e, em cada um deles, uma mesa com uma droga diferente à disposição dos visitantes. As bandejas tinham de tudo: coisas de fumar, de cheirar, de engolir, de injetar. Um por um, elas entraram e experimentaram. Os sentidos explodiram e embotaram-se e excitaram-se e confundiram-se e alucinaram-se. Alice sorriu e amou e sofreu e gozou até não sentir mais nada, nem o chão sob seus pés. Precisava de um tempo para si, precisava ficar só. Foi quando encontrou aquele quarto, vazio, solitário e silencioso.

***

No salão, todos esperavam por ela. Alice não aparentava nenhum sinal de torpor. Seu andar era firme, altivo. Começaram a dançar ao seu redor. Bebiam e gritavam. A algaravia aumentava cada vez mais. Porém, aquilo não a assustava. Nunca esteve tão em paz consigo. Do meio da multidão, Silene veio e lambeu seu pescoço. Seu perfume parecia mel e ervas. A pancada que atingiu sua cabeça espalhou uma onda de calor e um choque elétrico por todo seu corpo. Mas não dor. Dor, nunca mais. Deitada no chão, ela sentiu as mãos e unhas dilacerando sua carne, seu sangue brotando em busca de liberdade. Naquele momento, Alice gozou como se fosse a última vez.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

poemito


tenho tido
problemas para dormir.
quando durmo,
tenho problemas
para levantar.
quando me levanto,
tenho problemas
para sair de casa.
quando saio de casa,
tenho problemas
para chegar a qualquer lugar
distante mais de 2 quarteirões.

tenho uma passeata de problemas
que, contra minha vontade,
me faz seguir adiante.


***

em colaboração do everton dantas.

domingo, 26 de agosto de 2012

mudanças no plano de voo

A partir de setembro, só irei a Natal uma vez por mês, preferencialmente no primeiro fim de semana após o pagamento, por questões financeiras.

A exceção ficará para novembro/dezembro, quando será realizado o MPBeco, e, obviamente, estarei pela cidade durante o festival.

Quaisquer programas que não permitam a participação de menores de 2 anos estão automaticamente descartados.

Cancelei o telefone que tinha do RN. Agora, só números da Paraíba. Um fixo, (83) 3578-8656, e um Oi, (83) 8767-8141.

Em dezembro, completo três anos morando em João Pessoa.

Neste período, recebi quatro visitas. Uma de meus pais.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

a força secreta daquela alegria

aos imortais

AGNELADAS

por Esmeraldo Siqueira,  em Fauna Contemporânea (1968)

Ia nascer dromedário,
Mas a parteira Maroca
Teve um susto extraordinário,
Quando viu que era uma foca.

Das verdades que revelo,
De fácil comprovação,
A mais gozada é Agnelo
Querendo bancar Dom João.

Feio por dentro e por fora
Eis Agnelo... E Eis por que
A própria mãe geme e chora
De desgosto, quando o vê.

Quer ser prefeito, o magano.
E o será, pois tem tineta.
Basta ser irmão germano
Do grande Lulu Capeta.

Há quem atribua à sina,
Chame predestinação
Viver de infâmia e rapina,
Ser político e ladrão.

Um medonho puxa-saco
Gabou-lhe o sorriso fanhoso.
Outro, o porte de macaco
Achou-lhe bonito e airoso.

reading dracula

Na verdade, relendo, mas desta vez em inglês. A primeira vez que li, há 20 anos, achei chato pra caramba. Desta, está sendo mais divertido. Acho que a tradução que arrumei não ajudou, ou faltava mais maturidade ao leitor, não sei ao certo.

Aí no capítulo 3, me deparo com esta passagem, que narra o primeiro encontro entre Jonathan Harker e as servas satânicas do Count Dracula, na Transilvânia. Ele escapa por muito pouco de ser mordido.

***

I was afraid to raise my eyelids, but looked out and saw perfectly under the lashes. The girl went on her knees, and bent over me, simply gloating. There was a deliberate voluptuousness which was both thrilling and repulsive, and as she arched her neck she actually licked her lips like an animal, till I could see in the moonlight the moisture shining on the scarlet lips and on the red tongue as it lapped the white sharp teeth. Lower and lower went her head as the lips went below the range of my mouth and chin and seemed to fasten on my throat. Then she paused, and I could hear the churning sound of her tongue as it licked her teeth and lips, and I could feel the hot breath on my neck. Then the skin of my throat began to tingle as one’s flesh does when the hand that is to tickle it approaches nearer, nearer. I could feel the soft, shivering touch of the lips on the super sensitive skin of my throat, and the hard dents of two sharp teeth, just touching and pausing there. I closed my eyes in languorous ecstasy and waited, waited with beating heart.

***

Mas, em vez de um ataque vampírico, não parece mais uma defloração?

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Alice in Wonderland

A unidade 2 do curso sobre fantasia e ficção científica teve Alice in Wonderland como objeto de estudo. Eis o ensaio que enviei. 

Está, gramaticalmente, bem pior que o primeiro, pois tive menos tempo para me dedicar a ele. Relevem, mas não deixem de apontar o que acharem muito absurdo. 

***


Since he can convince readers to keep accompanying him, a writer can do with words what he wants. Lewis Carroll was a mathematician in love with logic - and he soon realized that language had its own logic, quite different from usual.

The consensual and arbitrary nature of language is always at stake in Alice in Wonderland. Cleverly, Carroll chooses a child as the protagonist of his story, because to them this consensus is not natural as it would be for an adult. Maybe so, they seem to live in a wonderful world - and perhaps therefore Wonderland does not wonder Alice too much.

Falling through a rabbit-hole, Alice reacts naturally to the absurdity of the situation: "Down, down, down. There was nothing else to do, so Alice soon began talking again. 'Dinah'll miss me very much to-night, I should think! '(Dinah was the cat.)" (chapter 1). This passive reaction is repeated several times.

Later, we see how the consensual nature of language is explored through sound. In at least two occasions, Alice tries to recite popular stories, but words begin to change and the story gains new meanings - although original musicality be maintained. A similar situation occurs in Chapter 3, in confusion between tail and tale.

This reversal of logic, that words do not always mean what they say, appears in the Mad Hatter episode:
"'Then you should say what you mean,' the March Hare went on.
'I do,' Alice hastily replied; 'at least - at least I mean what I say - that's the same thing, you know.'
'Not the same thing a bit!' Said the Hatter. 'You might just as well say that "I see what I eat" is the same thing as "I eat what I see"!'"

Sounds and symbols, this is what words are. In right hands, they can become anything.

***

Próxima semana, Bram Stoker's Dracula.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

tom waits



Nem o bróder Luce aguentou a onda do inferno, mano.

patti smith



***

há algumas semanas, ouvindo sem parar esse disco novo, Banga.

this is the girl foi escrita em memória de amy winehouse. dedicado a todas as doidinhas soltas por aí nesse mundão sem deus.