terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma descrição de Melville

Goneril era jovem, graciosa e ereta - aliás, ereta demais para uma mulher; a pele era naturalmente rosada e seria encantadora se não fosse por uma certa qualidade rígida e crestada, como cerâmica levada ao forno e esmaltada. Os cabelos eram de um castanho escuro e brilhante, mas usados em cachos curtos envolvendo a cabeça. A conformação de seu corpo de índia não deixava de ter efeitos prejudiciais no busto, ao passo que a boca seria bonita se não fosse por indícios de um bigode. No total, sua aparência, auxiliada pelos recursos da toalete, era tal que a distância alguém poderia achá-la bem bonita, embora num estilo de beleza algo árido e peculiar.


O Vigarista: Seus Truques, p. 67

***

Melville é um dos meus autores prediletos. Moby Dick e Bartleby estão no meu top 10 de melhores textos em prosa já lidos - e Billy Budd fica ali numa primeira suplência da lista. Mas esse livro acima, que adquiri de meu amigo Astier Basílio, é uma das obras mais esquisitas que encarei até agora. Um barco desce o Mississipi. Nele, uma extensa fauna humana sobe e desce nas cidades ribeirinhas e, entre eles, os mais diferentes tipos de vigaristas (no original, confidence men) que se revezam de golpe em golpe a extrair quaisquer quantias possíveis dos mais incautos. Tudo no texto é regido pela desfaçatez, pela ironia, pela dissimulação. 

Esse trecho acima foi, para mim, exemplar. Um dos trapaceiros conta uma história sobre outro personagem do navio. E decide nomear a esposa dele como a vilã shakespeariana. Na primeira frase, uma sucinta descrição da personagem a define  como um clichê romântico "era jovem, graciosa e ereta", para em seguida desconstruir totalmente essa imagem, entregando-nos uma personagem que, destes atributos não parece ter muita coisa. E assim se comporta o livro inteiro. Pelo menos até a altura desta leitura. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Quando Richard Matheson salvou minha vida

Matheson era aquele tipo de autor do qual se ouve mais falar do que se lê. Na verdade, me parece que hoje em dia esse é um tipo bem comum. Mas, para ser mais honesto com o cara, pode-se dizer que ele era um autor mais visto do que lido.

Como muitos dos seus necrológios frisaram, ele roteirizou o clássico ‘O Incrível Homem que Encolheu’, uma ficção científica com evidentes ecos swiftianos, que resgatava a clássica questão do ‘homem como medida do mundo’ numa sociedade assombrada pela Guerra Fria. Além disso, Matheson foi responsável pelo roteiro daqueles que até hoje são considerados alguns dos melhores episódios da antológica série Twilight Zone, veiculada no Brasil com o sensacional título de ‘Além da Imaginação’ – sem falar no episódio ‘O Inimigo Interior’, da primeira fase de Jornada nas Estrelas, tido por muitos como o ponto alto da série clássica.

Caso fosse brasileiro, antes mesmo de um gigante da ficção científica, Matheson certamente seria um estouro de vendas da literatura kardecista, cabeça a cabeça com Chico Xavier, devido a duas obras – posteriormente também transformadas em película – ‘Em Algum Lugar do Passado’ e ‘Amor Além da Vida’. Dois romances bem xaropes: o primeiro sobre viagem astral/temporal, estrelado pelo (melhor) Superman Christopher Reeve; o outro, uma espécie de refilmagem da novela ‘A Viagem’ com Robin Williams num rolé por diferentes planos astrais em busca da esposa suicida.

'Em Algum Lugar do Passado', aliás, foi um estouro de bilheteria da minha adolescência, a gente vivia passando na locadora e fazendo sessões lá em casa. Chororô garantido das menininhas.

Além destas, a história pela qual Matheson certamente será lembrado é ‘Eu Sou a Lenda’. Curiosamente, não vi nenhuma das três filmagens, nem a com Vincent Price, de 1964, a com Charlton Heston, de 1971, ou a com Will Smith, de 2007.

O sucesso de Matheson no cinema e na tevê ajudou o público brasileiro a ter acesso à obra escrita dele, uma vez que nosso mercado editorial sempre ofereceu pouco espaço para a ficção científica. Mesmo sendo um dos grandes nomes do gênero, por exemplo, poucas histórias além das levadas às telas nos chegaram impressas – e ainda assim, muitas edições estão fora das prateleiras há um bom tempo.

Por isso, qual não foi minha surpresa quando, numa viagem de trabalho a Mossoró, após uma rápida visita a um sebinho do centro e sob os efeitos de uma ressaca pantagruélica, encontrei um exemplar surrado de ‘Eu Sou a Lenda’, da coleção Mestres do Horror e da Fantasia, da editora Francisco Alves, lançado em 1981. Foi como entrar inadvertidamente na Atlântida, em Xangri-lá, ou em São Saruê, e dar de cara com o Graal, o Velocino de Ouro, a Lâmpada Mágica, a figurinha de Rivelino do álbum da Copa de 70.

‘Eu Sou a Lenda’ é daquelas histórias cuja reputação a precede. Publicado em 1954, o livro acompanha o cotidiano do cientista Robert Neville, um suposto último sobrevivente da raça humana num mundo devastado por uma praga que transforma todos os infectados em zumbis. Enquanto passa os dias rodando por uma metrópole abandonada em busca de equipamentos e víveres e matando as criaturas adormecidas que encontra, Neville passa noites de medo e suspense isolado em sua casa-bunker, cercado pelas criaturas despertas, que tentam destruí-lo.

Graças a uma elaborada estratégia de sobrevivência, retratada com minúcias por Matheson, ‘Eu Sou a Lenda’ dialoga assim com o Crusoe de Dafoe, ecoando num gênero tido como popularesco, a ficção científica, um romance fundador da modernidade. Tal qual o náufrago célebre, Neville busca, através de um individualismo estoico, reafirmar sua civilidade em meio ao caos e à selvageria.

Matheson com seus vampiros bestiais também lança as bases da metáfora do zumbi contemporâneo, a criatura-rebanho remotamente humana, reduzida às necessidades elementares (ou, na visão apurada e posterior de George Romero, ao consumo desenfreado simbolizado pelo canibalismo), que se tornou paradigma da cultura pop atual.

Por fim, ‘Eu Sou a Lenda’ é um dos primeiros textos a promover um fortuito encontro de dois gêneros ligados à ficção especulativa, o horror e a ficção científica, ao buscar encaixar uma causa racional para a epidemia, justificando ‘pseudocientificamente’ não apenas a infecção vampírica, como os ‘sintomas’ do mal, como a aversão a espelhos, alho, etc. Esse diálogo seria fundamental para oxigenar o gênero e anteceder expressões como o New Weird, surgido na década passada.

O final, anticlimático, bem diferente da patuscada promovida por Smith (não vi o filme, mas sei como termina) questiona, como qualquer grande obra que se preze, não apenas qual o lugar do homem no mundo, mas o que realmente é o homem e o que é o monstro, o outro, o desviante, quando se perde qualquer noção de semelhança e alteridade.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Dois zines


O fanzine não morreu, nem virou outro bicho – ele apenas vai ali, dá um tempo, e volta. E quando volta, que maravilha!

Por estes dias, num espaço de mais ou menos um mês, pude conferir o lançamento de dois zines que atestam a longevidade – e a vontade de viver – desse tipo de publicação. Antes só um aviso: vão rolar uns comentários a seguir bem no estilo street fighting man, sem compromissos. Para leituras mais cabeçudas sobre fanzines, recomendo você procurar o livro do Henrique, o do Edgard e o organizado pela Cellina.

Capa do zine "tr3sdoi2", editado
pelo Alfredo Albuquerque
O 'Tr3sdoi2 – literatura, HQ, design, humor', do Alfredo Albuquerque, foi lançado lá em João Pessoa, durante a 1ª Convenção Paraibana de Quadrinhos. A viagem do Alfredo foi navegar pela internet, procurando coisas bacanas, reuniu tudo, juntou textos dele também (que ninguém é de ferro),  imprimiu e mandou bronca. E ficou massa.

Primeiro, os quadrinhos. Tão lá Guga Schultze e Lor, cada um com uma tirinha e um cartum. Lor tem uma pegada meio Laerte de sindicato – e, por favor, ser comparado ao Laerte não é demérito para ninguém. Já Schultze surpreende nos cartuns sobre Beatles e Luiz Gonzaga, com um traço grotesco e sujo deveras interessante. E tem ainda um artigo do Moebius sobre desenhos eróticos que dispensa comentários.

As poesias de Luciane Gasperis me chamaram pouca atenção, fora os versos finais de 'sincronicidade':

agora no meu campo de visão somente 16 bonecas
para serem decapitadas: uma a cada 30 minutos de
espera. é possível que sobrem algumas se tudo
correr bem. Que sorte.

Já a prosa está bem em campo com os contos 'muito lindo o carinha' de Letícia Palmeira e 'estranhos em terra estranha', de Alfredo Albuquerque.

Sintam o drama do apuro gráfico do "tr3sdoi2"
Aliás, que conto o do Alfredo. Uma história de canibalismo com uma pegada bem 'Os Livros de Sangue', do Clive Barker, umas duas ou três construções que eu não usaria, mas no final um resultado bem acima da média.

O que chama a atenção na iniciativa de Albuquerque é que a tecnologias digitais não precisam necessariamente ser o inimigo vindo do estrangeiro que matou nosso amigo, o fanzine. O apuro técnico do Tr3sdoi2, com seu projetinho gráfico bem definido e agradável de ler e manusear, aponta como o computador pode quebrar aquele galho para quem quiser montar sua própria publicação – nesse caso, ajuda pra caralho manjar desse lance de design para impressos, como o Albuquerque mostra em seu trabalho. Aliás o diálogo com o mundo digital começa já na seleção dos textos. Um mamão lava a outra.

***

Capa do 'Com Carinho': simplesmente foda
o detalhe do arame da encadernação
Que me perdoem Abimael Silva e Carlos Fialho, mas o principal lançamento editorial potiguar de 2012 partiu de dois moleques punheteiros sem grana pra comprar um grampeador.


Pelo menos é o que querem nos fazer crer Beto Leite e Ramon Ribeiro, filhotes desgarrados da revista Catorze com o zine Com Carinho, lançado durante a Virada Cultural Internacional da Rua Chile, no ano passado.

Projeto gráfico tosco-conceitual, na ida e na volta
Tudo em Com Carinho é tosco: do papelão grosso à tipografia dos créditos, passando pelos desenhos e a encadernação feita com pedaços de arame entortados na base do alicate. Mas não se engane: há uma certa sofisticação à Joãozinho Trinta por trás de tanto descuido.

É um plano maquiavélico, explicitado na página de abertura:

“Você faz uma busca por rabiscos guardados em gavetas e cadernos velhos da faculdade. Você junta aquilo tudo. Faz uma bola de papel amassado. Perto da barata morta. A bola cai no chão. Você levanta chateado. Apanha aquela tralha. A barata. E com ela na palma da mão, o estalo. Aquela vontade de fazer um fanzine. A vontade que nunca some. Que vai e vem. Como os mendigos da rua, a prostituta da esquina e o urubu no céu. Que se aproxima e pousa na janela do quarto.”

Mas essa vontade louca não é só tempestade e ímpeto: todo o desleixo, o papel meticulosamente amassado e rasgado a mão, os desenhos mal acabados de colorido borrado fazem de 'Com Carinho' um zine-conceito, cuja própria manufatura dialoga com sua proposta poética marginal, falsamente naïf.

Os textos, todos eles, levam a sério a intenção ‘visceral’ de seus autores: é no corpo que tudo se resolve, seja o sexo, a fome, a violência ou, quem sabe, o tédio aquilo que move os personagens.

Um achado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

lábias que beijei


Poema da boca
(inútil chamá-lo de outro nome
este será sempre o poema da boca)

para uma breve boca

o rascunho do desejo
rabisca a boca inacabada

a língua, trêmula, sonha
com outra língua, impossível

e essa tua boca tão próxima,
disponível

ah, inacessível boca
inexpugnáveis lábios
intransponíveis dentes
sólidas salivas

(tão pouca boca para tanto desejo)

o desejo, humilhado,
se dá por vencido

lábios ansiosos delimitam a carnificina
que se anuncia:
abertura inicial, orifício sem data, cavidade superior,
cabo das tormentas, escarpa lisa, istmo do panamá, ventos
elísios, terra do fogo, fenda úmida, caminhos para as índias,
cumes elevados, estreito de gibraltar, nascente pra dentro,
carne inútil, sombra furiosa, sulco erótico, secreção labial,
cratera rubra, rio sem margem, escavação lingüística,
passagem de nível, vulcão de vapores, rachadura cósmica,
buraco das araras, caverna mágica, península contrária,
geleira intransponível, curativo falante, nuvem de carnes,
abismo colossal, pico de luz, planta carnívora, furacão, vale
encharcado, vereda úmida, falha geológica na cordilheira da
face, falsa falésia, pétala carnuda, vulva superior

boca proibida, cara lambida,
poema destrambelhado, ladeira abaixo

(eu quero é me afogar nesse
pântano de cuspes)

tua boca me deve um beijo,
a boca ri, marota
a boca ri, safada

(o poema da boca se fecha em si mesmo)

***

esse poema é de nicolas behr, mas, na falta de um mimeógrafo, agora é da gente também. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

pagode indie

apenas ouçam esse tributo ao Raça Negra (!!!) gravado por bandas do cenário independente do rock brasileiro.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

As mênades


Conto publicado numa Palumbo aí, não lembro qual. 

***

O álcool diluía em suas veias quantidades generosas de metanfetaminas, antidepressivos, estimulantes, psicoativos, alucinógenos e o que mais enfeitasse prateleiras de farmácia com uma tarja preta sensual. Dava para sentir o sangue circulando, como se brincasse de tobogã, milhares de minúsculas agulhas de gelo trespassando o corpo rumo à superfície da pele. Pode parecer estranho, mas era uma sensação gostosa.

A porta tremia a cada batida da música e a vidraça da janela zumbia levemente. Mesmo com a festa rolando no outro cômodo, o som quase não entrava no quarto. Parecia vir de muito longe. Ou ela nem tinha mais certeza do que ouvia. Se já esteve tão chapada, foi em outra vida. Seus pensamentos, no entanto, eram claros como há muito tempo. Ela sabia o que deveria fazer agora.

***

O tédio tirou Alice de casa ao entardecer. Primeiro passou pelos botecos conhecidos, à procura de uma paquera. Uns rapazes bonitos chamaram a atenção, mas a conversa era uma merda. Pediu para ir ao banheiro, pagou a conta no balcão e saiu sem se despedir.

— Que se foda. Vou descer pra Ribeira — resmungou. Quem sabe não descobriria alguma nova espelunca?

O bairro boêmio se resumia a um emaranhado de ruas estreitas e mal iluminadas com becos ainda mais estreitos e escuros que abrigavam bordéis e boates fuleiras. Os prédios, em sua maioria datados dos anos 1950, foram erguidos sobre os escombros de casas comerciais centenárias. Algumas fachadas, decadentes e moribundas, ainda exibiam traços carcomidos de art noveau, contrastando com aqueles horríveis caixotes de tijolo nu. Aqui e acolá, um cachorro, um mendigo, traficantes em suas bicicletas e peões querendo empenhar os últimos trocados numa trepada ligeira ou num porre de cachaça.

Alice passou por um carrinho de cachorro-quente onde, na calçada, o dono disputava uma partida de xadrez e com um cliente. Mas o que realmente chamou a atenção dela foi a moça que acompanhava o jogo. Seus dreadlocks loiros caíam por cima da careca raspada nas laterais da cabeça. Era bela o suficiente para Alice ficar por ali, pedir um rango e, quem sabe, trocar uma ideia.

— Você não é daqui, né? Se fosse, a gente já tinha se encontrado por aí.

— Não, não sou. Estou visitando uns amigos e vim curtir uma festa.

A moça em jeans apertados sorriu e, por um momento, Alice imaginou como seria mergulhar naquele olhar.

— Na Ribeira? Tem certeza? Não vi muito movimento hoje.

— Ou talvez não tenha procurado direito.

Trocaram olhares maliciosos. Ela não via problemas em curtir com outras garotas. Geralmente era mais divertido do que parar num motel barato com algum bêbado dorminhoco. A moça parece que sacou.

— Meu nome é Silene. Escuta, sei que a gente nem se conhece direito, mas duvido que você tenha saído de casa hoje para encontrar conhecidos. Não quer ir comigo até lá? — o sorriso dela derreteria gelo suficiente para elevar o nível dos mares em meio metro. Alice topou na hora.

Atravessaram um beco cheio de entulhos, fedendo a merda e mijo, para alcançar uma viela próxima ao rio. A região portuária do bairro era ainda mais decadente. Mesmo conhecendo  o pedaço, Alice estranhou aquele caminho. Silene parecia seguir para os cabarés. Eram lugares pequenos, lotados de putas velhas e bêbadas escanchadas sobre cadeiras de plástico, sorvendo doses de campari ao som de bregas antigos.

Chegaram a um prédio estreito de três andares. Nunca havia reparado no lugar antes. Silene tocou a campainha. Um segurança abriu uma portinhola e uma música abafada escorreu em busca de liberdade. Olhou para Silene, grunhiu algo e deixou-as entrar.

No primeiro andar tocava um som industrial que deixaria o Ministry parecendo Balão Mágico. O ambiente era quente e envolvido numa névoa que tanto podia ser de cigarros ou gelo seco. Estava lotado, mas Alice não conhecia aquela gente. Uma luz estroboscópica piscava num ritmo epiléptico. Dirigiram-se ao balcão, onde um barman performático distribuía drinques.

Logo, Silene dançava bem próximo a ela e começou a se esfregar nas suas pernas, enquanto os rostos se roçavam de leve. O hálito dela era perfumado e doce. Alice não lembrava de tê-la visto comendo no cachorro-quente. “Porra, devo estar com um bafo de cebola daqueles”, pensou.

Silene parecia brilhar em sua dança. Encostou o rosto em seu ouvido e sussurrou: “Você precisa se soltar mais. Estamos aqui hoje para isso.” E tascou-lhe um beijo na boca. Ok, pensou, se é assim, vamos nos soltar. Retribuiu os afagos da maneira mais lasciva que conhecia. Por um bom tempo, trocaram carícias, enquanto os braços serpenteavam pela nuca, costas, quadris, seios. Outros drinques, vários deles, vieram.

— Venha — Silene tomou-a pela mão. — Chegou a hora de irmos além.

Subiram as escadas para um corredor que levava a vários quartos sem porta. Neles, almofadas e colchões encostados nas paredes e, em cada um deles, uma mesa com uma droga diferente à disposição dos visitantes. As bandejas tinham de tudo: coisas de fumar, de cheirar, de engolir, de injetar. Um por um, elas entraram e experimentaram. Os sentidos explodiram e embotaram-se e excitaram-se e confundiram-se e alucinaram-se. Alice sorriu e amou e sofreu e gozou até não sentir mais nada, nem o chão sob seus pés. Precisava de um tempo para si, precisava ficar só. Foi quando encontrou aquele quarto, vazio, solitário e silencioso.

***

No salão, todos esperavam por ela. Alice não aparentava nenhum sinal de torpor. Seu andar era firme, altivo. Começaram a dançar ao seu redor. Bebiam e gritavam. A algaravia aumentava cada vez mais. Porém, aquilo não a assustava. Nunca esteve tão em paz consigo. Do meio da multidão, Silene veio e lambeu seu pescoço. Seu perfume parecia mel e ervas. A pancada que atingiu sua cabeça espalhou uma onda de calor e um choque elétrico por todo seu corpo. Mas não dor. Dor, nunca mais. Deitada no chão, ela sentiu as mãos e unhas dilacerando sua carne, seu sangue brotando em busca de liberdade. Naquele momento, Alice gozou como se fosse a última vez.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

poemito


tenho tido
problemas para dormir.
quando durmo,
tenho problemas
para levantar.
quando me levanto,
tenho problemas
para sair de casa.
quando saio de casa,
tenho problemas
para chegar a qualquer lugar
distante mais de 2 quarteirões.

tenho uma passeata de problemas
que, contra minha vontade,
me faz seguir adiante.


***

em colaboração do everton dantas.

domingo, 26 de agosto de 2012

mudanças no plano de voo

A partir de setembro, só irei a Natal uma vez por mês, preferencialmente no primeiro fim de semana após o pagamento, por questões financeiras.

A exceção ficará para novembro/dezembro, quando será realizado o MPBeco, e, obviamente, estarei pela cidade durante o festival.

Quaisquer programas que não permitam a participação de menores de 2 anos estão automaticamente descartados.

Cancelei o telefone que tinha do RN. Agora, só números da Paraíba. Um fixo, (83) 3578-8656, e um Oi, (83) 8767-8141.

Em dezembro, completo três anos morando em João Pessoa.

Neste período, recebi quatro visitas. Uma de meus pais.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

a força secreta daquela alegria

aos imortais

AGNELADAS

por Esmeraldo Siqueira,  em Fauna Contemporânea (1968)

Ia nascer dromedário,
Mas a parteira Maroca
Teve um susto extraordinário,
Quando viu que era uma foca.

Das verdades que revelo,
De fácil comprovação,
A mais gozada é Agnelo
Querendo bancar Dom João.

Feio por dentro e por fora
Eis Agnelo... E Eis por que
A própria mãe geme e chora
De desgosto, quando o vê.

Quer ser prefeito, o magano.
E o será, pois tem tineta.
Basta ser irmão germano
Do grande Lulu Capeta.

Há quem atribua à sina,
Chame predestinação
Viver de infâmia e rapina,
Ser político e ladrão.

Um medonho puxa-saco
Gabou-lhe o sorriso fanhoso.
Outro, o porte de macaco
Achou-lhe bonito e airoso.

reading dracula

Na verdade, relendo, mas desta vez em inglês. A primeira vez que li, há 20 anos, achei chato pra caramba. Desta, está sendo mais divertido. Acho que a tradução que arrumei não ajudou, ou faltava mais maturidade ao leitor, não sei ao certo.

Aí no capítulo 3, me deparo com esta passagem, que narra o primeiro encontro entre Jonathan Harker e as servas satânicas do Count Dracula, na Transilvânia. Ele escapa por muito pouco de ser mordido.

***

I was afraid to raise my eyelids, but looked out and saw perfectly under the lashes. The girl went on her knees, and bent over me, simply gloating. There was a deliberate voluptuousness which was both thrilling and repulsive, and as she arched her neck she actually licked her lips like an animal, till I could see in the moonlight the moisture shining on the scarlet lips and on the red tongue as it lapped the white sharp teeth. Lower and lower went her head as the lips went below the range of my mouth and chin and seemed to fasten on my throat. Then she paused, and I could hear the churning sound of her tongue as it licked her teeth and lips, and I could feel the hot breath on my neck. Then the skin of my throat began to tingle as one’s flesh does when the hand that is to tickle it approaches nearer, nearer. I could feel the soft, shivering touch of the lips on the super sensitive skin of my throat, and the hard dents of two sharp teeth, just touching and pausing there. I closed my eyes in languorous ecstasy and waited, waited with beating heart.

***

Mas, em vez de um ataque vampírico, não parece mais uma defloração?

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Alice in Wonderland

A unidade 2 do curso sobre fantasia e ficção científica teve Alice in Wonderland como objeto de estudo. Eis o ensaio que enviei. 

Está, gramaticalmente, bem pior que o primeiro, pois tive menos tempo para me dedicar a ele. Relevem, mas não deixem de apontar o que acharem muito absurdo. 

***


Since he can convince readers to keep accompanying him, a writer can do with words what he wants. Lewis Carroll was a mathematician in love with logic - and he soon realized that language had its own logic, quite different from usual.

The consensual and arbitrary nature of language is always at stake in Alice in Wonderland. Cleverly, Carroll chooses a child as the protagonist of his story, because to them this consensus is not natural as it would be for an adult. Maybe so, they seem to live in a wonderful world - and perhaps therefore Wonderland does not wonder Alice too much.

Falling through a rabbit-hole, Alice reacts naturally to the absurdity of the situation: "Down, down, down. There was nothing else to do, so Alice soon began talking again. 'Dinah'll miss me very much to-night, I should think! '(Dinah was the cat.)" (chapter 1). This passive reaction is repeated several times.

Later, we see how the consensual nature of language is explored through sound. In at least two occasions, Alice tries to recite popular stories, but words begin to change and the story gains new meanings - although original musicality be maintained. A similar situation occurs in Chapter 3, in confusion between tail and tale.

This reversal of logic, that words do not always mean what they say, appears in the Mad Hatter episode:
"'Then you should say what you mean,' the March Hare went on.
'I do,' Alice hastily replied; 'at least - at least I mean what I say - that's the same thing, you know.'
'Not the same thing a bit!' Said the Hatter. 'You might just as well say that "I see what I eat" is the same thing as "I eat what I see"!'"

Sounds and symbols, this is what words are. In right hands, they can become anything.

***

Próxima semana, Bram Stoker's Dracula.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

tom waits



Nem o bróder Luce aguentou a onda do inferno, mano.

patti smith



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há algumas semanas, ouvindo sem parar esse disco novo, Banga.

this is the girl foi escrita em memória de amy winehouse. dedicado a todas as doidinhas soltas por aí nesse mundão sem deus.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

ulisses



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trilha sonora: teddy the toad, by count basie.

Grimm's tales

Há um tempão, recebi do amigo Oswaldo Ribeiro o link para o Coursera, um site de cursos de extensão on-line promovidos por umas universidades norte-americanas bem invocadas. Passeando por lá, descobri um curso sobre Fantasy and Science Fiction: The Human Mind, Our Modern World e, bem, não resisti.

A bronca é que o bicho é meio puxado, já que estou na reta final da qualificação do mestrado. São 10 semanas e o plano de aula é ler um livro por semana e escrever um curto ensaio sobre o danado. O primeiro da lista foi o Grimm's Tales, na tradução dos irmãos Crane (na verdade, a Lucy traduziu e o Thomas ilustrou).

Segue pra vocês o primeiro ensaio. O limite são 320 palavras, fechei em 313.

***


Grimm's Tales ensure its universal character as they approached the oral literature in at least a very relevant aspect: the repetition. First, we have repetition as a discursive resource in stories. Throughout their journey, the characters are always performing the same task several times before achieving some success (usually three times), as in Rabbit's Bride, Clever Grethel, The Goose Girl and other stories.

Or, there is a recurring pattern in the actions of the characters. An Example is the mercenary in Six Soldiers of Fortune, who finds his adventure fellows always the same way: they show a different behavior that draws attention to the protagonist, reveal an extraordinary capacity and then join him. Despite its nature absolutely fantastic, this use of repetition in Grimm Tales reminds us of the monotony of everyday life, full of routines, and how things do not always succeed the first time.

There is also a kind of repetition in the story that is told, according to the nature of protagonists. These can be divided into three groups: nobles, commoners and animals or things that behave like humans.

The noble stories always involve an extraordinary mission that culminates in a marriage or a conquer, as in The Raven, Sleeping Beauty, Rapunzel and Snow White. The stories of commoners tend to have an uplifting message, exalting virtues, or recovery of cunning, like Hansel and Grethel, or Clever Grethel and Hans in Luck. The stories with anthropomorphized animals or objects highlight aspects of human nature, usually turn negative, as in The Death Of The Hen, Cat And Mouse In Partnership or The Straw The Coal, And The Bean.

Finally, we have a more subtle repetition, which is the repetition of symbols, or functions performed by these symbols in the stories. It doesn't matter what kind of object is used, they always have similar functions in different stories, reassuring their universal simbology.

***

Perdoem aí a pobreza do meu inglês. Podem corrigir-me à vontade. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

kháyyám

1

Todos sabem
que meus lábios nunca
murmuraram uma oração.

Não procurei nunca
dissimular os meus pecados.

Ignoro se existem realmente
uma Justiça e uma
Misericórdia.

Mas, se existem, não
desespero delas: fui sempre
um homem sincero.

***

2

Que vale mais?

Fazer exame da consciência
sentado na taverna,
ou prosternado na mesquita?

Não me interessa saber
se tenho um Senhor
e o destino que me reserva.

***

5

Procura ser
feliz ainda hoje,
pois não sabes o que te reserva
o dia de amanhã.

Toma uma urna cheia de
vinho, senta-te ao clarão do
luar e monologa: "Talvez
amanhã a lua me procure
em vão."

***

7

O Corão,
chamado livro supremo,
pode ser lido de vez em
quando; mas ninguém se
deleita na sua leitura,
sempre que o lê.

Na taça cheia de vinho está
gravado um texto, de tão
adorável sabedoria, que a
coca, à falta dos olhos,
lê sempre com delícia.

***

13

Deixemo-nos
de palavras vãs.

Levanta-te e dá-me
um pouco de vinho.

Esta noite tua boca é a mais
bela rosa do mundo e basta
para todos os meus desejos.

Dá-me vinho.

Que ele seja corado como as
tuas faces, e o meu remorso
será leve como as tuas tranças.

***

17

Os dias
passam rápidos
como as águas do rio
ou o vento do deserto.

Dois, há, em particular,
que me são indiferentes:
o que passou ontem,
o que virá amanhã.

***

19

Kháyyám!

Tecendo a tenda da sabedoria
caíste na fogueira do Dor
e ficaste reduzido a cinzas.

O anjo Azrael cortou as
cordas da tenda e a Morte
vendeu-a por uma canção.

***

22

Na primavera,
gosto de sentar-me
à orla de um campo florido.

Bebo o vinho que me
oferece uma linda rapariga e
não cuido de minha salvação.

Se tal pensamento me
ocupasse, eu valeria menos
que um pobre cão.

***

23

O imenso
mundo: um grão de
areia perdido no espaço.

Toda a ciência
dos homens: palavras.

Os povos, os animais e as
flores dos sete climas:
sombras.

O resultado de tua
meditação: nada.

***

36

Velho mundo
que atravessa
a galope o cavalo branco
e negro do Dia e da Noite,
és o palácio triste onde
cem Djemchids sonharam com
a glória e cem Bahrâms
sonharam com o amor, e todos
despertaram chorando.

***

63

Não temo
a Morte: prefiro
esse fato inelutável ao
outro que me foi imposto
no dia do meu nascimento.

Que é a vida?

Um bem que me confiaram
se me consultar e que
restituirei com indiferença.

***

75

Um tal
odor de vinho
emanará do meu túmulo, que
embriagará os viandantes.

Uma serenidade tal
pairará sobre a minha
sepultura, que os amantes não
poderão afastar-se dela.

***

87

Escuta um
grande segredo:
quando a primeira aurora
iluminou o mundo, Adão já
era uma criatura dolorosa,
que pedia a noite,
que ansiava pela morte.

***

94

Eis a verdade
única: - somos
os peões da misteriosa
partida de xadrez, jogada
por Deus, que nos desloca,
nos pára, nos põe mais
adiante, e depois nos recolhe
um a um à caixa do Nada.

***

96

Os sábios
não te ensinaram
coisa alguma, mas a carícia
dos longos cílios de uma
mulher poderá revelar-te
a felicidade.

Não esqueças que os teus
dias estão contados e que
serás em breve
a presa da terra.

Compra o vinho e, recolhido
ao teu canto, busca
nele o consolo.

***

105

A abóbada
celeste sob a qual
vivemos é comparável a uma
lanterna mágica,
de que o sol é a lâmpada.

E nós somos as figurinhas
que se movem.

***

116

O vinho tem
a cor das rosas.

O vinho não é talvez
o sangue das vinhas,
mas dos rosais.

Esta taça talvez não seja
de cristal, mas do próprio
azul do céu coagulado.

A noite é talvez
a pálpebra do dia.

***

136

Senhor!

Armaste mil ciladas
invisíveis no caminho
que seguimos, e disseste:
"Desgraçado o que não as evitar."

Tu vês tudo.

Tu sabes tudo.

Nada acontece sem a tua
permissão. Seremos, pois,
responsáveis
por nossos pecados?

Farás um crime
da minha revolta?

***

144

Só vês
as aparências
das coisas e dos seres.

Sabes que és ignorante, mas
não queres renunciar ao amor.

Lembra-te de que Deus fez
o amor como fez certas
plantas venenosas.

***

148

Recebi o
golpe que esperava.

Abandonou-me a
bem-amada.

Quando eu a possuía,
era-me tão fácil desprezar o
amor e exaltar todas
as renúncias!...

Junto de tua amada,
Kháyyám, como estavas só!

Sabes?

Ela se foi para que tu
possas refugiar-te nela...

***

Uma cruza de Bukowski com
algum outro cabeção
capaz de resolver equações
juntando uma hipérbole
e um círculo
Trechos do Rubáiyát, de Omar Kháyyám (1040 - 1125, ou 1048-1131 pela wikipedia), na tradução de Otávio Tarquínio de Sousa (Livraria José Olympio Editora, 1979, 15ª edição).

***

Para meu pai, Carlão.