apenas ouçam esse tributo ao Raça Negra (!!!) gravado por bandas do cenário independente do rock brasileiro.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
domingo, 30 de setembro de 2012
terça-feira, 18 de setembro de 2012
As mênades
Conto publicado numa Palumbo aí, não lembro qual.
***
O álcool diluía em suas veias quantidades generosas de metanfetaminas, antidepressivos, estimulantes, psicoativos, alucinógenos e o que mais enfeitasse prateleiras de farmácia com uma tarja preta sensual. Dava para sentir o sangue circulando, como se brincasse de tobogã, milhares de minúsculas agulhas de gelo trespassando o corpo rumo à superfície da pele. Pode parecer estranho, mas era uma sensação gostosa.
A porta tremia a cada batida da música e a vidraça da janela zumbia levemente. Mesmo com a festa rolando no outro cômodo, o som quase não entrava no quarto. Parecia vir de muito longe. Ou ela nem tinha mais certeza do que ouvia. Se já esteve tão chapada, foi em outra vida. Seus pensamentos, no entanto, eram claros como há muito tempo. Ela sabia o que deveria fazer agora.
***
O tédio tirou Alice de casa ao entardecer. Primeiro passou pelos botecos conhecidos, à procura de uma paquera. Uns rapazes bonitos chamaram a atenção, mas a conversa era uma merda. Pediu para ir ao banheiro, pagou a conta no balcão e saiu sem se despedir.
— Que se foda. Vou descer pra Ribeira — resmungou. Quem sabe não descobriria alguma nova espelunca?
O bairro boêmio se resumia a um emaranhado de ruas estreitas e mal iluminadas com becos ainda mais estreitos e escuros que abrigavam bordéis e boates fuleiras. Os prédios, em sua maioria datados dos anos 1950, foram erguidos sobre os escombros de casas comerciais centenárias. Algumas fachadas, decadentes e moribundas, ainda exibiam traços carcomidos de art noveau, contrastando com aqueles horríveis caixotes de tijolo nu. Aqui e acolá, um cachorro, um mendigo, traficantes em suas bicicletas e peões querendo empenhar os últimos trocados numa trepada ligeira ou num porre de cachaça.
Alice passou por um carrinho de cachorro-quente onde, na calçada, o dono disputava uma partida de xadrez e com um cliente. Mas o que realmente chamou a atenção dela foi a moça que acompanhava o jogo. Seus dreadlocks loiros caíam por cima da careca raspada nas laterais da cabeça. Era bela o suficiente para Alice ficar por ali, pedir um rango e, quem sabe, trocar uma ideia.
— Você não é daqui, né? Se fosse, a gente já tinha se encontrado por aí.
— Não, não sou. Estou visitando uns amigos e vim curtir uma festa.
A moça em jeans apertados sorriu e, por um momento, Alice imaginou como seria mergulhar naquele olhar.
— Na Ribeira? Tem certeza? Não vi muito movimento hoje.
— Ou talvez não tenha procurado direito.
Trocaram olhares maliciosos. Ela não via problemas em curtir com outras garotas. Geralmente era mais divertido do que parar num motel barato com algum bêbado dorminhoco. A moça parece que sacou.
— Meu nome é Silene. Escuta, sei que a gente nem se conhece direito, mas duvido que você tenha saído de casa hoje para encontrar conhecidos. Não quer ir comigo até lá? — o sorriso dela derreteria gelo suficiente para elevar o nível dos mares em meio metro. Alice topou na hora.
Atravessaram um beco cheio de entulhos, fedendo a merda e mijo, para alcançar uma viela próxima ao rio. A região portuária do bairro era ainda mais decadente. Mesmo conhecendo o pedaço, Alice estranhou aquele caminho. Silene parecia seguir para os cabarés. Eram lugares pequenos, lotados de putas velhas e bêbadas escanchadas sobre cadeiras de plástico, sorvendo doses de campari ao som de bregas antigos.
Chegaram a um prédio estreito de três andares. Nunca havia reparado no lugar antes. Silene tocou a campainha. Um segurança abriu uma portinhola e uma música abafada escorreu em busca de liberdade. Olhou para Silene, grunhiu algo e deixou-as entrar.
No primeiro andar tocava um som industrial que deixaria o Ministry parecendo Balão Mágico. O ambiente era quente e envolvido numa névoa que tanto podia ser de cigarros ou gelo seco. Estava lotado, mas Alice não conhecia aquela gente. Uma luz estroboscópica piscava num ritmo epiléptico. Dirigiram-se ao balcão, onde um barman performático distribuía drinques.
Logo, Silene dançava bem próximo a ela e começou a se esfregar nas suas pernas, enquanto os rostos se roçavam de leve. O hálito dela era perfumado e doce. Alice não lembrava de tê-la visto comendo no cachorro-quente. “Porra, devo estar com um bafo de cebola daqueles”, pensou.
Silene parecia brilhar em sua dança. Encostou o rosto em seu ouvido e sussurrou: “Você precisa se soltar mais. Estamos aqui hoje para isso.” E tascou-lhe um beijo na boca. Ok, pensou, se é assim, vamos nos soltar. Retribuiu os afagos da maneira mais lasciva que conhecia. Por um bom tempo, trocaram carícias, enquanto os braços serpenteavam pela nuca, costas, quadris, seios. Outros drinques, vários deles, vieram.
— Venha — Silene tomou-a pela mão. — Chegou a hora de irmos além.
Subiram as escadas para um corredor que levava a vários quartos sem porta. Neles, almofadas e colchões encostados nas paredes e, em cada um deles, uma mesa com uma droga diferente à disposição dos visitantes. As bandejas tinham de tudo: coisas de fumar, de cheirar, de engolir, de injetar. Um por um, elas entraram e experimentaram. Os sentidos explodiram e embotaram-se e excitaram-se e confundiram-se e alucinaram-se. Alice sorriu e amou e sofreu e gozou até não sentir mais nada, nem o chão sob seus pés. Precisava de um tempo para si, precisava ficar só. Foi quando encontrou aquele quarto, vazio, solitário e silencioso.
***
No salão, todos esperavam por ela. Alice não aparentava nenhum sinal de torpor. Seu andar era firme, altivo. Começaram a dançar ao seu redor. Bebiam e gritavam. A algaravia aumentava cada vez mais. Porém, aquilo não a assustava. Nunca esteve tão em paz consigo. Do meio da multidão, Silene veio e lambeu seu pescoço. Seu perfume parecia mel e ervas. A pancada que atingiu sua cabeça espalhou uma onda de calor e um choque elétrico por todo seu corpo. Mas não dor. Dor, nunca mais. Deitada no chão, ela sentiu as mãos e unhas dilacerando sua carne, seu sangue brotando em busca de liberdade. Naquele momento, Alice gozou como se fosse a última vez.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
poemito
tenho tido
problemas para dormir.
quando durmo,
tenho problemas
para levantar.
quando me levanto,
tenho problemas
para sair de casa.
quando saio de casa,
tenho problemas
para chegar a qualquer lugar
distante mais de 2 quarteirões.
tenho uma passeata de problemas
que, contra minha vontade,
me faz seguir adiante.
***
em colaboração do everton dantas.
domingo, 26 de agosto de 2012
mudanças no plano de voo
A partir de setembro, só irei a Natal uma vez por mês, preferencialmente no primeiro fim de semana após o pagamento, por questões financeiras.
A exceção ficará para novembro/dezembro, quando será realizado o MPBeco, e, obviamente, estarei pela cidade durante o festival.
Quaisquer programas que não permitam a participação de menores de 2 anos estão automaticamente descartados.
Cancelei o telefone que tinha do RN. Agora, só números da Paraíba. Um fixo, (83) 3578-8656, e um Oi, (83) 8767-8141.
Em dezembro, completo três anos morando em João Pessoa.
Neste período, recebi quatro visitas. Uma de meus pais.
A exceção ficará para novembro/dezembro, quando será realizado o MPBeco, e, obviamente, estarei pela cidade durante o festival.
Quaisquer programas que não permitam a participação de menores de 2 anos estão automaticamente descartados.
Cancelei o telefone que tinha do RN. Agora, só números da Paraíba. Um fixo, (83) 3578-8656, e um Oi, (83) 8767-8141.
Em dezembro, completo três anos morando em João Pessoa.
Neste período, recebi quatro visitas. Uma de meus pais.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
aos imortais
AGNELADAS
por Esmeraldo Siqueira, em Fauna Contemporânea (1968)
Ia nascer dromedário,
Mas a parteira Maroca
Teve um susto extraordinário,
Quando viu que era uma foca.
Das verdades que revelo,
De fácil comprovação,
A mais gozada é Agnelo
Querendo bancar Dom João.
Feio por dentro e por fora
Eis Agnelo... E Eis por que
A própria mãe geme e chora
De desgosto, quando o vê.
Quer ser prefeito, o magano.
E o será, pois tem tineta.
Basta ser irmão germano
Do grande Lulu Capeta.
Há quem atribua à sina,
Chame predestinação
Viver de infâmia e rapina,
Ser político e ladrão.
Um medonho puxa-saco
Gabou-lhe o sorriso fanhoso.
Outro, o porte de macaco
Achou-lhe bonito e airoso.
por Esmeraldo Siqueira, em Fauna Contemporânea (1968)
Ia nascer dromedário,
Mas a parteira Maroca
Teve um susto extraordinário,
Quando viu que era uma foca.
Das verdades que revelo,
De fácil comprovação,
A mais gozada é Agnelo
Querendo bancar Dom João.
Feio por dentro e por fora
Eis Agnelo... E Eis por que
A própria mãe geme e chora
De desgosto, quando o vê.
Quer ser prefeito, o magano.
E o será, pois tem tineta.
Basta ser irmão germano
Do grande Lulu Capeta.
Há quem atribua à sina,
Chame predestinação
Viver de infâmia e rapina,
Ser político e ladrão.
Um medonho puxa-saco
Gabou-lhe o sorriso fanhoso.
Outro, o porte de macaco
Achou-lhe bonito e airoso.
reading dracula
Na verdade, relendo, mas desta vez em inglês. A primeira vez que li, há 20 anos, achei chato pra caramba. Desta, está sendo mais divertido. Acho que a tradução que arrumei não ajudou, ou faltava mais maturidade ao leitor, não sei ao certo.
Aí no capítulo 3, me deparo com esta passagem, que narra o primeiro encontro entre Jonathan Harker e as servas satânicas do Count Dracula, na Transilvânia. Ele escapa por muito pouco de ser mordido.
***
I was afraid to raise my eyelids, but looked out and saw perfectly under the lashes. The girl went on her knees, and bent over me, simply gloating. There was a deliberate voluptuousness which was both thrilling and repulsive, and as she arched her neck she actually licked her lips like an animal, till I could see in the moonlight the moisture shining on the scarlet lips and on the red tongue as it lapped the white sharp teeth. Lower and lower went her head as the lips went below the range of my mouth and chin and seemed to fasten on my throat. Then she paused, and I could hear the churning sound of her tongue as it licked her teeth and lips, and I could feel the hot breath on my neck. Then the skin of my throat began to tingle as one’s flesh does when the hand that is to tickle it approaches nearer, nearer. I could feel the soft, shivering touch of the lips on the super sensitive skin of my throat, and the hard dents of two sharp teeth, just touching and pausing there. I closed my eyes in languorous ecstasy and waited, waited with beating heart.
***
Mas, em vez de um ataque vampírico, não parece mais uma defloração?
Aí no capítulo 3, me deparo com esta passagem, que narra o primeiro encontro entre Jonathan Harker e as servas satânicas do Count Dracula, na Transilvânia. Ele escapa por muito pouco de ser mordido.
***
I was afraid to raise my eyelids, but looked out and saw perfectly under the lashes. The girl went on her knees, and bent over me, simply gloating. There was a deliberate voluptuousness which was both thrilling and repulsive, and as she arched her neck she actually licked her lips like an animal, till I could see in the moonlight the moisture shining on the scarlet lips and on the red tongue as it lapped the white sharp teeth. Lower and lower went her head as the lips went below the range of my mouth and chin and seemed to fasten on my throat. Then she paused, and I could hear the churning sound of her tongue as it licked her teeth and lips, and I could feel the hot breath on my neck. Then the skin of my throat began to tingle as one’s flesh does when the hand that is to tickle it approaches nearer, nearer. I could feel the soft, shivering touch of the lips on the super sensitive skin of my throat, and the hard dents of two sharp teeth, just touching and pausing there. I closed my eyes in languorous ecstasy and waited, waited with beating heart.
***
Mas, em vez de um ataque vampírico, não parece mais uma defloração?
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Alice in Wonderland
A unidade 2 do curso sobre fantasia e ficção científica teve Alice in Wonderland como objeto de estudo. Eis o ensaio que enviei.
Está, gramaticalmente, bem pior que o primeiro, pois tive menos tempo para me dedicar a ele. Relevem, mas não deixem de apontar o que acharem muito absurdo.
***
Since he can convince readers to keep accompanying him, a writer can do with words what he wants. Lewis Carroll was a mathematician in love with logic - and he soon realized that language had its own logic, quite different from usual.
The consensual and arbitrary nature of language is always at stake in Alice in Wonderland. Cleverly, Carroll chooses a child as the protagonist of his story, because to them this consensus is not natural as it would be for an adult. Maybe so, they seem to live in a wonderful world - and perhaps therefore Wonderland does not wonder Alice too much.
Falling through a rabbit-hole, Alice reacts naturally to the absurdity of the situation: "Down, down, down. There was nothing else to do, so Alice soon began talking again. 'Dinah'll miss me very much to-night, I should think! '(Dinah was the cat.)" (chapter 1). This passive reaction is repeated several times.
Later, we see how the consensual nature of language is explored through sound. In at least two occasions, Alice tries to recite popular stories, but words begin to change and the story gains new meanings - although original musicality be maintained. A similar situation occurs in Chapter 3, in confusion between tail and tale.
This reversal of logic, that words do not always mean what they say, appears in the Mad Hatter episode:
"'Then you should say what you mean,' the March Hare went on.
'I do,' Alice hastily replied; 'at least - at least I mean what I say - that's the same thing, you know.'
'Not the same thing a bit!' Said the Hatter. 'You might just as well say that "I see what I eat" is the same thing as "I eat what I see"!'"
Sounds and symbols, this is what words are. In right hands, they can become anything.
***
Próxima semana, Bram Stoker's Dracula.
Está, gramaticalmente, bem pior que o primeiro, pois tive menos tempo para me dedicar a ele. Relevem, mas não deixem de apontar o que acharem muito absurdo.
***
Since he can convince readers to keep accompanying him, a writer can do with words what he wants. Lewis Carroll was a mathematician in love with logic - and he soon realized that language had its own logic, quite different from usual.
The consensual and arbitrary nature of language is always at stake in Alice in Wonderland. Cleverly, Carroll chooses a child as the protagonist of his story, because to them this consensus is not natural as it would be for an adult. Maybe so, they seem to live in a wonderful world - and perhaps therefore Wonderland does not wonder Alice too much.
Falling through a rabbit-hole, Alice reacts naturally to the absurdity of the situation: "Down, down, down. There was nothing else to do, so Alice soon began talking again. 'Dinah'll miss me very much to-night, I should think! '(Dinah was the cat.)" (chapter 1). This passive reaction is repeated several times.
Later, we see how the consensual nature of language is explored through sound. In at least two occasions, Alice tries to recite popular stories, but words begin to change and the story gains new meanings - although original musicality be maintained. A similar situation occurs in Chapter 3, in confusion between tail and tale.
This reversal of logic, that words do not always mean what they say, appears in the Mad Hatter episode:
"'Then you should say what you mean,' the March Hare went on.
'I do,' Alice hastily replied; 'at least - at least I mean what I say - that's the same thing, you know.'
'Not the same thing a bit!' Said the Hatter. 'You might just as well say that "I see what I eat" is the same thing as "I eat what I see"!'"
Sounds and symbols, this is what words are. In right hands, they can become anything.
***
Próxima semana, Bram Stoker's Dracula.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
patti smith
***
há algumas semanas, ouvindo sem parar esse disco novo, Banga.
this is the girl foi escrita em memória de amy winehouse. dedicado a todas as doidinhas soltas por aí nesse mundão sem deus.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Grimm's tales
Há um tempão, recebi do amigo Oswaldo Ribeiro o link para o Coursera, um site de cursos de extensão on-line promovidos por umas universidades norte-americanas bem invocadas. Passeando por lá, descobri um curso sobre Fantasy and Science Fiction: The Human Mind, Our Modern World e, bem, não resisti.
A bronca é que o bicho é meio puxado, já que estou na reta final da qualificação do mestrado. São 10 semanas e o plano de aula é ler um livro por semana e escrever um curto ensaio sobre o danado. O primeiro da lista foi o Grimm's Tales, na tradução dos irmãos Crane (na verdade, a Lucy traduziu e o Thomas ilustrou).
Segue pra vocês o primeiro ensaio. O limite são 320 palavras, fechei em 313.
***
Grimm's Tales ensure its universal character as they approached the oral literature in at least a very relevant aspect: the repetition. First, we have repetition as a discursive resource in stories. Throughout their journey, the characters are always performing the same task several times before achieving some success (usually three times), as in Rabbit's Bride, Clever Grethel, The Goose Girl and other stories.
Or, there is a recurring pattern in the actions of the characters. An Example is the mercenary in Six Soldiers of Fortune, who finds his adventure fellows always the same way: they show a different behavior that draws attention to the protagonist, reveal an extraordinary capacity and then join him. Despite its nature absolutely fantastic, this use of repetition in Grimm Tales reminds us of the monotony of everyday life, full of routines, and how things do not always succeed the first time.
There is also a kind of repetition in the story that is told, according to the nature of protagonists. These can be divided into three groups: nobles, commoners and animals or things that behave like humans.
The noble stories always involve an extraordinary mission that culminates in a marriage or a conquer, as in The Raven, Sleeping Beauty, Rapunzel and Snow White. The stories of commoners tend to have an uplifting message, exalting virtues, or recovery of cunning, like Hansel and Grethel, or Clever Grethel and Hans in Luck. The stories with anthropomorphized animals or objects highlight aspects of human nature, usually turn negative, as in The Death Of The Hen, Cat And Mouse In Partnership or The Straw The Coal, And The Bean.
Finally, we have a more subtle repetition, which is the repetition of symbols, or functions performed by these symbols in the stories. It doesn't matter what kind of object is used, they always have similar functions in different stories, reassuring their universal simbology.
A bronca é que o bicho é meio puxado, já que estou na reta final da qualificação do mestrado. São 10 semanas e o plano de aula é ler um livro por semana e escrever um curto ensaio sobre o danado. O primeiro da lista foi o Grimm's Tales, na tradução dos irmãos Crane (na verdade, a Lucy traduziu e o Thomas ilustrou).
Segue pra vocês o primeiro ensaio. O limite são 320 palavras, fechei em 313.
***
Grimm's Tales ensure its universal character as they approached the oral literature in at least a very relevant aspect: the repetition. First, we have repetition as a discursive resource in stories. Throughout their journey, the characters are always performing the same task several times before achieving some success (usually three times), as in Rabbit's Bride, Clever Grethel, The Goose Girl and other stories.
Or, there is a recurring pattern in the actions of the characters. An Example is the mercenary in Six Soldiers of Fortune, who finds his adventure fellows always the same way: they show a different behavior that draws attention to the protagonist, reveal an extraordinary capacity and then join him. Despite its nature absolutely fantastic, this use of repetition in Grimm Tales reminds us of the monotony of everyday life, full of routines, and how things do not always succeed the first time.
There is also a kind of repetition in the story that is told, according to the nature of protagonists. These can be divided into three groups: nobles, commoners and animals or things that behave like humans.
The noble stories always involve an extraordinary mission that culminates in a marriage or a conquer, as in The Raven, Sleeping Beauty, Rapunzel and Snow White. The stories of commoners tend to have an uplifting message, exalting virtues, or recovery of cunning, like Hansel and Grethel, or Clever Grethel and Hans in Luck. The stories with anthropomorphized animals or objects highlight aspects of human nature, usually turn negative, as in The Death Of The Hen, Cat And Mouse In Partnership or The Straw The Coal, And The Bean.
Finally, we have a more subtle repetition, which is the repetition of symbols, or functions performed by these symbols in the stories. It doesn't matter what kind of object is used, they always have similar functions in different stories, reassuring their universal simbology.
***
Perdoem aí a pobreza do meu inglês. Podem corrigir-me à vontade.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
kháyyám
1
Todos sabem
que meus lábios nunca
murmuraram uma oração.
Não procurei nunca
dissimular os meus pecados.
Ignoro se existem realmente
uma Justiça e uma
Misericórdia.
Mas, se existem, não
desespero delas: fui sempre
um homem sincero.
***
2
Que vale mais?
Fazer exame da consciência
sentado na taverna,
ou prosternado na mesquita?
Não me interessa saber
se tenho um Senhor
e o destino que me reserva.
***
5
Procura ser
feliz ainda hoje,
pois não sabes o que te reserva
o dia de amanhã.
Toma uma urna cheia de
vinho, senta-te ao clarão do
luar e monologa: "Talvez
amanhã a lua me procure
em vão."
***
7
O Corão,
chamado livro supremo,
pode ser lido de vez em
quando; mas ninguém se
deleita na sua leitura,
sempre que o lê.
Na taça cheia de vinho está
gravado um texto, de tão
adorável sabedoria, que a
coca, à falta dos olhos,
lê sempre com delícia.
***
13
Deixemo-nos
de palavras vãs.
Levanta-te e dá-me
um pouco de vinho.
Esta noite tua boca é a mais
bela rosa do mundo e basta
para todos os meus desejos.
Dá-me vinho.
Que ele seja corado como as
tuas faces, e o meu remorso
será leve como as tuas tranças.
***
17
Os dias
passam rápidos
como as águas do rio
ou o vento do deserto.
Dois, há, em particular,
que me são indiferentes:
o que passou ontem,
o que virá amanhã.
***
19
Kháyyám!
Tecendo a tenda da sabedoria
caíste na fogueira do Dor
e ficaste reduzido a cinzas.
O anjo Azrael cortou as
cordas da tenda e a Morte
vendeu-a por uma canção.
***
22
Na primavera,
gosto de sentar-me
à orla de um campo florido.
Bebo o vinho que me
oferece uma linda rapariga e
não cuido de minha salvação.
Se tal pensamento me
ocupasse, eu valeria menos
que um pobre cão.
***
23
O imenso
mundo: um grão de
areia perdido no espaço.
Toda a ciência
dos homens: palavras.
Os povos, os animais e as
flores dos sete climas:
sombras.
O resultado de tua
meditação: nada.
***
36
Velho mundo
que atravessa
a galope o cavalo branco
e negro do Dia e da Noite,
és o palácio triste onde
cem Djemchids sonharam com
a glória e cem Bahrâms
sonharam com o amor, e todos
despertaram chorando.
***
63
Não temo
a Morte: prefiro
esse fato inelutável ao
outro que me foi imposto
no dia do meu nascimento.
Que é a vida?
Um bem que me confiaram
se me consultar e que
restituirei com indiferença.
***
75
Um tal
odor de vinho
emanará do meu túmulo, que
embriagará os viandantes.
Uma serenidade tal
pairará sobre a minha
sepultura, que os amantes não
poderão afastar-se dela.
***
87
Escuta um
grande segredo:
quando a primeira aurora
iluminou o mundo, Adão já
era uma criatura dolorosa,
que pedia a noite,
que ansiava pela morte.
***
94
Eis a verdade
única: - somos
os peões da misteriosa
partida de xadrez, jogada
por Deus, que nos desloca,
nos pára, nos põe mais
adiante, e depois nos recolhe
um a um à caixa do Nada.
***
96
Os sábios
não te ensinaram
coisa alguma, mas a carícia
dos longos cílios de uma
mulher poderá revelar-te
a felicidade.
Não esqueças que os teus
dias estão contados e que
serás em breve
a presa da terra.
Compra o vinho e, recolhido
ao teu canto, busca
nele o consolo.
***
105
A abóbada
celeste sob a qual
vivemos é comparável a uma
lanterna mágica,
de que o sol é a lâmpada.
E nós somos as figurinhas
que se movem.
***
116
O vinho tem
a cor das rosas.
O vinho não é talvez
o sangue das vinhas,
mas dos rosais.
Esta taça talvez não seja
de cristal, mas do próprio
azul do céu coagulado.
A noite é talvez
a pálpebra do dia.
***
136
Senhor!
Armaste mil ciladas
invisíveis no caminho
que seguimos, e disseste:
"Desgraçado o que não as evitar."
Tu vês tudo.
Tu sabes tudo.
Nada acontece sem a tua
permissão. Seremos, pois,
responsáveis
por nossos pecados?
Farás um crime
da minha revolta?
***
144
Só vês
as aparências
das coisas e dos seres.
Sabes que és ignorante, mas
não queres renunciar ao amor.
Lembra-te de que Deus fez
o amor como fez certas
plantas venenosas.
***
148
Recebi o
golpe que esperava.
Abandonou-me a
bem-amada.
Quando eu a possuía,
era-me tão fácil desprezar o
amor e exaltar todas
as renúncias!...
Junto de tua amada,
Kháyyám, como estavas só!
Sabes?
Ela se foi para que tu
possas refugiar-te nela...
***
Trechos do Rubáiyát, de Omar Kháyyám (1040 - 1125, ou 1048-1131 pela wikipedia), na tradução de Otávio Tarquínio de Sousa (Livraria José Olympio Editora, 1979, 15ª edição).
***
Para meu pai, Carlão.
Todos sabem
que meus lábios nunca
murmuraram uma oração.
Não procurei nunca
dissimular os meus pecados.
Ignoro se existem realmente
uma Justiça e uma
Misericórdia.
Mas, se existem, não
desespero delas: fui sempre
um homem sincero.
***
2
Que vale mais?
Fazer exame da consciência
sentado na taverna,
ou prosternado na mesquita?
Não me interessa saber
se tenho um Senhor
e o destino que me reserva.
***
5
Procura ser
feliz ainda hoje,
pois não sabes o que te reserva
o dia de amanhã.
Toma uma urna cheia de
vinho, senta-te ao clarão do
luar e monologa: "Talvez
amanhã a lua me procure
em vão."
***
7
O Corão,
chamado livro supremo,
pode ser lido de vez em
quando; mas ninguém se
deleita na sua leitura,
sempre que o lê.
Na taça cheia de vinho está
gravado um texto, de tão
adorável sabedoria, que a
coca, à falta dos olhos,
lê sempre com delícia.
***
13
Deixemo-nos
de palavras vãs.
Levanta-te e dá-me
um pouco de vinho.
Esta noite tua boca é a mais
bela rosa do mundo e basta
para todos os meus desejos.
Dá-me vinho.
Que ele seja corado como as
tuas faces, e o meu remorso
será leve como as tuas tranças.
***
17
Os dias
passam rápidos
como as águas do rio
ou o vento do deserto.
Dois, há, em particular,
que me são indiferentes:
o que passou ontem,
o que virá amanhã.
***
19
Kháyyám!
Tecendo a tenda da sabedoria
caíste na fogueira do Dor
e ficaste reduzido a cinzas.
O anjo Azrael cortou as
cordas da tenda e a Morte
vendeu-a por uma canção.
***
22
Na primavera,
gosto de sentar-me
à orla de um campo florido.
Bebo o vinho que me
oferece uma linda rapariga e
não cuido de minha salvação.
Se tal pensamento me
ocupasse, eu valeria menos
que um pobre cão.
***
23
O imenso
mundo: um grão de
areia perdido no espaço.
Toda a ciência
dos homens: palavras.
Os povos, os animais e as
flores dos sete climas:
sombras.
O resultado de tua
meditação: nada.
***
36
Velho mundo
que atravessa
a galope o cavalo branco
e negro do Dia e da Noite,
és o palácio triste onde
cem Djemchids sonharam com
a glória e cem Bahrâms
sonharam com o amor, e todos
despertaram chorando.
***
63
Não temo
a Morte: prefiro
esse fato inelutável ao
outro que me foi imposto
no dia do meu nascimento.
Que é a vida?
Um bem que me confiaram
se me consultar e que
restituirei com indiferença.
***
75
Um tal
odor de vinho
emanará do meu túmulo, que
embriagará os viandantes.
Uma serenidade tal
pairará sobre a minha
sepultura, que os amantes não
poderão afastar-se dela.
***
87
Escuta um
grande segredo:
quando a primeira aurora
iluminou o mundo, Adão já
era uma criatura dolorosa,
que pedia a noite,
que ansiava pela morte.
***
94
Eis a verdade
única: - somos
os peões da misteriosa
partida de xadrez, jogada
por Deus, que nos desloca,
nos pára, nos põe mais
adiante, e depois nos recolhe
um a um à caixa do Nada.
***
96
Os sábios
não te ensinaram
coisa alguma, mas a carícia
dos longos cílios de uma
mulher poderá revelar-te
a felicidade.
Não esqueças que os teus
dias estão contados e que
serás em breve
a presa da terra.
Compra o vinho e, recolhido
ao teu canto, busca
nele o consolo.
***
105
A abóbada
celeste sob a qual
vivemos é comparável a uma
lanterna mágica,
de que o sol é a lâmpada.
E nós somos as figurinhas
que se movem.
***
116
O vinho tem
a cor das rosas.
O vinho não é talvez
o sangue das vinhas,
mas dos rosais.
Esta taça talvez não seja
de cristal, mas do próprio
azul do céu coagulado.
A noite é talvez
a pálpebra do dia.
***
136
Senhor!
Armaste mil ciladas
invisíveis no caminho
que seguimos, e disseste:
"Desgraçado o que não as evitar."
Tu vês tudo.
Tu sabes tudo.
Nada acontece sem a tua
permissão. Seremos, pois,
responsáveis
por nossos pecados?
Farás um crime
da minha revolta?
***
144
Só vês
as aparências
das coisas e dos seres.
Sabes que és ignorante, mas
não queres renunciar ao amor.
Lembra-te de que Deus fez
o amor como fez certas
plantas venenosas.
***
148
Recebi o
golpe que esperava.
Abandonou-me a
bem-amada.
Quando eu a possuía,
era-me tão fácil desprezar o
amor e exaltar todas
as renúncias!...
Junto de tua amada,
Kháyyám, como estavas só!
Sabes?
Ela se foi para que tu
possas refugiar-te nela...
***
| Uma cruza de Bukowski com algum outro cabeção capaz de resolver equações juntando uma hipérbole e um círculo |
***
Para meu pai, Carlão.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Sobre blogs e jornalistas
Tenho acompanhado nos últimos tempos umas tretas envolvendo jornalistas e blogueiros potiguares que, se observadas atentamente, podem revelar uns indícios interessantes de como se dão as relações entre profissionais da imprensa.
Primeiro, um pouco de contexto. No Brasil, consolidou-se um sentimento de categoria entre os jornalistas cujo elemento central, nos últimos anos, passa pela ridícula defesa de uma tal obrigatoriedade de diploma universitário para o exercício profissional.
Jornalista é um bicho engraçado. Ele tenta, há mais ou menos uns 150 anos, justificar a existência do que faz como um campo profissional específico. Esse também é o tempo que esses profissionais tentam, sem sucesso, definir o que realmente fazem.
Pergunte para 20 jornalistas 'o que é notícia' e, se ninguém tiver lido algum livro sobre o assunto nos últimos 15 dias (o que ninguém realmente fez), você terá 20 respostas diferentes, e em várias delas esse vai ser um conceito bem frouxo – o que significa que essa deficiência não tem muito a ver com a qualidade da formação acadêmica recebida (afinal, nem todo mundo teve uma graduação fuleira como a minha).
Como resultado dessa inconsistência, tenta-se compensá-la por outros meios, como a balela ideológica de que o jornalismo é um 'serviço público em defesa do cidadão' – faceta que raramente se concretiza na prática diária. No Brasil, essa equação ganha um complemento com uma forte cultura corporativista.
Há 45 anos, a Lei de Imprensa, criada pela ditadura militar, inventou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Como o regime tinha o controle sobre as universidades, era uma maneira de manter sob supervisão direta os futuros profissionais responsáveis por reportar à sociedade as ações dos generais.
A derrubada da obrigatoriedade pelo STF, há 3 anos, reacendeu o combalido espírito de luta dos jornalistas brasileiros, uma vez que salários e condições de trabalho não são problemas em nosso país.
***
Aqui vale uma ressalva acerca do curso: é evidente que a passagem pela universidade possibilita uma melhor formação profissional. Como certa vez argumentou um amigo, um curso superior é como um guia de leitura – ajuda a tornar o caminho mais curto. Mas essa é uma questão que diz respeito a cada um, não pode ser tomada como pré-requisito para entrada no mercado de trabalho. Pelo menos, não no caso do jornalista e de boa parte das profissões ligadas às ciências humanas. Se acesso à informação é direito fundamental do cidadão, por que informar deve ser prerrogativa exclusiva de algum profissional?
***
Estabeleceu-se, assim, um sentimento de clubinho entre os profissionais da imprensa muito comum, por exemplo, a campos profissionais mais tradicionais e conservadores como o direito e a medicina. Interessante notar como, especificamente no caso do Rio Grande do Norte, isso se manifesta na relação dos jornalistas profissionais com seus 'companheiros' do meio digital, os blogueiros.
Citarei alguns episódios e farei referências a nomes dos envolvidos. De antemão, alerto que não se trata de recriminação a quaisquer deles em particular, mas apenas a necessidade de ilustrar um quadro geral de práticas e relações que chamaram a atenção.
***
Há um tempo, um conhecido empreendedor natalense, Bruno Giovanni, resolveu montar um blog jornalístico, seguindo uma fórmula já caduca no jornalismo potiguar: o uso indiscriminado da tesoura press e de uma agenda recheada de contatos 'quentes', ou seja: da fina burguesia com quem ele convive diuturnamente. Trocando em miúdos, resolveu fazer o que 78,9% das colunas noticiosas dos veículos da grande imprensa e 98,7% dos blogs jornalísticos da calipígica Natal fazem.
Confesso que, nos primeiros dias, não me contive em tirar uma casquinha e malhar o cara. Afinal, quem esse rapaz pensa que é para criar um blogue e sair por aí dando uma de jornalista fodão, sem nunca ter pisado numa redação na vida, ou ter estudado para isso (e olha que eu nem sabia se ele era jornalista formado ou não – aliás, nem sei)? Vi esse tipo de atitude em vários colegas que trabalham em redação e culminou com um (pra variar) bem-humorado artigo de Carlos Fialho sobre os erros de ortografia perpetrados pelo BG. Artigo, por sinal, louvado à exaustão.
Depois, pensando bem, percebi que, guardadas as devidas proporções e respeitando as particularidades de cada um, em que o Blog do BG se diferencia de outros blogs mantidos por jornalistas 'de verdade e de direito' como Thaisa Galvão, Ricardo Rosado, Eliana Lima, Túlio Lemos, Leonardo Sodré, Carlos A. Barbosa (cito amigos, conhecidos e desconhecidos sem distinção pra todo mundo poder ficar com raivinha) entre dezenas de outros, se as práticas editoriais deles na maioria dos casos são iguais?
Quer dizer, quais deles são realmente 'produtores de conteúdo' (como está na moda hoje) em vez de 'entulhadores de conteúdo' (essa é minha), salvo as exceções de praxe numa postagem aqui e acolá? Talvez o problema, para os coleguinhas sangue-puro, esteja não exatamente nas postagens meio sem noção do Blog do BG, mas nos diversos anúncios colocados entre elas...
***
Ontem, o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte (Sindjorn) emitiu uma nota de repúdio em solidariedade aos jornalistas-blogueiros Thaisa Galvão e Ricardo Rosado, atacados em seu 'dever de informar o público' por outra nota de repúdio assinada pela Associação dos Magistrados do RN (Amarn) – que, por sinal, reclama de uma 'violação às prerrogativas da magistratura' por parte dos jornalistas.
Essa merece uma vista d'olhos à parte. Primeiro, me parece evidente que a nota do Sindjorn só nasceu para rebater a outra. Um lance meio que rinha de galo entre entidades profissionais, do tipo 'meu repúdio é maior que o seu'. Segundo, a pobre da Thaisa Galvão entrou de gaiata nessa: ela só reproduziu o material publicado pelo Fator RRH, o que deveria ter motivado a inclusão aí de mais uns 40 blogueiros na nota. Tem ainda o interessante desapreço das entidades representativas dos juízes e jornalistas pelo uso correto da norma culta da língua portuguesa – instrumento do qual tiram o pão de cada dia. Mas essa polêmica deixo para os linguístas (v. Novo Acordo Ortográfico) de plantão.
Fiz um breve levantamento (vulgo 'dei uma googlada') das últimas notas de repúdio emitidas pelo Sindjorn. É sintomático que tive de recorrer ao Google em busca dessa informação justo porque o site do Sindjorn encontra-se fora do ar e seu perfil no Twitter esteja inativo (ora, ora) desde que o STJ derrubou a obrigatoriedade do diploma, em 2009.
Localizei sete delas no período entre 2010 e 2011. Parece que a resposta à Amarn é a abrideira de 2012. Seis delas foram em defesa de jornalistas ameaçados ou cerceados durante o exercício profissional. Todos profissionais de veículos tradicionais da mídia (TV, rádio, jornal). A restante, e a mais justificada, sobre o assassinato do radialista caicoense F. Gomes.
Logo, a nota envolvendo Rosado e Galvão é a primeira da entidade em defesa de blogueiros, ou 'jornalistas digitais'. Antes dessa, apenas a nota de setembro de 2010 faz referência a episódio envolvendo Zenaide Castro do portal Nominuto.
Os três, jornalistas 'de verdade e de direito': o primeiro foi professor de 80% dos profissionais existentes na praça; Thaisa Galvão tem mais de 20 anos de trabalho nas costas e passou por grandes redações de Natal (e me perdoem aqui pelo paradoxo de emendar 'grandes' e 'Natal' na mesma sentença). Zenaide trabalhava numa empresa jornalística voltada para internet, criada e mantida por jornalistas formados.
No entanto, casos anteriores envolvendo blogueiros de menor porte e envergadura não mereceram atenção da entidade no mesmo período. Primeiro, tivemos em 2010 a agressão ao jornalista Alisson Almeida pelo colega de profissão Eugênio Bezerra, que à época ocupava uma subsecretaria na prefeitura da capital. Para além de uma rixa pessoal, houve uma motivação política no caso, devido às críticas recorrentes de Almeida à gestão da qual Bezerra fazia parte.
Outra situação em que o Sindjorn silenciou foi durante uma estranha perseguição sofrida pelo jornalista Daniel Dantas Lemos, este ano, após ele divulgar gravações referentes ao que ele próprio batizou como Caixa 2 do DEM, em que figuras proeminentes no atual Poder Executivo combinavam valores a pagar durante a campanha eleitoral de 2006.
Aqui, mais um adendo. O assunto, quentíssimo, inexiste na 'imprensa oficial' potiguar e parece ser de propriedade exclusiva da blogosfera. A única referência, torta, surgiu na Tribuna do Norte, porém o cerne da abordagem limitava-se a auto-defesa do Ministério Público sobre a natureza dos vazamentos. Sobre o caso em si, necas. No RN, ainda impera a lógica de 'se não saiu na Globo, não existe'.
Por fim, o Sindicato calou vergonhosamente sobre o assassinato do blogueiro Edinaldo Filgueira, no município de Serra do Mel. Independente de ser uma rixa partidária que passou para o plano pessoal, dá para acreditar que Filgueira teria sido assassinado se não usasse seu blog como veículo para suas opiniões e para informar, a seu modo, a população de sua cidade? Em que isso não seria jornalismo? Seria o fato de ele não trabalhar para um veículo? De não ter diploma? Isso não é um pouco menor do que o sacrossanto 'direito à informação e à liberdade de expressão'? Pois é.
Em que a morte de Edinaldo Filgueira é menor que a de F. Gomes?
***
No geral, há, no clubinho dos profissionais da imprensa, uma visão negativa e excludente em relação aos blogs de cunho jornalístico e àqueles que os fazem mesmo sendo de fora da turma. No RN, essa animosidade contra o BG e o comportamento institucional do sindicato da categoria são indícios desse comportamento.
Talvez seja uma reação ao ambiente de instabilidade e incerteza instaurado pela explosão do acesso às redes digitais. O mais evidente deles é em relação à receita que mantém os veículos e paga o salário da galera. Se esse dinheiro for parar em outros cantos e se pulverizar, quem vai segurar a onda?
***
O que se deveria realmente temer em relação à internet é a radicalização do fetiche da velocidade no trabalho jornalístico. A necessidade de se 'produzir conteúdo' cada vez mais rápido para alimentar blogs, portais e quetais vem matando a galinha dos ovos de ouro ideológico do jornalismo: o 'compromisso com a verdade dos fatos'.
Que fatos: aqueles repassados pela assessoria sobre um assunto que você nem entende, nem tem tempo de ir atrás de alguém que lhe explique o que significa? Ou aquele que explode na sua caixa de e-mail ou do outro lado do seu celular e que você precisa publicar o quanto antes, mas o ideal seria levantar seu rabinho da cadeira e dar uma volta para verificar a informação?
Retomando o gancho desse artigo, há algo no caso Sindjorn x Amarn algo que passou ao largo. Ricardo Rosado errou ao publicar o texto que motivou a primeira nota. Não porque tenha envolvido o tal juiz e sua mulher, até porque 90% desses caras do Judiciário são babacas empedernidos que se acham intocáveis (pena que não seja no sentido hindu do termo). Ele errou porque publicou primeiro para depois checar – ou como parece ser regra agora: abrir espaço para a outra parte se defender.
Apontar o erro é desumano, mas todo mundo erra. Durante o exercício da profissão, já matei até quem tava vivo – o que, convenhamos, é muito pior do que dar um tirinho de leve na reputação de um magistrado. Então, nenhuma vergonha sobre Rosado por isso. Mas é preciso entender que, dentro da lógica atual do mercado de notícias, o que ele fez foi bem justificável.
Afinal, era uma informação quente, que atingia indiretamente um player de peso nas próximas eleições (o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves) e que poderia muito bem, a qualquer momento, ser publicada por algum outro blogue com incontinência noticiosa. Além do mais, rendeu várias postagens posteriores com desmentidos e rementidos, e repercussão pesada na blogosfera potiguar.
Pena que, no caminho, estejamos deixando para trás a única coisa que justifica a nossa existência como campo profissional: a nossa ideologia para pegar bestas.
***
O mais engraçado de tudo? A única postagem que vi apontando o erro de Rosado foi no Blog do BG. O cara que não sabe escrever direito.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Leituras - Wolfe - II
Vamos ao nosso segundo round.
***
WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
De qualquer modo, [Jimmy] Breslin fez uma descoberta revolucionária. Descobriu que era possível um colunista efetivamente sair do prédio, ir para a rua e fazer uma reportagem com suas próprias e legítimas pernas. [...] Por mais óbvio que pareça, esse sistema era algo inusitado entre colunistas de jornal, locais ou nacionais. Se é que é possível, colunistas locais são ainda mais patéticos. Em geral começam cheios de energia, soando como tremendos homens da rua e narradores, recontando em letra de imprensa todas as maravilhosas mots e anedotas que vêm babando no almoço durante os últimos anos. Depois de oito ou dez semanas, porém, começam a secar. [...] Estão sem assunto. Começam a escrever sobre coisas engraçadas que aconteceram em casa outro dia, gracinhas domésticas da Cara-Metade ou da moça da Avon, ou algum livro ou artigo fascinante que lhes deu o que pensar, ou alguma coisa que viram na televisão. Demos graças a Deus pela televisão! Sem os programas de televisão para canibalizar, metade dessa gente estaria perdida, totalmente catatônica. (p. 23-24)
Breslin tornou uma prática sua chegar ao local muito antes do evento principal, a fim de coletar material por trás das câmeras, o jogo da sala de maquiagem, que lhe permitia criar personagens. (p. 26)
***
Já trabalhou na imprensa? Então esse cenário não lhe é estranho. Vi muito isso - e como o jornalismo de coluna era previsível e enfadonho - na imprensa potiguar. Aqui, na Paraíba, como não tenho obrigação profissional de acompanhar os jornais locais, nem faço questão de observar. Apesar disso, é considerado o suprassumo em questão de status profissional. Seu nome tá lá todo dia, sendo louvado pelos seus pares, mas basta um pouco de semancol para se perceber que, para estar morto, só faltou o enterro.
O modus operandi de Breslin acabou virando uma regra de ouro do jornalismo criativo (ou literário, como queiram) - na verdade, todos os caras faziam isso, mas ele inovou ao levar a técnica para a coluna.
***
Os literatos ignoravam esse lado do Novo Jornalismo, porque faz parte das suposições da crítica moderna que esse material cru simplesmente está "lá". É "dado". [...] A noção moderna de arte é essencialmente religiosa ou mágica, e segundo ela o artista é visto como uma fera sagrada que, de alguma forma, grande ou pequena, recebe relances da divindade conhecida como criatividade. (p. 27)
É difícil explicar como era esse artigo. Era um bazar de quintal, esse texto... vinhetas, retalhos de erudição, trechos de memórias, breves explosões de sociologia, apóstrofes, epítetos, gemidos, risos, qualquer coisa que me viesse à cabeça, grande parte jogada de um jeito áspero e deselegante. [...] O que me interessava não era simplesmente a descoberta da possibilidade de escrever não-ficção apurada com técnicas em geral associadas ao romance e ao conto. [...] Era a descoberta de que era possível na não-ficção, no jornalismo, usar qualquer recurso literário, dos dialogismos tradicionais do ensaio ao fluxo de consciência [...]. (p.28)
Gostava da ideia de deixar o leitor, via narrador, falar com os personagens, intimidá-los, insultá-los, provocá-los com ironia ou condescendência, ou seja lá o que for. Por que o leitor teria de se limitar a ficar ali quieto e deixar essa gente passar num tropel como se sua cabeça fosse a catraca do metrô? [...] Escrevia sobre mim mesmo na terceira pessoa, geralmente como um espectador perplexo ou alguém que estava no caminho, o que acontecia com frequência. [...] qualquer coisa para não aparecer o narrador de não-ficção comum, com voz velada, como o narrador de uma partida de tênis pelo rádio. (p. 31)
A voz do narrador, na verdade, era um dos maiores problemas na escritura de não-ficção. [...] O negócio era o understatement [discrição]. [...] o problema é que no começo dos anos 60 o undestatement havia se transformado numa verdadeira mortalha. [...] Isso nada tinha a ver com objetividade e subjetividade, ou com assumir uma posição ou "compromisso" - era uma questão de personalidade, de energia, de tendência, de bravura.... numa palavra, de estilo... (p. 32)
***
Wolfe fala descreve algumas técnicas literárias utilizadas em suas reportagens, mas antes retoma a questão da alteração no status quo promovida pelo Novo Jornalismo. O que chama a atenção é a quantidade de técnicas distintas encadeadas em textos relativamente curtos. Revela um certo maneirismo do autor, como aqueles músicos virtuoses que desfiam centenas de notas em questões de segundos.
A palavra que me vem à mente é bricolagem. Essas aspecto artesanal, de combinar elementos que estão à mão, esse bricoleur contemporâneo emprestado de Lévi-Strauss, como quer Traquina, são comuns tanto ao jornalista quanto ao autor cyberpunk, basta lembrar do motto do movimento: 'A rua encontra seus usos para a tecnologia'.
***
Eles estavam indo além dos limites convencionais do jornalismo, mas não apenas em termos de técnica. O tipo de reportagem que faziam aprecia muito mais ambicioso também para eles. Era mais intenso, mais detalhado e sem dúvida mais exigente em termos de tempo do que qualquer coisa que repórteres de jornais e revistas, inclusive repórteres investigativos, estavam acostumados a fazer. [...] Parecia absolutamente importante estar ali quando ocorressem cenas dramáticas, para captar o diálogo, os gestos, as expressões faciais, os detalhes do ambiente. (p. 37)
***
Uma questão me veio lendo esse trecho. Vivemos numa época de ubiquidade dos dispositivos de comunicação. Os celulares, tablets, câmeras de segurança e quetais estão por toda parte. Os fatos de quase toda natureza podem facilmente cair no alcance do público a qualquer momento, muitas vezes por diferentes ângulos, com imagem e som. Nesse domínio audiovisual da informação, em que a imagem se propõe irrefutável (mesmo nãos endo), como tornar o texto relevante? Seria o resgate desse enfoque do Novo Jornalismo uma saída?
***
WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
De qualquer modo, [Jimmy] Breslin fez uma descoberta revolucionária. Descobriu que era possível um colunista efetivamente sair do prédio, ir para a rua e fazer uma reportagem com suas próprias e legítimas pernas. [...] Por mais óbvio que pareça, esse sistema era algo inusitado entre colunistas de jornal, locais ou nacionais. Se é que é possível, colunistas locais são ainda mais patéticos. Em geral começam cheios de energia, soando como tremendos homens da rua e narradores, recontando em letra de imprensa todas as maravilhosas mots e anedotas que vêm babando no almoço durante os últimos anos. Depois de oito ou dez semanas, porém, começam a secar. [...] Estão sem assunto. Começam a escrever sobre coisas engraçadas que aconteceram em casa outro dia, gracinhas domésticas da Cara-Metade ou da moça da Avon, ou algum livro ou artigo fascinante que lhes deu o que pensar, ou alguma coisa que viram na televisão. Demos graças a Deus pela televisão! Sem os programas de televisão para canibalizar, metade dessa gente estaria perdida, totalmente catatônica. (p. 23-24)
Breslin tornou uma prática sua chegar ao local muito antes do evento principal, a fim de coletar material por trás das câmeras, o jogo da sala de maquiagem, que lhe permitia criar personagens. (p. 26)
***
Já trabalhou na imprensa? Então esse cenário não lhe é estranho. Vi muito isso - e como o jornalismo de coluna era previsível e enfadonho - na imprensa potiguar. Aqui, na Paraíba, como não tenho obrigação profissional de acompanhar os jornais locais, nem faço questão de observar. Apesar disso, é considerado o suprassumo em questão de status profissional. Seu nome tá lá todo dia, sendo louvado pelos seus pares, mas basta um pouco de semancol para se perceber que, para estar morto, só faltou o enterro.
O modus operandi de Breslin acabou virando uma regra de ouro do jornalismo criativo (ou literário, como queiram) - na verdade, todos os caras faziam isso, mas ele inovou ao levar a técnica para a coluna.
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Os literatos ignoravam esse lado do Novo Jornalismo, porque faz parte das suposições da crítica moderna que esse material cru simplesmente está "lá". É "dado". [...] A noção moderna de arte é essencialmente religiosa ou mágica, e segundo ela o artista é visto como uma fera sagrada que, de alguma forma, grande ou pequena, recebe relances da divindade conhecida como criatividade. (p. 27)
É difícil explicar como era esse artigo. Era um bazar de quintal, esse texto... vinhetas, retalhos de erudição, trechos de memórias, breves explosões de sociologia, apóstrofes, epítetos, gemidos, risos, qualquer coisa que me viesse à cabeça, grande parte jogada de um jeito áspero e deselegante. [...] O que me interessava não era simplesmente a descoberta da possibilidade de escrever não-ficção apurada com técnicas em geral associadas ao romance e ao conto. [...] Era a descoberta de que era possível na não-ficção, no jornalismo, usar qualquer recurso literário, dos dialogismos tradicionais do ensaio ao fluxo de consciência [...]. (p.28)
Gostava da ideia de deixar o leitor, via narrador, falar com os personagens, intimidá-los, insultá-los, provocá-los com ironia ou condescendência, ou seja lá o que for. Por que o leitor teria de se limitar a ficar ali quieto e deixar essa gente passar num tropel como se sua cabeça fosse a catraca do metrô? [...] Escrevia sobre mim mesmo na terceira pessoa, geralmente como um espectador perplexo ou alguém que estava no caminho, o que acontecia com frequência. [...] qualquer coisa para não aparecer o narrador de não-ficção comum, com voz velada, como o narrador de uma partida de tênis pelo rádio. (p. 31)
A voz do narrador, na verdade, era um dos maiores problemas na escritura de não-ficção. [...] O negócio era o understatement [discrição]. [...] o problema é que no começo dos anos 60 o undestatement havia se transformado numa verdadeira mortalha. [...] Isso nada tinha a ver com objetividade e subjetividade, ou com assumir uma posição ou "compromisso" - era uma questão de personalidade, de energia, de tendência, de bravura.... numa palavra, de estilo... (p. 32)
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Wolfe fala descreve algumas técnicas literárias utilizadas em suas reportagens, mas antes retoma a questão da alteração no status quo promovida pelo Novo Jornalismo. O que chama a atenção é a quantidade de técnicas distintas encadeadas em textos relativamente curtos. Revela um certo maneirismo do autor, como aqueles músicos virtuoses que desfiam centenas de notas em questões de segundos.
A palavra que me vem à mente é bricolagem. Essas aspecto artesanal, de combinar elementos que estão à mão, esse bricoleur contemporâneo emprestado de Lévi-Strauss, como quer Traquina, são comuns tanto ao jornalista quanto ao autor cyberpunk, basta lembrar do motto do movimento: 'A rua encontra seus usos para a tecnologia'.
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Eles estavam indo além dos limites convencionais do jornalismo, mas não apenas em termos de técnica. O tipo de reportagem que faziam aprecia muito mais ambicioso também para eles. Era mais intenso, mais detalhado e sem dúvida mais exigente em termos de tempo do que qualquer coisa que repórteres de jornais e revistas, inclusive repórteres investigativos, estavam acostumados a fazer. [...] Parecia absolutamente importante estar ali quando ocorressem cenas dramáticas, para captar o diálogo, os gestos, as expressões faciais, os detalhes do ambiente. (p. 37)
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Uma questão me veio lendo esse trecho. Vivemos numa época de ubiquidade dos dispositivos de comunicação. Os celulares, tablets, câmeras de segurança e quetais estão por toda parte. Os fatos de quase toda natureza podem facilmente cair no alcance do público a qualquer momento, muitas vezes por diferentes ângulos, com imagem e som. Nesse domínio audiovisual da informação, em que a imagem se propõe irrefutável (mesmo nãos endo), como tornar o texto relevante? Seria o resgate desse enfoque do Novo Jornalismo uma saída?
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