quinta-feira, 28 de junho de 2012
resposta
Nosso artigo de ontem rendeu uma resposta do jornalista Carlos A. Barbosa, que mantém o Blog do Barbosa. Confiram.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Sobre blogs e jornalistas
Tenho acompanhado nos últimos tempos umas tretas envolvendo jornalistas e blogueiros potiguares que, se observadas atentamente, podem revelar uns indícios interessantes de como se dão as relações entre profissionais da imprensa.
Primeiro, um pouco de contexto. No Brasil, consolidou-se um sentimento de categoria entre os jornalistas cujo elemento central, nos últimos anos, passa pela ridícula defesa de uma tal obrigatoriedade de diploma universitário para o exercício profissional.
Jornalista é um bicho engraçado. Ele tenta, há mais ou menos uns 150 anos, justificar a existência do que faz como um campo profissional específico. Esse também é o tempo que esses profissionais tentam, sem sucesso, definir o que realmente fazem.
Pergunte para 20 jornalistas 'o que é notícia' e, se ninguém tiver lido algum livro sobre o assunto nos últimos 15 dias (o que ninguém realmente fez), você terá 20 respostas diferentes, e em várias delas esse vai ser um conceito bem frouxo – o que significa que essa deficiência não tem muito a ver com a qualidade da formação acadêmica recebida (afinal, nem todo mundo teve uma graduação fuleira como a minha).
Como resultado dessa inconsistência, tenta-se compensá-la por outros meios, como a balela ideológica de que o jornalismo é um 'serviço público em defesa do cidadão' – faceta que raramente se concretiza na prática diária. No Brasil, essa equação ganha um complemento com uma forte cultura corporativista.
Há 45 anos, a Lei de Imprensa, criada pela ditadura militar, inventou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Como o regime tinha o controle sobre as universidades, era uma maneira de manter sob supervisão direta os futuros profissionais responsáveis por reportar à sociedade as ações dos generais.
A derrubada da obrigatoriedade pelo STF, há 3 anos, reacendeu o combalido espírito de luta dos jornalistas brasileiros, uma vez que salários e condições de trabalho não são problemas em nosso país.
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Aqui vale uma ressalva acerca do curso: é evidente que a passagem pela universidade possibilita uma melhor formação profissional. Como certa vez argumentou um amigo, um curso superior é como um guia de leitura – ajuda a tornar o caminho mais curto. Mas essa é uma questão que diz respeito a cada um, não pode ser tomada como pré-requisito para entrada no mercado de trabalho. Pelo menos, não no caso do jornalista e de boa parte das profissões ligadas às ciências humanas. Se acesso à informação é direito fundamental do cidadão, por que informar deve ser prerrogativa exclusiva de algum profissional?
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Estabeleceu-se, assim, um sentimento de clubinho entre os profissionais da imprensa muito comum, por exemplo, a campos profissionais mais tradicionais e conservadores como o direito e a medicina. Interessante notar como, especificamente no caso do Rio Grande do Norte, isso se manifesta na relação dos jornalistas profissionais com seus 'companheiros' do meio digital, os blogueiros.
Citarei alguns episódios e farei referências a nomes dos envolvidos. De antemão, alerto que não se trata de recriminação a quaisquer deles em particular, mas apenas a necessidade de ilustrar um quadro geral de práticas e relações que chamaram a atenção.
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Há um tempo, um conhecido empreendedor natalense, Bruno Giovanni, resolveu montar um blog jornalístico, seguindo uma fórmula já caduca no jornalismo potiguar: o uso indiscriminado da tesoura press e de uma agenda recheada de contatos 'quentes', ou seja: da fina burguesia com quem ele convive diuturnamente. Trocando em miúdos, resolveu fazer o que 78,9% das colunas noticiosas dos veículos da grande imprensa e 98,7% dos blogs jornalísticos da calipígica Natal fazem.
Confesso que, nos primeiros dias, não me contive em tirar uma casquinha e malhar o cara. Afinal, quem esse rapaz pensa que é para criar um blogue e sair por aí dando uma de jornalista fodão, sem nunca ter pisado numa redação na vida, ou ter estudado para isso (e olha que eu nem sabia se ele era jornalista formado ou não – aliás, nem sei)? Vi esse tipo de atitude em vários colegas que trabalham em redação e culminou com um (pra variar) bem-humorado artigo de Carlos Fialho sobre os erros de ortografia perpetrados pelo BG. Artigo, por sinal, louvado à exaustão.
Depois, pensando bem, percebi que, guardadas as devidas proporções e respeitando as particularidades de cada um, em que o Blog do BG se diferencia de outros blogs mantidos por jornalistas 'de verdade e de direito' como Thaisa Galvão, Ricardo Rosado, Eliana Lima, Túlio Lemos, Leonardo Sodré, Carlos A. Barbosa (cito amigos, conhecidos e desconhecidos sem distinção pra todo mundo poder ficar com raivinha) entre dezenas de outros, se as práticas editoriais deles na maioria dos casos são iguais?
Quer dizer, quais deles são realmente 'produtores de conteúdo' (como está na moda hoje) em vez de 'entulhadores de conteúdo' (essa é minha), salvo as exceções de praxe numa postagem aqui e acolá? Talvez o problema, para os coleguinhas sangue-puro, esteja não exatamente nas postagens meio sem noção do Blog do BG, mas nos diversos anúncios colocados entre elas...
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Ontem, o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte (Sindjorn) emitiu uma nota de repúdio em solidariedade aos jornalistas-blogueiros Thaisa Galvão e Ricardo Rosado, atacados em seu 'dever de informar o público' por outra nota de repúdio assinada pela Associação dos Magistrados do RN (Amarn) – que, por sinal, reclama de uma 'violação às prerrogativas da magistratura' por parte dos jornalistas.
Essa merece uma vista d'olhos à parte. Primeiro, me parece evidente que a nota do Sindjorn só nasceu para rebater a outra. Um lance meio que rinha de galo entre entidades profissionais, do tipo 'meu repúdio é maior que o seu'. Segundo, a pobre da Thaisa Galvão entrou de gaiata nessa: ela só reproduziu o material publicado pelo Fator RRH, o que deveria ter motivado a inclusão aí de mais uns 40 blogueiros na nota. Tem ainda o interessante desapreço das entidades representativas dos juízes e jornalistas pelo uso correto da norma culta da língua portuguesa – instrumento do qual tiram o pão de cada dia. Mas essa polêmica deixo para os linguístas (v. Novo Acordo Ortográfico) de plantão.
Fiz um breve levantamento (vulgo 'dei uma googlada') das últimas notas de repúdio emitidas pelo Sindjorn. É sintomático que tive de recorrer ao Google em busca dessa informação justo porque o site do Sindjorn encontra-se fora do ar e seu perfil no Twitter esteja inativo (ora, ora) desde que o STJ derrubou a obrigatoriedade do diploma, em 2009.
Localizei sete delas no período entre 2010 e 2011. Parece que a resposta à Amarn é a abrideira de 2012. Seis delas foram em defesa de jornalistas ameaçados ou cerceados durante o exercício profissional. Todos profissionais de veículos tradicionais da mídia (TV, rádio, jornal). A restante, e a mais justificada, sobre o assassinato do radialista caicoense F. Gomes.
Logo, a nota envolvendo Rosado e Galvão é a primeira da entidade em defesa de blogueiros, ou 'jornalistas digitais'. Antes dessa, apenas a nota de setembro de 2010 faz referência a episódio envolvendo Zenaide Castro do portal Nominuto.
Os três, jornalistas 'de verdade e de direito': o primeiro foi professor de 80% dos profissionais existentes na praça; Thaisa Galvão tem mais de 20 anos de trabalho nas costas e passou por grandes redações de Natal (e me perdoem aqui pelo paradoxo de emendar 'grandes' e 'Natal' na mesma sentença). Zenaide trabalhava numa empresa jornalística voltada para internet, criada e mantida por jornalistas formados.
No entanto, casos anteriores envolvendo blogueiros de menor porte e envergadura não mereceram atenção da entidade no mesmo período. Primeiro, tivemos em 2010 a agressão ao jornalista Alisson Almeida pelo colega de profissão Eugênio Bezerra, que à época ocupava uma subsecretaria na prefeitura da capital. Para além de uma rixa pessoal, houve uma motivação política no caso, devido às críticas recorrentes de Almeida à gestão da qual Bezerra fazia parte.
Outra situação em que o Sindjorn silenciou foi durante uma estranha perseguição sofrida pelo jornalista Daniel Dantas Lemos, este ano, após ele divulgar gravações referentes ao que ele próprio batizou como Caixa 2 do DEM, em que figuras proeminentes no atual Poder Executivo combinavam valores a pagar durante a campanha eleitoral de 2006.
Aqui, mais um adendo. O assunto, quentíssimo, inexiste na 'imprensa oficial' potiguar e parece ser de propriedade exclusiva da blogosfera. A única referência, torta, surgiu na Tribuna do Norte, porém o cerne da abordagem limitava-se a auto-defesa do Ministério Público sobre a natureza dos vazamentos. Sobre o caso em si, necas. No RN, ainda impera a lógica de 'se não saiu na Globo, não existe'.
Por fim, o Sindicato calou vergonhosamente sobre o assassinato do blogueiro Edinaldo Filgueira, no município de Serra do Mel. Independente de ser uma rixa partidária que passou para o plano pessoal, dá para acreditar que Filgueira teria sido assassinado se não usasse seu blog como veículo para suas opiniões e para informar, a seu modo, a população de sua cidade? Em que isso não seria jornalismo? Seria o fato de ele não trabalhar para um veículo? De não ter diploma? Isso não é um pouco menor do que o sacrossanto 'direito à informação e à liberdade de expressão'? Pois é.
Em que a morte de Edinaldo Filgueira é menor que a de F. Gomes?
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No geral, há, no clubinho dos profissionais da imprensa, uma visão negativa e excludente em relação aos blogs de cunho jornalístico e àqueles que os fazem mesmo sendo de fora da turma. No RN, essa animosidade contra o BG e o comportamento institucional do sindicato da categoria são indícios desse comportamento.
Talvez seja uma reação ao ambiente de instabilidade e incerteza instaurado pela explosão do acesso às redes digitais. O mais evidente deles é em relação à receita que mantém os veículos e paga o salário da galera. Se esse dinheiro for parar em outros cantos e se pulverizar, quem vai segurar a onda?
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O que se deveria realmente temer em relação à internet é a radicalização do fetiche da velocidade no trabalho jornalístico. A necessidade de se 'produzir conteúdo' cada vez mais rápido para alimentar blogs, portais e quetais vem matando a galinha dos ovos de ouro ideológico do jornalismo: o 'compromisso com a verdade dos fatos'.
Que fatos: aqueles repassados pela assessoria sobre um assunto que você nem entende, nem tem tempo de ir atrás de alguém que lhe explique o que significa? Ou aquele que explode na sua caixa de e-mail ou do outro lado do seu celular e que você precisa publicar o quanto antes, mas o ideal seria levantar seu rabinho da cadeira e dar uma volta para verificar a informação?
Retomando o gancho desse artigo, há algo no caso Sindjorn x Amarn algo que passou ao largo. Ricardo Rosado errou ao publicar o texto que motivou a primeira nota. Não porque tenha envolvido o tal juiz e sua mulher, até porque 90% desses caras do Judiciário são babacas empedernidos que se acham intocáveis (pena que não seja no sentido hindu do termo). Ele errou porque publicou primeiro para depois checar – ou como parece ser regra agora: abrir espaço para a outra parte se defender.
Apontar o erro é desumano, mas todo mundo erra. Durante o exercício da profissão, já matei até quem tava vivo – o que, convenhamos, é muito pior do que dar um tirinho de leve na reputação de um magistrado. Então, nenhuma vergonha sobre Rosado por isso. Mas é preciso entender que, dentro da lógica atual do mercado de notícias, o que ele fez foi bem justificável.
Afinal, era uma informação quente, que atingia indiretamente um player de peso nas próximas eleições (o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves) e que poderia muito bem, a qualquer momento, ser publicada por algum outro blogue com incontinência noticiosa. Além do mais, rendeu várias postagens posteriores com desmentidos e rementidos, e repercussão pesada na blogosfera potiguar.
Pena que, no caminho, estejamos deixando para trás a única coisa que justifica a nossa existência como campo profissional: a nossa ideologia para pegar bestas.
***
O mais engraçado de tudo? A única postagem que vi apontando o erro de Rosado foi no Blog do BG. O cara que não sabe escrever direito.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Leituras - Wolfe - II
Vamos ao nosso segundo round.
***
WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
De qualquer modo, [Jimmy] Breslin fez uma descoberta revolucionária. Descobriu que era possível um colunista efetivamente sair do prédio, ir para a rua e fazer uma reportagem com suas próprias e legítimas pernas. [...] Por mais óbvio que pareça, esse sistema era algo inusitado entre colunistas de jornal, locais ou nacionais. Se é que é possível, colunistas locais são ainda mais patéticos. Em geral começam cheios de energia, soando como tremendos homens da rua e narradores, recontando em letra de imprensa todas as maravilhosas mots e anedotas que vêm babando no almoço durante os últimos anos. Depois de oito ou dez semanas, porém, começam a secar. [...] Estão sem assunto. Começam a escrever sobre coisas engraçadas que aconteceram em casa outro dia, gracinhas domésticas da Cara-Metade ou da moça da Avon, ou algum livro ou artigo fascinante que lhes deu o que pensar, ou alguma coisa que viram na televisão. Demos graças a Deus pela televisão! Sem os programas de televisão para canibalizar, metade dessa gente estaria perdida, totalmente catatônica. (p. 23-24)
Breslin tornou uma prática sua chegar ao local muito antes do evento principal, a fim de coletar material por trás das câmeras, o jogo da sala de maquiagem, que lhe permitia criar personagens. (p. 26)
***
Já trabalhou na imprensa? Então esse cenário não lhe é estranho. Vi muito isso - e como o jornalismo de coluna era previsível e enfadonho - na imprensa potiguar. Aqui, na Paraíba, como não tenho obrigação profissional de acompanhar os jornais locais, nem faço questão de observar. Apesar disso, é considerado o suprassumo em questão de status profissional. Seu nome tá lá todo dia, sendo louvado pelos seus pares, mas basta um pouco de semancol para se perceber que, para estar morto, só faltou o enterro.
O modus operandi de Breslin acabou virando uma regra de ouro do jornalismo criativo (ou literário, como queiram) - na verdade, todos os caras faziam isso, mas ele inovou ao levar a técnica para a coluna.
***
Os literatos ignoravam esse lado do Novo Jornalismo, porque faz parte das suposições da crítica moderna que esse material cru simplesmente está "lá". É "dado". [...] A noção moderna de arte é essencialmente religiosa ou mágica, e segundo ela o artista é visto como uma fera sagrada que, de alguma forma, grande ou pequena, recebe relances da divindade conhecida como criatividade. (p. 27)
É difícil explicar como era esse artigo. Era um bazar de quintal, esse texto... vinhetas, retalhos de erudição, trechos de memórias, breves explosões de sociologia, apóstrofes, epítetos, gemidos, risos, qualquer coisa que me viesse à cabeça, grande parte jogada de um jeito áspero e deselegante. [...] O que me interessava não era simplesmente a descoberta da possibilidade de escrever não-ficção apurada com técnicas em geral associadas ao romance e ao conto. [...] Era a descoberta de que era possível na não-ficção, no jornalismo, usar qualquer recurso literário, dos dialogismos tradicionais do ensaio ao fluxo de consciência [...]. (p.28)
Gostava da ideia de deixar o leitor, via narrador, falar com os personagens, intimidá-los, insultá-los, provocá-los com ironia ou condescendência, ou seja lá o que for. Por que o leitor teria de se limitar a ficar ali quieto e deixar essa gente passar num tropel como se sua cabeça fosse a catraca do metrô? [...] Escrevia sobre mim mesmo na terceira pessoa, geralmente como um espectador perplexo ou alguém que estava no caminho, o que acontecia com frequência. [...] qualquer coisa para não aparecer o narrador de não-ficção comum, com voz velada, como o narrador de uma partida de tênis pelo rádio. (p. 31)
A voz do narrador, na verdade, era um dos maiores problemas na escritura de não-ficção. [...] O negócio era o understatement [discrição]. [...] o problema é que no começo dos anos 60 o undestatement havia se transformado numa verdadeira mortalha. [...] Isso nada tinha a ver com objetividade e subjetividade, ou com assumir uma posição ou "compromisso" - era uma questão de personalidade, de energia, de tendência, de bravura.... numa palavra, de estilo... (p. 32)
***
Wolfe fala descreve algumas técnicas literárias utilizadas em suas reportagens, mas antes retoma a questão da alteração no status quo promovida pelo Novo Jornalismo. O que chama a atenção é a quantidade de técnicas distintas encadeadas em textos relativamente curtos. Revela um certo maneirismo do autor, como aqueles músicos virtuoses que desfiam centenas de notas em questões de segundos.
A palavra que me vem à mente é bricolagem. Essas aspecto artesanal, de combinar elementos que estão à mão, esse bricoleur contemporâneo emprestado de Lévi-Strauss, como quer Traquina, são comuns tanto ao jornalista quanto ao autor cyberpunk, basta lembrar do motto do movimento: 'A rua encontra seus usos para a tecnologia'.
***
Eles estavam indo além dos limites convencionais do jornalismo, mas não apenas em termos de técnica. O tipo de reportagem que faziam aprecia muito mais ambicioso também para eles. Era mais intenso, mais detalhado e sem dúvida mais exigente em termos de tempo do que qualquer coisa que repórteres de jornais e revistas, inclusive repórteres investigativos, estavam acostumados a fazer. [...] Parecia absolutamente importante estar ali quando ocorressem cenas dramáticas, para captar o diálogo, os gestos, as expressões faciais, os detalhes do ambiente. (p. 37)
***
Uma questão me veio lendo esse trecho. Vivemos numa época de ubiquidade dos dispositivos de comunicação. Os celulares, tablets, câmeras de segurança e quetais estão por toda parte. Os fatos de quase toda natureza podem facilmente cair no alcance do público a qualquer momento, muitas vezes por diferentes ângulos, com imagem e som. Nesse domínio audiovisual da informação, em que a imagem se propõe irrefutável (mesmo nãos endo), como tornar o texto relevante? Seria o resgate desse enfoque do Novo Jornalismo uma saída?
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WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
De qualquer modo, [Jimmy] Breslin fez uma descoberta revolucionária. Descobriu que era possível um colunista efetivamente sair do prédio, ir para a rua e fazer uma reportagem com suas próprias e legítimas pernas. [...] Por mais óbvio que pareça, esse sistema era algo inusitado entre colunistas de jornal, locais ou nacionais. Se é que é possível, colunistas locais são ainda mais patéticos. Em geral começam cheios de energia, soando como tremendos homens da rua e narradores, recontando em letra de imprensa todas as maravilhosas mots e anedotas que vêm babando no almoço durante os últimos anos. Depois de oito ou dez semanas, porém, começam a secar. [...] Estão sem assunto. Começam a escrever sobre coisas engraçadas que aconteceram em casa outro dia, gracinhas domésticas da Cara-Metade ou da moça da Avon, ou algum livro ou artigo fascinante que lhes deu o que pensar, ou alguma coisa que viram na televisão. Demos graças a Deus pela televisão! Sem os programas de televisão para canibalizar, metade dessa gente estaria perdida, totalmente catatônica. (p. 23-24)
Breslin tornou uma prática sua chegar ao local muito antes do evento principal, a fim de coletar material por trás das câmeras, o jogo da sala de maquiagem, que lhe permitia criar personagens. (p. 26)
***
Já trabalhou na imprensa? Então esse cenário não lhe é estranho. Vi muito isso - e como o jornalismo de coluna era previsível e enfadonho - na imprensa potiguar. Aqui, na Paraíba, como não tenho obrigação profissional de acompanhar os jornais locais, nem faço questão de observar. Apesar disso, é considerado o suprassumo em questão de status profissional. Seu nome tá lá todo dia, sendo louvado pelos seus pares, mas basta um pouco de semancol para se perceber que, para estar morto, só faltou o enterro.
O modus operandi de Breslin acabou virando uma regra de ouro do jornalismo criativo (ou literário, como queiram) - na verdade, todos os caras faziam isso, mas ele inovou ao levar a técnica para a coluna.
***
Os literatos ignoravam esse lado do Novo Jornalismo, porque faz parte das suposições da crítica moderna que esse material cru simplesmente está "lá". É "dado". [...] A noção moderna de arte é essencialmente religiosa ou mágica, e segundo ela o artista é visto como uma fera sagrada que, de alguma forma, grande ou pequena, recebe relances da divindade conhecida como criatividade. (p. 27)
É difícil explicar como era esse artigo. Era um bazar de quintal, esse texto... vinhetas, retalhos de erudição, trechos de memórias, breves explosões de sociologia, apóstrofes, epítetos, gemidos, risos, qualquer coisa que me viesse à cabeça, grande parte jogada de um jeito áspero e deselegante. [...] O que me interessava não era simplesmente a descoberta da possibilidade de escrever não-ficção apurada com técnicas em geral associadas ao romance e ao conto. [...] Era a descoberta de que era possível na não-ficção, no jornalismo, usar qualquer recurso literário, dos dialogismos tradicionais do ensaio ao fluxo de consciência [...]. (p.28)
Gostava da ideia de deixar o leitor, via narrador, falar com os personagens, intimidá-los, insultá-los, provocá-los com ironia ou condescendência, ou seja lá o que for. Por que o leitor teria de se limitar a ficar ali quieto e deixar essa gente passar num tropel como se sua cabeça fosse a catraca do metrô? [...] Escrevia sobre mim mesmo na terceira pessoa, geralmente como um espectador perplexo ou alguém que estava no caminho, o que acontecia com frequência. [...] qualquer coisa para não aparecer o narrador de não-ficção comum, com voz velada, como o narrador de uma partida de tênis pelo rádio. (p. 31)
A voz do narrador, na verdade, era um dos maiores problemas na escritura de não-ficção. [...] O negócio era o understatement [discrição]. [...] o problema é que no começo dos anos 60 o undestatement havia se transformado numa verdadeira mortalha. [...] Isso nada tinha a ver com objetividade e subjetividade, ou com assumir uma posição ou "compromisso" - era uma questão de personalidade, de energia, de tendência, de bravura.... numa palavra, de estilo... (p. 32)
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Wolfe fala descreve algumas técnicas literárias utilizadas em suas reportagens, mas antes retoma a questão da alteração no status quo promovida pelo Novo Jornalismo. O que chama a atenção é a quantidade de técnicas distintas encadeadas em textos relativamente curtos. Revela um certo maneirismo do autor, como aqueles músicos virtuoses que desfiam centenas de notas em questões de segundos.
A palavra que me vem à mente é bricolagem. Essas aspecto artesanal, de combinar elementos que estão à mão, esse bricoleur contemporâneo emprestado de Lévi-Strauss, como quer Traquina, são comuns tanto ao jornalista quanto ao autor cyberpunk, basta lembrar do motto do movimento: 'A rua encontra seus usos para a tecnologia'.
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Eles estavam indo além dos limites convencionais do jornalismo, mas não apenas em termos de técnica. O tipo de reportagem que faziam aprecia muito mais ambicioso também para eles. Era mais intenso, mais detalhado e sem dúvida mais exigente em termos de tempo do que qualquer coisa que repórteres de jornais e revistas, inclusive repórteres investigativos, estavam acostumados a fazer. [...] Parecia absolutamente importante estar ali quando ocorressem cenas dramáticas, para captar o diálogo, os gestos, as expressões faciais, os detalhes do ambiente. (p. 37)
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Uma questão me veio lendo esse trecho. Vivemos numa época de ubiquidade dos dispositivos de comunicação. Os celulares, tablets, câmeras de segurança e quetais estão por toda parte. Os fatos de quase toda natureza podem facilmente cair no alcance do público a qualquer momento, muitas vezes por diferentes ângulos, com imagem e som. Nesse domínio audiovisual da informação, em que a imagem se propõe irrefutável (mesmo nãos endo), como tornar o texto relevante? Seria o resgate desse enfoque do Novo Jornalismo uma saída?
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Leituras - Wolfe
Dois meses e meio sem dar as caras por aqui. Muitas leituras, muita preguiça, uma dengue e falta do que dizer a vocês, meus quatro leitores do coração, motivaram essa ausência.
Porém, o fato de ainda não ter nada a dizer-lhes, não significa que outros caras não possam mandar aquele plá. Seguem uns trechos de coisas que li - e alguns comentários a título de ilustração.
***
WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Todo mundo conhece uma forma de competição entre repórteres de jornal, a competição pelo furo jornalístico. Repórteres de furo competiam com suas contrapartidas em outros jornais, ou nas agências de notícias, para ver quem conseguia primeiro uma matéria e escrevia mais depressa; quanto mais importante a matéria - isto é, quanto mais ela tivesse a ver com o poder ou com catástrofes -, melhor. [...] Mas havia também aquela outra turma de repórteres... Esses tendiam a ser conhecidos como "escritores de reportagens especiais". (p. 13)
"Reportagens especiais" era a expressão jornalística para uma matéria que escapava à categoria da notícia pura e simples. Abrangia tudo, desde pequenos fatos "divertidos", engraçados, geralmente do movimento policial... [...] até "histórias de interesse humano", relatos longos e geralmente hediondamente sentimentais sobre almas até então desconhecidas colhidas pela tragédia ou sobre hobbies estranhos dentro da área de circulação da folha... Em todo caso, as reportagens especiais davam ao sujeito certo espaço para escrever. (p. 13)
***
Ligações evidentes aqui com os traços sociais e ideológicos do campo jornalístico apontados por Nelson Traquina em Teorias do Jornalismo - vol. 2: A tribo jornalística, como a glamourização do furo promovida pelo imediatismo que norteia a profissão.
Esse mesmo imediatismo promove a valorização daqueles que desempenham melhor os saberes práticos necessários. Ainda que a definição sobre o que seja a notícia continue nebulosa entre os profissionais, como aparece no texto de Wolfe (fragilidade observada por Traquina), a reportagem especial busca fugir àquilo que Traquina chamou de valores-notícia - que tendem a mobilizar os outros setores da redação.
Mais à frente, Wolfe explica que, ainda que o valor do furo não estivesse em disputa nas relações de status dos repórteres 'especiais', havia sim competição entre eles, baseada na qualidade ou no exotismo do relato. Aqui, levava-se em consideração valores ideológicos da profissão, como o do sacrifício pela notícia.
***
E, no entanto, no começo dos anos 60, uma curiosa ideia nova, quente o bastante para inflamar o ego, começou a se insinuar nos estreitos limites da statusfera das reportagens especiais. Tinha um ar de descoberta. Essa descoberta, de início modesta, na verdade, reverencial, poderíamos dizer, era que talvez fosse possível escrever jornalismo para ser... lido como um romance. (p. 19)
***
Olha que legal. Os anos 60, como sabemos, marcaram a explosão do movimento hippie, em que, pela primeira vez, a contracultura se tornava um movimento de massas. Essa revolução de costumes e suas consequências serviram como tema e, também, motor do chamado 'Novo Jornalismo'. Esse grupo de repórteres vai encontrar nesse contexto vasto material humano para suas reportagens. Vários exemplos comprovam essa afirmação: The kandy-colored tangerine-flake streamline baby (Wolfe), Hell's Angels, Fear and loathing in Las Vegas (Thompson), Dispatches (Herr e a Guerra do Vietnã psicodélica), as reportagens de Didion.
Essa valorização da reportagem como literatura, a apropriação do romance pelo gênero jornalístico e a alteração da balança do status quo numa área numa expressão artística em que a reportagem sequer era considerada - por sua vez - apresentam forte influência contracultural. O questionamento às autoridades (no caso, ao status quo) e a democratização da informação (ao se apropriar e legitimar o uso de técnicas literárias para uma atividade considerada não-literária, como o jornalismo) são traços claros da contracultura apontados por Goffman & Joy em Contracultura através dos Tempos.
Porém, o fato de ainda não ter nada a dizer-lhes, não significa que outros caras não possam mandar aquele plá. Seguem uns trechos de coisas que li - e alguns comentários a título de ilustração.
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WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Todo mundo conhece uma forma de competição entre repórteres de jornal, a competição pelo furo jornalístico. Repórteres de furo competiam com suas contrapartidas em outros jornais, ou nas agências de notícias, para ver quem conseguia primeiro uma matéria e escrevia mais depressa; quanto mais importante a matéria - isto é, quanto mais ela tivesse a ver com o poder ou com catástrofes -, melhor. [...] Mas havia também aquela outra turma de repórteres... Esses tendiam a ser conhecidos como "escritores de reportagens especiais". (p. 13)
"Reportagens especiais" era a expressão jornalística para uma matéria que escapava à categoria da notícia pura e simples. Abrangia tudo, desde pequenos fatos "divertidos", engraçados, geralmente do movimento policial... [...] até "histórias de interesse humano", relatos longos e geralmente hediondamente sentimentais sobre almas até então desconhecidas colhidas pela tragédia ou sobre hobbies estranhos dentro da área de circulação da folha... Em todo caso, as reportagens especiais davam ao sujeito certo espaço para escrever. (p. 13)
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Ligações evidentes aqui com os traços sociais e ideológicos do campo jornalístico apontados por Nelson Traquina em Teorias do Jornalismo - vol. 2: A tribo jornalística, como a glamourização do furo promovida pelo imediatismo que norteia a profissão.
Esse mesmo imediatismo promove a valorização daqueles que desempenham melhor os saberes práticos necessários. Ainda que a definição sobre o que seja a notícia continue nebulosa entre os profissionais, como aparece no texto de Wolfe (fragilidade observada por Traquina), a reportagem especial busca fugir àquilo que Traquina chamou de valores-notícia - que tendem a mobilizar os outros setores da redação.
Mais à frente, Wolfe explica que, ainda que o valor do furo não estivesse em disputa nas relações de status dos repórteres 'especiais', havia sim competição entre eles, baseada na qualidade ou no exotismo do relato. Aqui, levava-se em consideração valores ideológicos da profissão, como o do sacrifício pela notícia.
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E, no entanto, no começo dos anos 60, uma curiosa ideia nova, quente o bastante para inflamar o ego, começou a se insinuar nos estreitos limites da statusfera das reportagens especiais. Tinha um ar de descoberta. Essa descoberta, de início modesta, na verdade, reverencial, poderíamos dizer, era que talvez fosse possível escrever jornalismo para ser... lido como um romance. (p. 19)
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Olha que legal. Os anos 60, como sabemos, marcaram a explosão do movimento hippie, em que, pela primeira vez, a contracultura se tornava um movimento de massas. Essa revolução de costumes e suas consequências serviram como tema e, também, motor do chamado 'Novo Jornalismo'. Esse grupo de repórteres vai encontrar nesse contexto vasto material humano para suas reportagens. Vários exemplos comprovam essa afirmação: The kandy-colored tangerine-flake streamline baby (Wolfe), Hell's Angels, Fear and loathing in Las Vegas (Thompson), Dispatches (Herr e a Guerra do Vietnã psicodélica), as reportagens de Didion.
Essa valorização da reportagem como literatura, a apropriação do romance pelo gênero jornalístico e a alteração da balança do status quo numa área numa expressão artística em que a reportagem sequer era considerada - por sua vez - apresentam forte influência contracultural. O questionamento às autoridades (no caso, ao status quo) e a democratização da informação (ao se apropriar e legitimar o uso de técnicas literárias para uma atividade considerada não-literária, como o jornalismo) são traços claros da contracultura apontados por Goffman & Joy em Contracultura através dos Tempos.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Memoirs of green
Desempacotando uns guardados – e a vida da gente vai a cada dia se perdendo em caixas e caixas que vão sendo empilhadas, às vezes em algum quarto quente e úmido e às vezes na memória mesmo – encontrei uma dessas sacolinhas de loja cheias de uns papéis velhos e amarelados.
Lá dentro, vários blocos de anotações, vindos das diferentes redações onde trabalhei, fotos agora antigas e fitas que jamais degravarei, uma vez que meu gravador também estava ali, do lado, despedaçado Deus sabe como.
Parei um pouco de (tentar) organizar as estantes e fui rever aqueles papéis que vinham de lugares como o Novo Jornal, o Nominuto.com e o Diário de Natal. Tinha também anotações esparsas de alguns frilas, ideias de reportagens que nunca rolaram, planos que não sobreviveram àquela semana que os viu nascer. Coisas de dois, quatro e até seis anos passados.
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| Eu e Oswaldo Lamartine. Notem, ao fundo, o poeta Volonté enxugando um uisquinho |
Na época, acho que 2005, não sei ao certo, não conhecia Oswaldo Lamartine pessoalmente, só de ouvi falar e pelos livros. A fragilidade daquele homem, que precisava preservar sua saúde com um lenço em volta do pescoço por causa do ar condicionado do shopping, era meio que comovente. Só depois, nas oportunidades que tive de conversar com ele, pude perceber que havia também algo de força naqueles ossos.
***
Dois anos depois, fui à Câmara Municipal de Natal para cobrir a entrega do título de cidadão natalense a Ariano Suassuna. Lá, encontrei, claro, Carlos Newton Junior, fiel escudeiro do escritor paraibano, e também o grande, imenso Deífilo Gurgel.
Ele ia ler, na tribuna, uma homenagem a Ariano, para marcar a ocasião. Mas sabe como são os poetas... Se lembro bem da nossa conversa, no dia anterior, num lampejo, Deífilo decidiu que leria um poema. E aí passou o dia trabalhando o texto para apresentá-lo a Ariano. Momentos antes da cerimônia, conseguimos acesso à ante-sala onde estavam Ariano, Carlos Newton e Deífilo e conversamos um pouco com eles. Foi quando Deífilo falou do poema.
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| O poema de Deífilo. Clique para ampliar - eu ia transcrever mas tem uma palavrinha na segunda estrofe que não consigo entender, então não quis correr o risco de adulterar as palavras do poeta |
Deífilo, para mim, era uma espécie de Cecília Meireles da literatura potiguar, pelo resgate anacrônico que promoveu do soneto quando o chique era ser moderno. Essa forma poética também é praticada com maestria por Suassuna. Então, a homenagem de Deífilo era um casamento de Tomé com Bebé. Tudo a ver.
***
Tinha também umas fotos de Elino Julião. Mas Elino é outra história, que fica para outro dia.
***
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| Abimael queria que a Ponte tivesse o nome de Manoel Dantas. Para mim, tudo devia ter o nome de Manoel Dantas. |
Abimael Silva, que perde o amigo, mas não perde o pitaco, batucava qualquer coisa na sua Olivetti quando cheguei no Sebo Vermelho. Aí já jogou a convocatória: ‘Alex, ta indo pro Diário? Leva isso aqui para Moisés publicar lá’. Obviamente, fiquei encarregado de digitar o artigo quando cheguei na redação... E não é que o original, no qual o judeu defendia o nome de Manoel Dantas para a ponte, não tava aqui guardado também? (Aliás, acho Manoel Dantas um nome do caralho praquela ponte, mas Newton Navarro também tá valendo.)
***
Saudadezinha besta.
* Olha que legal. Lívio Oliveira, que teve uma participação fantasmagórica no episódio do título para Ariano Suassuna, mandou e-mail relembrando que, na verdade, foi ele quem escreveu em bloquinho o poema de Deífilo Gurgel. Passando por aqui pelo blog, mandou e-mail resolvendo este pequeno mistério memorioso.
O horror! O horror! - crônica do apocalipse de rubengnunes
Meu amigo Ruben G. Nunes, o Rubão, mandou pra sua lista de contatos esta crônica sobre uma nova droga surgida na Europa em que faz interessantes reflexões sobre a vida contemporânea. O texto me trouxe à mente alguns aspectos da pesquisa sobre cyberpunk e cibercultura que venho fazendo, em especial as ideias do pesquisador Erick Felinto sobre o gnosticismo presente em temas como a realidade virtual e o ciborgue.
Rubão, quando fala no 'horrorismo do prazer' também ecoa muito do que Baudrillard escreveu nos anos 80 e 90 sobre o terrorismo e a hiperrealidade. It's all conected, dude.
Vamos ao texto de Rubão.
P.S.: As imagens às quais o autor se refere são graficamente muito violentas para que eu possa reproduzi-las aqui sem me sentir mal comigo mesmo. Mas fiquem à vontade para pesquisá-las no google, seus sádicos de araque.
***
Meu amigo Fidja-Maestro, envia as fotos abaixo com notícias sobre uma nova e terrível droga russa: o Krokodil (crocodilo).
Devastadora: arrebenta os "canos" do maluco viciado, gangrena tudo, e vai corroendo toda a carne até chegar ao osso. Como uma abocanhada de crocodilo.
Fidja-velho, do ponto de vista pessoal e social essa droga russa não é só degradação e terrorismo. É também um horrorismo do prazer.
Leva a um êxtase, ou um "barato", com pavorosas marcas de autodestruição. A coisa é rapidinha. Em pouco tempo, o bixogrilo vira um descarnado vivo. Como um zumbi. Verdadeiro suicídio cotidiano.
As carnes, veias, nervos, músculos, vão apodrecendo. Mas, o "barato" é tão forte que o vício fica fora de controle. Tanto que leva a um estado mórbido de "tô nem aí". O êxtase do krokodil supera o instinto de sobrevivência.
Quer dizer: o viciado fica num tal "espírito" de total desprendimento de sua materialidade carnal, que não "tá nem ai" para a perda progressiva de seu corpo gangrenando, por via química.
"Tô nem aí, m'ermão".
É como a filosofia da vaca ou do cavalo: sempre cagando e andando.
O que importa é o "barato espiritual". A viagem.
Mas, não é justamente essa desvalorização da carne em favor do espírito, que as religiões, em geral, tanto pregam - só que por via da fé doutrinária?
Vício e religião, cada um busca um tipo próprio de transcendência. Ambos visam a libertação da "prisão da carne", por vias diferentes. Não é isso uma ironia?
Qual o papel da Razão nesse horror?
Pelas fotos abaixo a gente tira que todo processo pra sintetizar o krokodill é um processo químico cheio de etapas racionais.
É um processo de Razão aplicada.
Como foi também um processo da Razão todo o plano nazista de extermínio.
O horror da Razão.
Tá ai uma inexplicável atividade desumana da Razão.
A Razão que é o campo próprio do trabalho da Filosofia.
Cujo trabalho busca, em geral, a Verdade Universal e Absoluta.
Busca Causas Primeiras e Ultimas.
Busca o sentido lógico de nossas vidinhas.
Santa Ingênua Enclausurada Filosofia!
Todo esse trabalho filosofeiro tem acumulado, nos séculos, rumas e rumas de teses, tesinhas e tesões de muito boa cêpa. De profundas teorias geniais. Tudo devidamente arquivado nas academias, entre traças e aranhas.
Mas, a grande maioria dessas teorias filosofeiras são tão profundas e tão teoricamente geniais, que são impraticáveis na superfície da VidaViva.
Ficam lá, no GrandeManicômio da Mundo das idéias, fora do tempo.
Teses que se sucedem trocando entre si figurinhas teóricas forever.
Enquanto cá fora a fila anda.
Voltemos à Razão drogada com krokodil.
O que há com essa Razão que se auto-extermina, como um crocodilo devorando a si mesmo?
Uma Razão enlouquecida?
Os viciados no krokodil russo olham suas carnes apodrecendo até o osso.
Como num filme de horror, tudo ao vivo, a cores e em close.
Esguichando sangue.
Mesmo assim, seguem o prazer do vício arrancado de seu próprio sofrimento.
Um Bem arrancado do Mal?
Os viciados vêm e sentem o Bem e o Mal em si mesmos.
Há, pois, uma referência entre o Bem e o Mal.
Uma referência perversa.
O que há com essa Razão drogada?
Perdeu, a Razão, o contrôle sobre si mesma?
A Vontade-de-Vida que nos move, tornou-se Vontade-de-Morte?
Por outro lado, muitos desses viciados creem num Deus, têm religião.
Mas que deus, ou deuses, permite isso? Que deus(es) há neles?
Há ou não há deus(es)?
Fidja-velho, do ponto de vista transcendental, i.é de entidades divinas criadoras, como encarar esses fenômenos de uma Razão suicida drogada num contexto de puro horror de prazer e morte de si?
Cadê um lenitivo religioso, menos doutrinário, mais compreensivo, que suspenda o Homem desses abismos?
Haverá na Razão Humana espécie de reflexo de uma Razão Cósmica Enlouquecida?
Ou, reflexos de MultiRazões Cósmicas, com infinitos graus de loucura?
Mas, afinal, quem criou a cruel possibilidade química dessas drogas existirem?
O próprio Homem?
Ou o(s) deus(es)?
Ou, algumas dessas Razões Divinas perderam o contrôle total do que criaram ou arquitetaram?
Ou, há também na economia da esfera infinita, desgaste, enguiço, cansaço, desregulagem, das Onipotencias das Entidades Divinas? Se há tamofú, velho!
Num multiverso (in)finito, infinitas são as possibilidades e realidades...
Fidja-amigo, que certezas há?
Ou a certeza do não-sentido é também um sentido imperceptível?
Por que em alguns de nós há essas inquietudes crônicas e em outros não?
Por que esse apaixonamento pela eterna estrada do mistério?...
um abraço e BoaEnergia!
rubengnunes
desfilósofo&traficante de sonhos
botecodo(in)finito, 26/3/12, Natal, RN
terça-feira, 20 de março de 2012
Sobre o Caso Andréia
Natal está mobilizada – ou pelo menos, a imprensa natalense está -, por estes dias, pelo julgamento do que se convencionou chamar de ‘Caso Andreia’, uma macabra historia policial sobre um oficial das Forças Armadas que matou a esposa e ocultou o cadáver dela no quintal da casa dos pais há cerca de cinco anos.
Este caso daria um interessante estudo sobre como os veículos se pautam, ou se deixam pautar, uns pelos outros e também sobre o impacto do jornalismo de internet na imprensa natalense. E, sobre esse assunto em particular, tenho um pequeno depoimento.
No ano em que aconteceu a merda, eu trabalhava no Nominuto.com, um portal de notícias, como gostava de chamar nosso diretor e chefe, Diógenes Dantas, um jornalista se aventurando na turbulenta função de empresário da comunicação.
Natal já tivera antes um site voltado para conteúdo jornalístico, o Cabugi.com, ou .net, não lembro ao certo. Sei que funcionou ali por volta de 1999-2000, porque foi quando entrei na universidade e alguns amigos, como Aristeu Araújo, fizeram parte da primeira leva de estagiários do empreendimento. A questão é que, naquela época, a internet ainda estava engatinhando na cidade e a coisa não andou muito bem.
Pois bem, pula aí uns seis anos e, quando surgiu o Nominuto.com, foi uma loucura, principalmente nas outras redações. O fetiche pelo imediatismo que é o cerne da atividade jornalística fez com que o site virasse um frisson entre os profissionais. Isso porque o troço era realmente muito ligeiro para publicar o que vinha acontecendo na cidade, principalmente frente aos veículos impressos – e anos-luz mais ágil que os sites dos jornalões da cidade também.
Lembro muito bem como começou o ‘caso Andreia’. Era um feriado e estávamos num ingrato plantão de um dia bem morto. Eu fazia cultura, então tava cascaviando festas e shows (valia até enterro) pra movimentar a timeline do portal. Nosso repórter de polícia (outra novidade do portal foi resgatar uma editoria específica para o tema, prática que havia sido abolida pelos outros veículos quando os leitores começaram a se resumir às classes A e B) era Fred Carvalho e também tava num dia péssimo para ele – e ótimo para a humanidade, em contrapartida.
Fred sempre foi, aos meus olhos, uma espécie de fenômeno da natureza: era a prova contumaz de que um bom repórter não precisa necessariamente ser também um intelectual (e isso não é nenhum demérito, eu só achava aquilo muito esquisito). Mas, como dizem os hypes de hoje, aquele dia foi foda.
Daí, sai da sua sala Diógenes com aquela cara de que vai dar um esporro em alguém. Tudo parado. E vai pra cima de Fred. Ao perceber que a coisa tá feia, Diógenes pegou um jornal do dia (não lembro se uma Tribuna do Norte ou Jornal de Hoje) e apelou: “Não tem nada aqui que dê pra gente desdobrar, achar outro ponto de vista, correr atrás, não?”
“Diógenes, tudo que tem aí a gente já deu. E a ronda não tem nada”, respondeu o gordo. (O diálogo é puramente ficcional, você não vai querer fidelidade ao fato a uma altura dessa do campeonato, né?)
“E isso aqui?”, e apontou para uma notinha, pouco mais de cinco linhas, sobre o desaparecimento de uma dona de casa em Cidade Verde. “A gente não deu isso aqui. Vamos atrás.”
Bom, meio a contragosto, o Fred foi lá e fez uma matéria que não acrescentava muito além do que já se sabia. Mas, Diógenes não ficou satisfeito. Insistiu para que fossem publicadas mais matérias, que fôssemos à casa da mulher pra falar com a família. “Tem algo de estranho nessa história”, insistia. E o Fred, de início a contragosto, fez a parte dele. Acabou, pelas tantas, localizando a família da moça em outro estado. E começaram, se não me engano, a levantar suspeitas sobre a versão apresentada pelo marido.
Nisso, o feriado já tinha passado e o fim de semana que veio logo depois também. Na segunda-feira, acho que ainda publicamos alguma coisa sobre o assunto. Na terça, era o pandemônio. Todos os jornais da cidade, com muito, pouco ou algum destaque, entraram de cabeça na cobertura. E aí, já viu. Saiu no impresso, todas as tevês correm atrás.
O resto todo mundo que trabalhava em redação na época sabe como foi. Mas para mim, do episódio todo, ficou a lembrança de um faro para uma notícia que todo mundo tinha ignorado, por parte do meu ex-chefe, e da perseverança de um colega que, mesmo sem acreditar na pauta, arrancou dela o que podia, até que tudo se tornasse um circo midiático como poucos que pude acompanhar durante meu período em veículos de comunicação.
***
Não quero, com esse texto, desmerecer o esforço de apuração de outros colegas que participaram da cobertura do caso - que certamente levantaram informações inéditas e importantes, cada qual em seu veículo.
quarta-feira, 7 de março de 2012
othoniel menezes
para tudo que o negócio agora é sério.
Laélio Ferreira disponibilizou na rede a obra completa de seu pai, um dos mais importantes poetas nascidos, criados e sacaneados no Rio Grande do Norte. Othoniel Menezes, que já havia recebido do filho uma luxuosa e completa edição de sua obra, também pode ter sua poesia acessada livremente pela internet, basta ir lá na página, ler em versão flip, baixar ou o que lhe aprouver.
O bacana é que, nessas épocas de copyleft, Othoniel foi uma espécie de precursor, uma vez que nunca buscou ganhar prata com sua obra (apesar de merecer todos os louros por ela - o que lhe foi negado por muito tempo). Muito justo que a família, agora, faça a mesma coisa, garantindo acesso livre a este verdadeiro patrimônio da cultura potiguar.
Ah, o endereço: http://othonielmenezes.com.br.
Biutiful.
Laélio Ferreira disponibilizou na rede a obra completa de seu pai, um dos mais importantes poetas nascidos, criados e sacaneados no Rio Grande do Norte. Othoniel Menezes, que já havia recebido do filho uma luxuosa e completa edição de sua obra, também pode ter sua poesia acessada livremente pela internet, basta ir lá na página, ler em versão flip, baixar ou o que lhe aprouver.
O bacana é que, nessas épocas de copyleft, Othoniel foi uma espécie de precursor, uma vez que nunca buscou ganhar prata com sua obra (apesar de merecer todos os louros por ela - o que lhe foi negado por muito tempo). Muito justo que a família, agora, faça a mesma coisa, garantindo acesso livre a este verdadeiro patrimônio da cultura potiguar.
Ah, o endereço: http://othonielmenezes.com.br.
Biutiful.
uma odisseia na blogosfera
entonces, chegamos a 2003 visualizações deste blog bissexto e mal atualizado, sem lenço, nem documento - e sem linha editorial aparente.
São cinco meses em atividade inconstante, o que nos rende uma média de 400 visitas por mês. Pra quem esperava 25% disso, tá ótimo.
eis então nosso top 5 de postagens mais visitadas:
- [resenha quase sentimental] É preciso ter sorte quando se está em guerra - sobre o último livro de Pablo Capistrano.
- [Resenha] A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás - sobre a HQ de Klévisson Viana.
- [ensaio] o mito do eterno retorno: tempo e espaço como formas do cotidiano nas tirinhas de jornal - sobre minhas pesquisas em HQs.
- Raul Seixas: o início, o fim, o meio - sobre o filme do Walter Carvalho.
- Bandido bom - um poemeto vagabundo, que na verdade é só uma redação de vestibular mal feita.
Parece que o pessoa gosta mesmo quando a gente publica resenhas. Fica a dica pro redator destas mal traçadas.
Boa parte desse tráfego veio da divulgação destes textos no blog Substantivo Plural. Um abraço então pro velhinho Tácito Costa.
E um beijo na bunda de vocês.
São cinco meses em atividade inconstante, o que nos rende uma média de 400 visitas por mês. Pra quem esperava 25% disso, tá ótimo.
eis então nosso top 5 de postagens mais visitadas:
- [resenha quase sentimental] É preciso ter sorte quando se está em guerra - sobre o último livro de Pablo Capistrano.
- [Resenha] A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás - sobre a HQ de Klévisson Viana.
- [ensaio] o mito do eterno retorno: tempo e espaço como formas do cotidiano nas tirinhas de jornal - sobre minhas pesquisas em HQs.
- Raul Seixas: o início, o fim, o meio - sobre o filme do Walter Carvalho.
- Bandido bom - um poemeto vagabundo, que na verdade é só uma redação de vestibular mal feita.
Parece que o pessoa gosta mesmo quando a gente publica resenhas. Fica a dica pro redator destas mal traçadas.
Boa parte desse tráfego veio da divulgação destes textos no blog Substantivo Plural. Um abraço então pro velhinho Tácito Costa.
E um beijo na bunda de vocês.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
game of thrones
Não sou muito chegado num best seller. O primeiro (e último) Paulo Coelho que li foi O Alquimista, lá na sexta série. Depois, com uns 15 anos, encarei o Xangô de Baker Street, do Jô Soares - mas se você contar pra alguém, desminto na hora. Por isso, resisti horrores pra encarar a série 'As Crônicas de Gelo e Fogo', fenômeno editorial do norte-americano George R. R. Martin.
Porém, ano passado caí na besteira de assistir ao primeiro episódio da série televisiva 'Game of Thrones', produzida pela HBO sobre o volume inaugural da saga. Aí sacumé, né? A série é tão bem feita, que na primeira oportunidade adquiri os quatro primeiros livros por uma barbada.
(Aproveitei uma promoção e comprei em formato pocket, edições norte-americanas, por R$ 15 cada. Nem a pau que vou dar R$ 40 num livro que vende milhões. De todo modo já havia me decidido a ler no original porque achei uma sacanagem o que a editora Leya fez ao 'adaptar' uma tradução lusitana para o português brasileiro. Um desserviço para os muitos bons tradutores em atividade no país.)
Então, de todo modo foi uma leitura meio de trás pra frente: achei a série tão bacana que fui conferir o que havia dela nos livros que a inspiraram. Impressionantemente, havia muita coisa, principalmente os bons diálogos cheios de 'wit' que permeiam o programa de televisão.
A trama se passa em Westeros, um mundo medieval onde os verões duram alguns anos e os invernos podem se prolongar por décadas. Após uma conspiração, os antigos reis da dinastia Targaryen são derrubados por Robert Baratheon, que se mostra incapaz de conduzir os Sete Reinos. Uma intriga palaciana termina por opor as famílias Stark e Lannister na disputa pelo poder. Enquanto isso, os últimos sobreviventes dos Targaryen tentam retornar a Westeros para reclamar o trono a que têm direito.
Tive uma boa impressão, porque o que havia lido sobre os livros me desanimou bastante. Primeiro, uma resenha meio genérica do Luís Antônio Giron, na Época, exortando os leitores de hoje a abandonarem os George R. R. Martin e J. K. Rowling da vida em troca de Homero. Muito justo o pedido dele, mas acho que não funcionou.
Outro texto, este especificamente sobre o primeiro volume, Guerra dos Tronos, foi publicado antes mesmo da estreia na HBO, pelo Antonio Luiz M. C. Costa, na Carta Capital. Nele, o resenhista compara a saga fantástica de Martin com as peças históricas de Shakespeare, em especial as que abordam a Guerra das Rosas pelo trono britânico.
Sobre o texto do Giron, uma ressalva básica: comparar qualquer saga ou texto épico com Homero é covardia. Quer dizer, nessa pisada, até a Eneida de Virgílio pode ser considerada uma diluição do ceguinho Aderaldo da Ásia Menor, uma vez que rola até uma reciclagem de personagens pelo poeta latino. Nada contra a Ilíada ou a Odisseia (gosto mais do último que do primeiro), mas a galera pode dar uma viajadinha de leve antes de cair de cabeça neles.
Já o Costa faz uma análise bem interessante entre as duas obras e - obviamente - Martin apanha na cara do bardo inglês. Mas confesso que me falta estofo literário para avaliar. Sou mais chegado nas grandes tragédias e nas comédias e conheço poucas das tragédias históricas shakespeareanas.
Porém, uma sacada nesse texto que pode ter irritado aos fãs mais xiitas, a referência ao puritanismo e a um certo maniqueísmo exacerbado, me levou a uma comparação diferente de outras mais óbvias num primeiro momento, como o Ciclo Carolíngio, a Canção de Rolando, o Amadis de Gaula, ou qualquer outro romance de cavalaria medieval, por exemplo.
A leitura que me saltou aos olhos e me fez ver semelhanças com o livro do Martin foi 'Musashi', do Eiji Yoshikawa. Veja se não estou viajando no molho tártaro.
As duas histórias se estendem por milhares de páginas, mas se apoiam em uma estrutura narrativa formada por inúmeros capítulos relativamente curtos centrados cada um deles em um personagem. Com algumas diferenças, claro.
Em Musashi, os capítulos eram curtíssimos devido o livro ter sido publicado originalmente como folhetim num jornal - o que os deixou com um tamanho uniforme. Martin, por sua vez, pode prolongá-los à vontade para incluir suas extensas descrições de batalhas, refeições, paisagens, vestuários ou o que lhe aprouver.
Yoshikawa mantém o foco narrativo em quatro, cinco personagens no livro inteiro. Essa variação de ponto de vista quebra a monotonia de um relato tão extenso e faz com que o leitor construa o quebra-cabeça do enredo por conta própria. Martin costuma acrescentar um ou outro entre os volumes (até porque seus personagens morrem a granel), mas a média e a estratégia se mantêm.
Por fim, as duas histórias apelam a valores (ou estereótipos, se preferirem) muito caros às sociedades em que foram produzidas. Musashi, apesar de escrito no século 20, fala de uma época da qual a sociedade japonesa é muito saudosa: o período Edo, após a unificação do país pela dinastia Tokugawa. A saga do samurai Miyamoto Musashi, além de glorificar o estilo de vida zen budista que se incorporou à cultura japonesa por volta do século 12, está cheia de preceitos como a valorização da vida regrada, o respeito aos idosos, a manutenção da palavra e da honra, o desapego material.
Por sua vez, como apontou Costa, Jogo dos Tronos é carregado de um certo puritanismo que cai muito bem no paladar do leitor médio norte-americano: as cenas de sexo nunca envolvem os mocinhos, que também evitam empregar um linguajar mais 'sujo'; os personagens mais nobres são nobres até demais mesmo para uma obra de fantasia e por aí vai. A única - e principal - quebra no esquemão do gênero está na imprevisibilidade do que irá acontecer com os personagens mais cativantes da história.
Comentei no twitter que George R. R. Martin era, na verdade, o Manoel Carlos da fantasia medieval. Claro que era uma brincadeira, mas tem um fundinho de verdade. Além da quantidade absurda de personagens, tem aquele climão de telenovela: a gente sabe que não é lá grandes coisas, mas fica na expectativa pra saber o que vai acontecer nos próximos capítulos. Tanto é que nas férias tracei os dois primeiros livros e tive que me conter para não avançar no terceiro. Talvez após o fim da segunda temporada na tevê eu tome gosto de novo.
Porém, ano passado caí na besteira de assistir ao primeiro episódio da série televisiva 'Game of Thrones', produzida pela HBO sobre o volume inaugural da saga. Aí sacumé, né? A série é tão bem feita, que na primeira oportunidade adquiri os quatro primeiros livros por uma barbada.
(Aproveitei uma promoção e comprei em formato pocket, edições norte-americanas, por R$ 15 cada. Nem a pau que vou dar R$ 40 num livro que vende milhões. De todo modo já havia me decidido a ler no original porque achei uma sacanagem o que a editora Leya fez ao 'adaptar' uma tradução lusitana para o português brasileiro. Um desserviço para os muitos bons tradutores em atividade no país.)
Então, de todo modo foi uma leitura meio de trás pra frente: achei a série tão bacana que fui conferir o que havia dela nos livros que a inspiraram. Impressionantemente, havia muita coisa, principalmente os bons diálogos cheios de 'wit' que permeiam o programa de televisão.
A trama se passa em Westeros, um mundo medieval onde os verões duram alguns anos e os invernos podem se prolongar por décadas. Após uma conspiração, os antigos reis da dinastia Targaryen são derrubados por Robert Baratheon, que se mostra incapaz de conduzir os Sete Reinos. Uma intriga palaciana termina por opor as famílias Stark e Lannister na disputa pelo poder. Enquanto isso, os últimos sobreviventes dos Targaryen tentam retornar a Westeros para reclamar o trono a que têm direito.
Tive uma boa impressão, porque o que havia lido sobre os livros me desanimou bastante. Primeiro, uma resenha meio genérica do Luís Antônio Giron, na Época, exortando os leitores de hoje a abandonarem os George R. R. Martin e J. K. Rowling da vida em troca de Homero. Muito justo o pedido dele, mas acho que não funcionou.
Outro texto, este especificamente sobre o primeiro volume, Guerra dos Tronos, foi publicado antes mesmo da estreia na HBO, pelo Antonio Luiz M. C. Costa, na Carta Capital. Nele, o resenhista compara a saga fantástica de Martin com as peças históricas de Shakespeare, em especial as que abordam a Guerra das Rosas pelo trono britânico.
Sobre o texto do Giron, uma ressalva básica: comparar qualquer saga ou texto épico com Homero é covardia. Quer dizer, nessa pisada, até a Eneida de Virgílio pode ser considerada uma diluição do ceguinho Aderaldo da Ásia Menor, uma vez que rola até uma reciclagem de personagens pelo poeta latino. Nada contra a Ilíada ou a Odisseia (gosto mais do último que do primeiro), mas a galera pode dar uma viajadinha de leve antes de cair de cabeça neles.
Já o Costa faz uma análise bem interessante entre as duas obras e - obviamente - Martin apanha na cara do bardo inglês. Mas confesso que me falta estofo literário para avaliar. Sou mais chegado nas grandes tragédias e nas comédias e conheço poucas das tragédias históricas shakespeareanas.
Porém, uma sacada nesse texto que pode ter irritado aos fãs mais xiitas, a referência ao puritanismo e a um certo maniqueísmo exacerbado, me levou a uma comparação diferente de outras mais óbvias num primeiro momento, como o Ciclo Carolíngio, a Canção de Rolando, o Amadis de Gaula, ou qualquer outro romance de cavalaria medieval, por exemplo.
A leitura que me saltou aos olhos e me fez ver semelhanças com o livro do Martin foi 'Musashi', do Eiji Yoshikawa. Veja se não estou viajando no molho tártaro.
As duas histórias se estendem por milhares de páginas, mas se apoiam em uma estrutura narrativa formada por inúmeros capítulos relativamente curtos centrados cada um deles em um personagem. Com algumas diferenças, claro.
Em Musashi, os capítulos eram curtíssimos devido o livro ter sido publicado originalmente como folhetim num jornal - o que os deixou com um tamanho uniforme. Martin, por sua vez, pode prolongá-los à vontade para incluir suas extensas descrições de batalhas, refeições, paisagens, vestuários ou o que lhe aprouver.
Yoshikawa mantém o foco narrativo em quatro, cinco personagens no livro inteiro. Essa variação de ponto de vista quebra a monotonia de um relato tão extenso e faz com que o leitor construa o quebra-cabeça do enredo por conta própria. Martin costuma acrescentar um ou outro entre os volumes (até porque seus personagens morrem a granel), mas a média e a estratégia se mantêm.
Por fim, as duas histórias apelam a valores (ou estereótipos, se preferirem) muito caros às sociedades em que foram produzidas. Musashi, apesar de escrito no século 20, fala de uma época da qual a sociedade japonesa é muito saudosa: o período Edo, após a unificação do país pela dinastia Tokugawa. A saga do samurai Miyamoto Musashi, além de glorificar o estilo de vida zen budista que se incorporou à cultura japonesa por volta do século 12, está cheia de preceitos como a valorização da vida regrada, o respeito aos idosos, a manutenção da palavra e da honra, o desapego material.
Por sua vez, como apontou Costa, Jogo dos Tronos é carregado de um certo puritanismo que cai muito bem no paladar do leitor médio norte-americano: as cenas de sexo nunca envolvem os mocinhos, que também evitam empregar um linguajar mais 'sujo'; os personagens mais nobres são nobres até demais mesmo para uma obra de fantasia e por aí vai. A única - e principal - quebra no esquemão do gênero está na imprevisibilidade do que irá acontecer com os personagens mais cativantes da história.
Comentei no twitter que George R. R. Martin era, na verdade, o Manoel Carlos da fantasia medieval. Claro que era uma brincadeira, mas tem um fundinho de verdade. Além da quantidade absurda de personagens, tem aquele climão de telenovela: a gente sabe que não é lá grandes coisas, mas fica na expectativa pra saber o que vai acontecer nos próximos capítulos. Tanto é que nas férias tracei os dois primeiros livros e tive que me conter para não avançar no terceiro. Talvez após o fim da segunda temporada na tevê eu tome gosto de novo.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
abelardo barbosa
Assisti por esses dias, no GNT, ao documentário 'Alô, Alô, Teresinha', do Nelson Hoineff. Um tanto quanto atrasado, assumo, mas é uma pena que obras como essa não circulem pelas salas de cinema e a gente acaba tendo que esperar para que cheguem à TV (o filme foi lançado em 2009). O Brasil tem tradição no documentário, que o diga a obra de Eduardo Coutinho, e o filme de Hoineff só vem engrandecer essa tradição.
A grande sacada de 'Alô, Alô, Teresinha' é de evitar ao máximo o clichê de "o homem por trás do mito". Não interessa quem foi Chacrinha, como ele começou, como era sua vida familiar e coisa e tal. Há espaço para expor algumas idiossincrasias do homem, mas, no geral, o documentário descreve compropriedade as características do personagem midiático que ele criou.
O grande tema do filme me parece ser a exposição das engrenagens da fama, esta estranha e fugidia divindade. Apoiando-se basicamente em imagens de arquivo (uma pesquisa até interessante, mas no geral pouco explorada se considerarmos que o programa foi ao ar quase por duas décadas) e entrevistas com ex-calouros, cantores, ex-chacretes e técnicos que trabalharam no programa, 'Alô, Alô, Teresinha' desconcerta ao mostrar como a ilusão do sucesso (ou mesmo a luta para manter-se ligado a ele) pode ser cruel.
Cruel como era também o humor do Velho Guerreiro, que usava o povão como bucha de canhão para turbinar a audiência do programa. Claro que ninguém era inocente, mas o sonho da fama cega até quem já o alcançou (como fica evidente nas entrevistas com Wanderley Cardoso e Agnaldo Timóteo), imagine aí outros personagens mostrados no filme que (no caso dos calouros) não parecem ter o juízo meio firme.
De todo modo, um filme fundamental para entender a televisão brasileira.
***
O velho também escreveu sobre esse filme no blog dele. O texto tá melhor que o meu.
A grande sacada de 'Alô, Alô, Teresinha' é de evitar ao máximo o clichê de "o homem por trás do mito". Não interessa quem foi Chacrinha, como ele começou, como era sua vida familiar e coisa e tal. Há espaço para expor algumas idiossincrasias do homem, mas, no geral, o documentário descreve compropriedade as características do personagem midiático que ele criou.
O grande tema do filme me parece ser a exposição das engrenagens da fama, esta estranha e fugidia divindade. Apoiando-se basicamente em imagens de arquivo (uma pesquisa até interessante, mas no geral pouco explorada se considerarmos que o programa foi ao ar quase por duas décadas) e entrevistas com ex-calouros, cantores, ex-chacretes e técnicos que trabalharam no programa, 'Alô, Alô, Teresinha' desconcerta ao mostrar como a ilusão do sucesso (ou mesmo a luta para manter-se ligado a ele) pode ser cruel.
Cruel como era também o humor do Velho Guerreiro, que usava o povão como bucha de canhão para turbinar a audiência do programa. Claro que ninguém era inocente, mas o sonho da fama cega até quem já o alcançou (como fica evidente nas entrevistas com Wanderley Cardoso e Agnaldo Timóteo), imagine aí outros personagens mostrados no filme que (no caso dos calouros) não parecem ter o juízo meio firme.
De todo modo, um filme fundamental para entender a televisão brasileira.
***
O velho também escreveu sobre esse filme no blog dele. O texto tá melhor que o meu.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
poeminha para relaxar
eu queria pegar leve
no que falo
no que falo
pegar leve no teu peito
meu amor
meu amor
no teu pau
meu coração
meu coração
eu juro
é que na minha mão
não tem mais jeito
não tem mais jeito
tudo sempre
acaba ficando
acaba ficando
duro
(poema homoerótico roubado descaradamente do Marcelino Freire)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
sábado, 28 de janeiro de 2012
do the right thing
a noite avança junto com o calor. é uma e meia da madruga mas ainda assim ele sua feito um porco (nunca viu um porco suar, mas eles fedem e portanto devem suar para caralho). as piúbas de cigarro se amontoam na escrivaninha e a luta contra o teclado e a tela em branco não está nem perto do fim. faz horas que ele está ali sentado e ainda não saiu da primeira lauda - são muitas pela frente, ele sabe, mas elas não vêm, estão ali, em algum lugar de sua cabeça, rindo da sua cara. escrotas. ele sua feito um retirante (nunca viu um retirante, mas eles sempre têm aquela nódoa embaixo dos braços e no peito quando aparecem nas fotos) e acende mais uma bituca, dessa vez é um baseado pra ver se a cabeça relaxa e esquece pelo menos por enquanto dos prazos e da pressão do editor, que já ligou dezessete vezes cobrando a porra do texto e deixou bem claro que a grana, curta que nem o pinto dele deve ser, não vai sair de jeito nenhum se ele não estiver com a trolha de frases no e-mail dele amanhã às sete. e já é uma e meia, mas o calor não dá trégua, putaqueopariu, quem consegue escrever desse jeito? se ao menos ela estivesse ali, se ao menos ela tivesse ligado, se ao menos ela não tivesse sumido há mais de uma semana levando o pouco que havia sobrado de dinheiro e juízo, quem sabe ele pudesse terminar essa merda e seguir em frente, mas ele está parado, na frente do computador, apagando três em cada cinco sentenças que por algum milagre ele consegue obrar em quanto o suor escorre pelo seu pescoço e suas costas grudam no espaldar da cadeira. ele sua feito uma cuscuzeira (nunca viu uma cuscuzeira suar, mas por que diabos inventaram esse ditado afinal?). acabou a birita faz dias, o café é a única coisa fria na maldita casa e os cigarros vão amargando na boca. de repente, não mais que de repente, sobe aquele mormaço e o ruído no telhado começa. chuva. só podia, um calor da porra desses no meio da madrugada. o cheiro de terra sobe do quintal, entra pela sala, ignora cada um de seus dilemas e se instala em suas narinas. o barulho aumenta. o que fazer? o editor que se foda. que se fodam também o computador, os cigarros, essa página mal escrita do caralho, que se fodam ela e seu silêncio. lá fora tá chovendo e esse calor vai ter que passar. é o jeito.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
lovecraft
era um filho da puta misógino e racista, mas é difícil imaginar como seria a literatura de horror do século 20 sem sua presença. Além de ter lançado as bases do chamado 'horror cósmico', Lovecraft escreveu um ensaio importante sobre o estilo, 'O Horror Sobrenatural na Literatura' (ainda que datado e pouco versado nas mumunhas da teoria literária).
Por isso, a dica de hoje é para a leitura desse artigo comparando sua obra de horror com a pioneiro Edgar Allan Poe.
Na sequa, caia matando nesse ensaio altamente pirateado do Michel Houllebecq sobre o cara. E aprenda inglês, infeliz.
Por isso, a dica de hoje é para a leitura desse artigo comparando sua obra de horror com a pioneiro Edgar Allan Poe.
Na sequa, caia matando nesse ensaio altamente pirateado do Michel Houllebecq sobre o cara. E aprenda inglês, infeliz.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
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