era um filho da puta misógino e racista, mas é difícil imaginar como seria a literatura de horror do século 20 sem sua presença. Além de ter lançado as bases do chamado 'horror cósmico', Lovecraft escreveu um ensaio importante sobre o estilo, 'O Horror Sobrenatural na Literatura' (ainda que datado e pouco versado nas mumunhas da teoria literária).
Por isso, a dica de hoje é para a leitura desse artigo comparando sua obra de horror com a pioneiro Edgar Allan Poe.
Na sequa, caia matando nesse ensaio altamente pirateado do Michel Houllebecq sobre o cara. E aprenda inglês, infeliz.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
alguém?
Bom, o ano acabou, mas ainda tenho que entregar um conto de encomenda. Para tanto, preciso de uns 3 amigos que possam servir de beta readers, para avaliar o danado.
Quem for íntimo o suficiente deve ter aí meu e-mail na sua lista de contatos. Entra em contato que envio nesse fim de semana.
Desde já, agradeço.
Quem for íntimo o suficiente deve ter aí meu e-mail na sua lista de contatos. Entra em contato que envio nesse fim de semana.
Desde já, agradeço.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Falsa croniqueta para disfarçar a angústia
Bêbado só faz merda.
A noite seguia animada em volta da mesa de bilhar. Os tacos pareciam guiar os jogadores ao redor do jogo – e não o contrário. Sobre a mesa, pratos engordurados com restos de macaxeira e a graxa do bode dividiam espaço com o cinzeiro quase tão grande quanto um prato, lotado de bitucas de cigarro. A única coisa meticulosamente organizada no recinto eram as filas de garrafas vazias encostadas na parede.
Conversaram sobre tudo e mais um pouco: o último filme que tinham visto, umas fofocas sobre os amigos, um livro que falava sobre a Ribeira de antigamente, a incrível atração que todo adolescente metido a doidão tem pelo The Doors, lugares para visitar em viagens que nunca fariam. Envolvidos pelo papo, nem notaram quando o Cadu foi embora sem deixar nem um puto para a conta, ou quando a Nina e o Gilberto escaparam para dar uma no banheiro e quase foram tocados para fora do bar pelo garçom.
Da conversa passaram aos beijos como se fosse a etapa mais natural a ser cumprida. Ele sentia prazer em passar a mão sobre o joelho dela enquanto aspirava o perfume de seu cangote. Ela gostava de abraçá-lo pelas costas, alisando seu peito, a cada vez que ele se virava para pegar uma cerveja.
À medida que avançava a madrugada, diminuía o número de carros em alta velocidade avistados pela janela do primeiro andar onde ficava a espelunca. O número de mesas ocupadas, entretanto, crescia lentamente, com os demais bares da cidade encerrando a jornada. O álcool já batia pesado nas mentes, nas pestanas e nas línguas de todos, embargando palavras, interrompendo sentenças, promovendo cochilos.
Por volta das três da manhã, um velho disco do Pink Floyd tocava uma canção sobre duas almas perdidas num aquário. Ele virou-se rapidamente para os lados, para conferir se tinha mais alguém prestando atenção, fitou os olhos pontiagudos dela e disparou: ‘Te amo’. Ela continuou mirando-o com aqueles olhos capazes de afundar um transatlântico e sorriu.
Ele se levantou para pegar mais uma cerveja no balcão. Quando voltou, ela não estava mais lá. Tinha partido rumo ao primeiro ônibus da manhã ou a um táxi. O que passasse primeiro.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Raul Seixas: o início, o fim, o meio
Raul é Elvis. Raul é Cash. Raul é Plant. Raul é Garcia. Raul é Roberto & Erasmo. Raul é Pop. Raul é Lennon. Raul é Dylan. Raul é Lee Lewis. Raul é Richard. Raul é Allin. Raul é Reed.
Raul é foda.
***
O filme começa com Braulio Tavares recitando aqueles versos iniciais do Uivo de Allen Ginsberg: ‘Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura’. Depois, as motos de Fonda e Hopper em Easy Rider se confundem com o triciclo envenenado de um cover de Raul atravessando a caatinga nordestina.
Walter Carvalho, seu lindo.
Quer dizer: tem coisa mais Raul Seixas que isso? Porque, me perdoe a baianada do Tropicalismo, se teve alguém que praticou a antropofagia oswaldiana com propriedade, esse foi Raul. Inspirado no rock dos anos 50, Seixas construiu uma versão brasileiríssima e original do ritmo, primeiro com uma banda de jovem guarda, Raulzito e Seus Panteras, e depois numa carreira solo cujo sucesso inexplicável, aos olhos das gravadoras, forçou os caras da majors a terem de aturá-lo.
Ele surge depois, na película, durante um show nos anos 70, já como a persona que hipnotizou multidões, magro, cabeludo, a barbicha característica, alucinado, rabiscando o símbolo da sociedade alternativa no ventre, numa sequência que, pela fotografia e cenário, poderia muito bem ter sido documentada por D. A. Pennebaker. Eis o mito.
***
Haveria mais alguma coisa por baixo disso? Talvez sim, talvez não. Raul teve uma vida breve e intensa, mas muito desse tempo pareceu ter sido voltado para o cultivo de sua persona artística. Assim, mesmo que apareçam trocentas pessoas no filme falando sobre ele (e estão lá todos que tinham algo de relevante a dizer: familiares, amigos, parceiros de trabalho, fãs, colegas de infância) não dá para separar o Raul do palco do de verdade, se é que este último existia.
Carvalho parece entender bem isso ao refazer a trajetória do músico. Da infância ao fim melancólico à base de vodka e outras biritas, fica evidente que todos os passos de Raul o guiaram, conscientemente ou não, ao mundo da fama. Foi sua glória e ruína.
***
A contracultura dos anos 60/70 foi um fenômeno de massa. Raul entendeu isso como poucos e, a exemplo dos beatniks norte-americanos, soube usar a televisão como plataforma visual pra sua música.
Daí a riqueza de registros que rendeu, somados a quase uma centena de entrevistas, as mais de 400 horas de material que serviram como base para o filme. É na edição desse material que Walter Carvalho mostra sua maturidade como realizador – e coloca no chinelo seu irmão mais velho, Vladimir, sempre tido como o documentarista da família. A maneira como a vida pessoal de Raul se alterna com sua trajetória artística até ficarem indissociáveis à medida que o filme avança prova isso.
Outros exemplos da criatividade de Carvalho são a já citada sequência inicial, a fortuita intromissão de uma mosca durante a entrevista com o mago-chato Paulo Coelho, a briga de galos na troca da parceria com o bruxo pelo Cláudio Roberto, o envolvimento de Raul com Sociedade Alternativa e o misticismo. Um filme para ser revisto como dever de casa.
***
Essa onda do Raul me encheu a cabeça com aquele papo de Nietzsche sobre a estetização da vida. Ainda bem que Edônio e Clara, que estavam comigo na sessão, tiveram a mesma impressão. Raul Seixas não construiu uma obra: sua própria vida era arte. Cláudio Roberto fala, no filme, que o ser humano não precisa demais nada além de comer e sonhar.
Raul levou isso até as derradeiras conseqüências. Diabético, alcoólatra, inchado e permanentemente bêbado, em seu último ano de vida fez nada menos que 50 shows ao lado de Marcelo Nova, praticamente um por semana, mesmo sem as mínimas condições físicas para isso. Subiu ao palco seis dias antes de morrer.
A primeira vez que vi Raul Seixas foi em 89, pela tevê, quando ele e Nova se apresentaram no Faustão, que precisou interromper a apresentação no meio quando sacou que ele nem conseguia falar direito. Tinha 10 anos quando ele morreu, por isso não cheguei a curtir nenhum show dele ao vivo. Mas as imagens e os depoimentos sobre seus últimos dias me lembraram instantaneamente duas experiências marcantes, com outros dois artistas excepcionais: Itamar Assumpção e Lula Côrtes.
Curiosamente, vi esses dois se apresentarem no ano em que morreriam, ambos por câncer. Assumpção, em Natal, na última canção rolou no palco abraçado ao microfone numa interpretação tragicômica de uma canção que não lembro qual era. Côrtes, acompanhado pelos jovens da banda Má Companhia, chutou o pau da barraca em João Pessoa na maior demonstração de espírito rocker movido a uísque caubói que já presenciei.
Como eles, Raul Seixas preferiu queimar a vela até o final do pavio.
***
Há uma questão relativa à identidade que o filme raspa rapidamente, mas que por si só daria outro documentário.
Não há como negar que Raul Seixas foi um artista originalíssimo, que construiu uma estrada vicinal na música brasileira trilhada por muitos poucos. Além disso, havia toda uma imagem meticulosamente trabalhada que o tornou inconfundível – mas não inimitável.
Sim, porque se tem um pau que mais existe no mundo é o de fãs que não se contentam em cultuar as músicas e as idéias de Raul Seixas (eu, por exemplo, sou um deles), mas que precisam, também, ser o próprio Raul Seixas, se vestir como ele, assumir a persona do 'maluco beleza'.
No filme, surgem imagens da Marcha Anual para Raul Seixas, me parece que em São Paulo, e é, sem tirar nem pôr, uma versão vitaminada do Tributo a Raul Seixas promovido há 2 décadas por Erinho Seixas lá em Ceará-Mirim. Estão lá as boinas de Che, as jaquetas de couro, as garrafas de vinho barato e os centenas de Rauls imiscuídos na multidão.
Uma contradição interessante de ser investigada.
***
Raul não devia ter existido. Seu sucesso não devia ter durado. Seu legado deveria ter sido esquecido. Ainda assim, nem o DDT conseguiu exterminá-lo.
Raul é foda.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Bandido bom
Mate um ministro. Pode ser da Previdência.
Mate a senhorinha que joga papel na via pública.
Mate um empresário fraudador do Sistema Único de Saúde.
Mate um motorista bêbado. Se for menor de idade, melhor.
Mate um ex-governador. Ou uma ex-governadora.
Mate um parente lobbysta.
Mate um deputado federal.
Mate um jornalista. E um dono de jornal. Aliás, comece por este último.
Mate um médico que vende cirurgias no hospital público.
Mate um juiz negociador de sentenças.
Mate um vereador. De preferência antes da revisão do Plano Diretor.
Mate um ministro do Supremo.
Mate um viado. Qualquer um.
Mate um motorista de ônibus que recusou parada a um idoso.
Mate um policial que pede o 'do café' numa blitz.
Organize uma filinha e fuzile uma família oligarca centenária. Não deixe um.
Mate um lojista sonegador de impostos.
Mate uma prefeita ligada às causas ambientais.
Mate um prefeito ligado à causa própria.
Mate um industrial que frauda o banco de horas extras dos funcionários.
Mate um desembargador. De preferência, presidente do Tribunal de Justiça.
Mate um dono de posto de gasolina.
Mate um jovem que exibe seu paredão de som na orla.
Mate o maconheiro, o traficante, seu cachorro, a mulher e o amante.
Mate aquele cara do contrato para o transporte escolar na zona rural.
Mate um aspone pego na BR com a mala cheia de grana.
Mate uma dondoca estacionada em fila dupla na Afonso Pena.
Mate um promotor que reclama da alta dos combustíveis, assim que ele descer da Hilux.
Mate um engenheiro que assina o projeto sem ler.
Mate um perito da companhia de seguros.
Mate qualquer advogado aparentando boa índole. L e n t a m e n t e.
Mate, um a um, os integrantes da comissão de licitação.
E aquele ali, um poeta?
Acerte bem no meio da testa.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
horácio costa
Achei covardia reproduzir apenas o prólogo de Saramago ao livro de Horácio Costa e não dar nenhuma palhinha do poema que motivou o texto. Um poema, digamos, à altura de sua apresentação. 'O menino e o travesseiro' traz um texto só, meio narrativo, meio contemplativo - e denso por inteiro. Não é um poema muito extenso, mas dá para destacar uns trechos sem o prejuízo do todo.
***
No trânsito entre nome e objeto,
vivendo sua imprecisão,
a coisa é sempre única:
inaugural, fora da língua,
trapiche que invade a noite,
a sensação persiste em sua unicidade.
Não se move, sequer os olhos,
o menino que à paisagem só desfruta
e por completo a pode habitar.
***
Em nossa infância da percepção,
colamos sentidos como antefaces
ao que não tem sentido;
se nos seduz o inevitável,
percorremos mundo sem pensar nos pés:
vive o caminho o homem
e nas praias todas mergulha,
está sem estar no páramo
cuja acolhida estima
e a morte quando vier
encontrá-lo irá a algum lugar.
***
O caminho de ida
nunca é igual se o repetimos;
quando o fazemos, sem dar-nos conta
erguemos o intermitente véu
que cobre a efígie da velhice
e antes é o pânico à repetição
que o desafio da vez primeira
o que alimenta com suas enzimas
a magra dieta da gregariedade,
mesmo que privemos com os espinhos
ou que um pregador nos ameace
com zelo excessivo e dedo em riste;
por isso, e só por isso, Bartolomeu
o mar não voltou mais a ver
e retém as pálpebras fechadas
as cores que bordam a Serra:
as epífitas, as bromeliáceas,
as suculentas, os verdes vários,
os musgos, as samambaias
que alfombram os monolitos
por onde escorrem as cascatas
e suam as nuvens.
***
Agora, o melhor de tudo (ao menos, para mim): comprei esse livro numa queima no Hiper Bompreço, por R$ 6,90. Show de bola.
***
No trânsito entre nome e objeto,
vivendo sua imprecisão,
a coisa é sempre única:
inaugural, fora da língua,
trapiche que invade a noite,
a sensação persiste em sua unicidade.
Não se move, sequer os olhos,
o menino que à paisagem só desfruta
e por completo a pode habitar.
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Em nossa infância da percepção,
colamos sentidos como antefaces
ao que não tem sentido;
se nos seduz o inevitável,
percorremos mundo sem pensar nos pés:
vive o caminho o homem
e nas praias todas mergulha,
está sem estar no páramo
cuja acolhida estima
e a morte quando vier
encontrá-lo irá a algum lugar.
***
O caminho de ida
nunca é igual se o repetimos;
quando o fazemos, sem dar-nos conta
erguemos o intermitente véu
que cobre a efígie da velhice
e antes é o pânico à repetição
que o desafio da vez primeira
o que alimenta com suas enzimas
a magra dieta da gregariedade,
mesmo que privemos com os espinhos
ou que um pregador nos ameace
com zelo excessivo e dedo em riste;
por isso, e só por isso, Bartolomeu
o mar não voltou mais a ver
e retém as pálpebras fechadas
as cores que bordam a Serra:
as epífitas, as bromeliáceas,
as suculentas, os verdes vários,
os musgos, as samambaias
que alfombram os monolitos
por onde escorrem as cascatas
e suam as nuvens.
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Agora, o melhor de tudo (ao menos, para mim): comprei esse livro numa queima no Hiper Bompreço, por R$ 6,90. Show de bola.
saramago
"Abordar um texto poético, qualquer que seja o grau de profundidade ou amplitude da leitura, pressupõe, e ouso dizer que pressuporá sempre, certa incomodidade de espírito, como se uma consciência paralela observasse com ironia a inanidade relativa de um trabalho de desocultação que, estando obrigado a organizar, no complexo sistema capilar do poema, um itinerário contínuo e uma velocidade coerente, se obriga ao mesmo tempo a abandonar as mil e uma probabilidades oferecidas pelos outros itinerários, apesar de estar de antemão ciente de que só depois de os ter percorrido a todos, a esses e àquele que de facto escolheu, é que acederia ao significado último do texto, se o há, podendo suceder, por outro lado, que a leitura alegadamente totalizadora assim obtida viesse a servir, tão-somente, para impor portanto a necessidade de uma nova leitura. Todos carpimos a sorte de Sísifo, condenado a empurrar, pela montanha acima, uma sempiterna pedra que sempiternamente rolará para o vale, mas talvez o castigo do desafortunado homem seja saber que não virá a tocar, sequer, em uma só de quantas pedras, inúmeras, ao redor, esperam o esforço que as arrancaria à mobilidade.
"Não perguntamos ao sonhador por que está sonhando, não requeremos do pensador as razões do seu pensar, mas de um e outro quereríamos conhecer aonde os levaram, ou levaram eles, o sonho e o pensamento, aquela pequena constelação de brevidades a que costumamos chamar, por necessária, se bem que insatisfeita, comodidade, conclusões. Porém, ao poeta - sonho e pensamento reunidos - não se lhe há de exigir que nos venha explicar os motivos, desvendar os caminhos e assinalar os propósitos. O poeta, à medida que avança, apaga os rastros que foi deixando, cria atrás de si, entre os dois horizontes, um deserto, razão por que o leitor terá de traçar e abrir, no terreno assim alisado, uma rota sua, pessoal, que no entanto jamais se justaporá, jamais coincidirá com a do poeta, única e finalmente indevassável. Por sua vez, o poeta, tendo varrido os sinais que, durante um momento, marcaram não só o carreiro por onde veio, mas também as hesitações, as pausas, as medições da altura do sol, não saberia dizer-nos por que caminho chegou aonde agora se encontra, parado no meio do poema ou já no fim dele. Nem o leitor pode repetir o percurso do poeta, nem o poeta poderá reconstituir o percurso do poema: o leitor interrogará o poema feito, o poeta não pode senão renunciar a saber como o fez."
***
Esse é o trecho inicial do prólogo escrito por José Saramago para o poema 'O menino e o travesseiro', de Horácio Costa, publicado pela Geração Editorial. Achei tão totalmente demais que precisava compartilhá-lo aqui com vocês.
"Não perguntamos ao sonhador por que está sonhando, não requeremos do pensador as razões do seu pensar, mas de um e outro quereríamos conhecer aonde os levaram, ou levaram eles, o sonho e o pensamento, aquela pequena constelação de brevidades a que costumamos chamar, por necessária, se bem que insatisfeita, comodidade, conclusões. Porém, ao poeta - sonho e pensamento reunidos - não se lhe há de exigir que nos venha explicar os motivos, desvendar os caminhos e assinalar os propósitos. O poeta, à medida que avança, apaga os rastros que foi deixando, cria atrás de si, entre os dois horizontes, um deserto, razão por que o leitor terá de traçar e abrir, no terreno assim alisado, uma rota sua, pessoal, que no entanto jamais se justaporá, jamais coincidirá com a do poeta, única e finalmente indevassável. Por sua vez, o poeta, tendo varrido os sinais que, durante um momento, marcaram não só o carreiro por onde veio, mas também as hesitações, as pausas, as medições da altura do sol, não saberia dizer-nos por que caminho chegou aonde agora se encontra, parado no meio do poema ou já no fim dele. Nem o leitor pode repetir o percurso do poeta, nem o poeta poderá reconstituir o percurso do poema: o leitor interrogará o poema feito, o poeta não pode senão renunciar a saber como o fez."
***
Esse é o trecho inicial do prólogo escrito por José Saramago para o poema 'O menino e o travesseiro', de Horácio Costa, publicado pela Geração Editorial. Achei tão totalmente demais que precisava compartilhá-lo aqui com vocês.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Musicartum
O cartunista, designer e a-porra-toda Brum, um dos figuras mais bacanas com quem já tive a oportunidade de trabalhar, criou um projeto interessantíssimo.
O Musicartum é, basicamente, uma ilustração baseada em uma canção. Mas o pulo do gato do Brum foi justamente gravar o making of da criação do desenho (pelo menos a parte digital da coisa) e encaixar o time lapse na duração da música que inspira o cartum.
Como além de não ser burro, ainda é esperto pra caramba, o sujeito abriu o projeto com uma música sensacional de Sá, Rodrix e Guarabira, o clássico 'Mestre Jonas'.
Brum avisou que vai imprimir os cartuns (formato 60cm x 45cm) e, quem quiser, pode encomendar a sua cópia. Eu, como acho Jonas um dos livros mais invocados das Escrituras (parede e meia com o de Jó) e sou fã de Moby Dick, já encomendei o meu.
O Musicartum é, basicamente, uma ilustração baseada em uma canção. Mas o pulo do gato do Brum foi justamente gravar o making of da criação do desenho (pelo menos a parte digital da coisa) e encaixar o time lapse na duração da música que inspira o cartum.
Como além de não ser burro, ainda é esperto pra caramba, o sujeito abriu o projeto com uma música sensacional de Sá, Rodrix e Guarabira, o clássico 'Mestre Jonas'.
Brum avisou que vai imprimir os cartuns (formato 60cm x 45cm) e, quem quiser, pode encomendar a sua cópia. Eu, como acho Jonas um dos livros mais invocados das Escrituras (parede e meia com o de Jó) e sou fã de Moby Dick, já encomendei o meu.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
[ensaio] o mito do eterno retorno: tempo e espaço como formas do cotidiano nas tirinhas de jornal
Este ensaio foi desenvolvido a partir de umas ideias que lancei anteriormente, no texto sobre Bachelard. Tenho pensado bastante este ano na natureza do tempo na narrativa dos quadrinhos.
O texto a seguir, pra variar, é parte de um maior, que engloba também algumas especulações sobre as histórias de super-heróis. Como o professor da disciplina Teorias do Cotidiano, Wellington Pereira (que infelizmente abandonou o twitter), limitou o espaço do ensaio para 5 laudas, acabei resumindo a pensata às tiras diárias.
Divirtam-se.
O texto a seguir, pra variar, é parte de um maior, que engloba também algumas especulações sobre as histórias de super-heróis. Como o professor da disciplina Teorias do Cotidiano, Wellington Pereira (que infelizmente abandonou o twitter), limitou o espaço do ensaio para 5 laudas, acabei resumindo a pensata às tiras diárias.
Divirtam-se.
sábado, 26 de novembro de 2011
intervalo comercial
próxima sexta, dia 2, Jards Macalé no show Revendo Amigos, no Bar do Zé Reiera, Centro. À noite. Parece que é 15 contos, confira em algum jornal. Imperdível.
***
Porque se Jards só tivesse gravado essa faixa, já seria um gênio.
***
Porque se Jards só tivesse gravado essa faixa, já seria um gênio.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
bortolotto
Bortolotto, meu velho, assim você quebra minhas pernas.
***
Tem tudo isso que ela pensa que eu sou. O desastre. E poucas vezes eu testemunhei um sorriso interrompendo um massacre. Agora eu sei que a chuva não vai lavar toda a tristeza. Eu sei que a chuva só vai emoldurar a última cena dessa manhã sem sol. O que me alivia é aquele momento de silêncio com ela sem jeito e sem saber onde colocar as mãos. Se ficava de pé ou não. Então quando tudo não fizer mais o menor sentido, pelo menos eu vou lembrar dessa manhã sem sol, dos carros subindo a rua, da chuva embaçando meus olhos. Mas acima de tudo, vou lembrar que ela não sabia se sorrir era de bom tom. E então ela vai embora, no momento que eu solto a pause do detonador. Ninguém nunca mais vai me tirar daqui. Da frente dessa porta que não vai mais abrir.
***
E digo mais:
***
Tem tudo isso que ela pensa que eu sou. O desastre. E poucas vezes eu testemunhei um sorriso interrompendo um massacre. Agora eu sei que a chuva não vai lavar toda a tristeza. Eu sei que a chuva só vai emoldurar a última cena dessa manhã sem sol. O que me alivia é aquele momento de silêncio com ela sem jeito e sem saber onde colocar as mãos. Se ficava de pé ou não. Então quando tudo não fizer mais o menor sentido, pelo menos eu vou lembrar dessa manhã sem sol, dos carros subindo a rua, da chuva embaçando meus olhos. Mas acima de tudo, vou lembrar que ela não sabia se sorrir era de bom tom. E então ela vai embora, no momento que eu solto a pause do detonador. Ninguém nunca mais vai me tirar daqui. Da frente dessa porta que não vai mais abrir.
***
E digo mais:
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
oswaldo lamartine
Conhecer Oswaldo Lamartine de Faria foi uma das boas coisas que o trabalho como jornalista me proporcionou. Além de grande escritor, e aqui o grande é até um adjetivo que diz pouco sobre sua escrita, era um 'figura humana' (eita, clichezinho sem vergonha) ímpar.
As atenções se voltam mais uma vez para a obra de Oswaldo Lamartine de Faria com esta edição do Festival Literário de Pipa, que começa hoje. É ótimo, mas é pouco. Oswaldo devia ser lido todo dia, que nem ladainha de missa.
Enquanto cascavio aqui meus alfarrábios atrás de uns textos que escrevi sobre o cabra, fiquem com o discurso que o próprio apresentou à UFRN, ao receber o título de doutor honoris causa daquela instituição. Vale lembrar que ele sequer chegou a possuir curso superior. Era um sem-diploma.
***
As atenções se voltam mais uma vez para a obra de Oswaldo Lamartine de Faria com esta edição do Festival Literário de Pipa, que começa hoje. É ótimo, mas é pouco. Oswaldo devia ser lido todo dia, que nem ladainha de missa.
Enquanto cascavio aqui meus alfarrábios atrás de uns textos que escrevi sobre o cabra, fiquem com o discurso que o próprio apresentou à UFRN, ao receber o título de doutor honoris causa daquela instituição. Vale lembrar que ele sequer chegou a possuir curso superior. Era um sem-diploma.
***
À UFRN, na pessoa do seu reitor Dr. Ivanildo Rêgo,
professores, funcionários e alunos.
Perdi horas de sono e de sossego tentando entender a razão
de tudo isso.
De primeiro, cuidei ter sido pelos descaminhos dos homens
neste mundo de ranger dentes, desassossegado que nem as ondas do mar. Depois,
quem sabe, o afago de vosmecês, no adeus desse meu imerecido viver. Sei lá. É
que a balança do julgamento dos amigos costuma ser manca.
E não é astúcia, pantim, nem cavilação, pois o que botei no
papel foram apenas momentos do dia-a-dia do nosso sertanejo.
Convivi com alguns deles debaixo das mesmas telhas – tenho
repetidamente confessado.
Mestre Pedro Ourives e seu filho Chico Lins – magos do
couro, zelosos e ranzinzas, da escolha do couro-verde ao derradeiro nó-cego da
costura. Ramiro e Bonato Dantas, pescadores d’água doce e memorialistas. Zé
Lourenço, tora de homem, analfabeto, cujos instrumentos de trabalho se resumiam
em um nível de pedreiro e um novelão de cordão. Pois bem, apenas com eles,
levantou 640 metros
de parede do açude Lagoa Nova sem deixar um caculo nem uma barroca – o que
deixou o engenheiro do DNOCS de queixo caído.
Olinto Ignácio, rastejador e vaqueiro maior das ribeiras de
Camaragibe. Vi, um dia, ele se acocorar na beira do caminho e ler no chão da
terra: “Passou fulano, beltrana e uma menina. É que a gente dessa terra tanto
faz eu espiar a cara cumo o rastro...” E todos já envultados com a Caetana.
Daí eu repetir: é mais deles do que meu esse título.
Mesmo assim, encabulado, areado e zonzo, tenho de confessar:
não sou soberbo nem ingrato.
Agradeço a vmc e, mais ainda, ao doutor Reitor – sertanejo
das Terras do Pôr-do-sol. Onde, naqueles ontens, os condutores das boiadas
ferravam o tronco de um pé-de-pau onde se arranchavam. Coisas de um Sertão de
Nunca-Mais. Tempos do imperador velho. Mas isso é outra conversa.
Boa noite. Façam, agora, como manda aquele menino:
Batam palmas com vontade,
Faz de conta que é turista...
terça-feira, 15 de novembro de 2011
[resenha quase sentimental] É preciso ter sorte quando se está em guerra
Minha geração rendeu muita gente boa. Quando falo em 'minha geração' estou considerando aqueles caras uns cinco anos mais novos ou mais velhos do que eu, que são meus amigos e estão por aí tirando onda há mais ou menos uma década. São as figuras com as quais, em um determinado e crucial momento, a convivência foi um elemento central na definição do tipo de maluco que a gente seria dali pra frente.
Desse bolo, saíram bons jornalistas, poetas, cineastas (no caso, pelo menos um), pesquisadores, professores, artistas plásticos e músicos, entre outros inúteis. E minha geração rendeu um bom ficcionista, o melhor entre eles, Pablo Capistrano.
![]() |
| legenda autoexplicativa e desnecessária: capa do livro |
São três contos bastante acima da média da ficção que vem sendo publicada em Natal recentemente. Li, quase numa paulada só, nesse fim de semana.
No livro, Pablo aprofunda a relação com a literatura fantástica que havia ficado evidente em seu romance de estreia, Pequenas Catástrofes, e faz uma pequena viagem sentimental aos anos 90, a época em que éramos jovens, mas nem tão inocentes assim.
O conto de abertura, 'A Escada de Jacó', retoma um tema clássico da literatura do gênero, o doppelgänger, o duplo, que está por aí assombrando escritores há um bom tempo. No enredo, um norte-rio-grandense descobre um 'antípoda' seu, mais famoso e bem sucedido, morando no Rio Grande do Sul.
Dá pra lembrar, por exemplo, de Allan Poe e de Borges – quem melhor soube desenvolver esse tropos. Talvez por isso, por discorrer sobre um tema já recorrente, seja a história que menos funcionou para mim.
Uma narrativa interessante, mas que peca em alguns momentos como, logo no início, na reação exagerada do protagonista ao fato singular que desencadeia a trama. Em outros, dá pra sentir a mãozinha do autor forçando a barra para instaurar o sentimento do fantástico, aquele estranhamento que perturba a realidade ficcional, sem, no entanto, escangotar para o fantasioso, como ensina o tio Todorov.
Esse mergulho no fantástico está bem melhor resolvido em 'O Sutra do Girassol'. O caleidoscópio de referências usadas por Pablo se mostra mais eficaz na narrativa sobre Ariel, um boêmio cuja vida é alterada por um evento cósmico inusitado que o atinge durante uma mijada.
Vê-se ali alguns temas caros a Lovecraft, apesar do estilo mais espontâneo e coloquial adotado por Pablo – o que nos remete também às histórias de Vonnegut, até pelo humor que permeia a narrativa. Há tempo ainda pra uma escorregadela kafkiana e uma alusão sem-vergonha a este resenhista que será devidamente vingada no momento apropriado.
E aí chegamos à Grande História deste livro de Pablo. Em 'Saudades do Amor', o relato sobre uma antiga paixão de um amigo, Rudá, serve de pretexto pra o narrador dar um breve e intenso mergulho na década de 1990.
Não sei quanto a vocês, mas eu estava lá. Digo, nos anos 90. E apesar da mística e do saudosismo que envolvem quaisquer lembranças referentes aos anos de juventude de alguém, ser um adolescente, ou começar a se despedir da adolescência naquela Natal era uma experiência plena de som, fúria e tédio.
Quer dizer, tinha todos aqueles livros, as bebedeiras, as festas sensacionais em que dificilmente se comia alguém, os programas de índio a la 'yanomâmi tur' e a tentativa diária e muitas vezes frustrada em romper a pasmaceira que cobria a cidade feito a bruma de fumaça deixada pelas fogueiras de São João.
E tinha o Nirvana. Puta merda, como aquele cara podia entender tão bem a insuportabilidade tropical da nossa cidade mesmo vivendo em Seattle, onde chove 300 dias por ano? Não sei. Mas funcionava que era uma beleza.
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| Pablo foi substituído por um gaúcho gordinho |
Como um descarado discípulo beatnik, Pablo mistura boa ficção com lembranças mais ou menos reais e é irresistível, pelo menos para quem esteve lá – como eu, o exercício de identificar locais, situações e amigos que emergem no conto.
A droga que Rudá e seus amigos tomaram no cais da Rua Chile (LSD? Tetrapharmakon? Madeleines?) me fez pensar em quantos de nós ainda nos falamos pelo menos uma vez por ano, num encontro fortuito; quantos piraram e nunca mais foram vistos; quantos morreram; quantos viraram crentes e fingem olhar alguma vitrine ao nos cruzarmos no corredor de um shopping.
Ao mesmo tempo – que besteira – tudo aquilo já passou, é finito, ficou pra trás, ca-bum. E talvez nem tenha sido uma história assim tão interessante. No final, só o que restou mesmo foi muita gente boa por aí, e um bom ficcionista, o melhor dentre nós, para nos enganar numa tarde de domingo contando histórias mais ou menos reais de quando éramos jovens e nem tão inocentes assim.
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P.S.: Havia prometido esta resenha pra ontem, mas nesse feriadão a internet e o universo conspiraram – o que nunca ocorre a meu favor.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
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